Foi muito por causa dela que comecei a gostar de Modigliani. Lembro-me de, ainda pequena, achar espantosos os retratos desta mulher – o cabelo ruivo, solto ou apanhado, os olhos enormes e claros, o pescoço, sobretudo o pescoço, longo e esguio, E de achar graça ao nome – Jeanne. Joana como eu. Foi também por causa dela que durante muito tempo me desgostei de Modigliani e dos mesmos quadros. Porque ao olhá-los não conseguia afastar a aterradora visão de uma mulher jovem, grávida, a atirar-se, de costas, de um quinto andar para a morte. E de uma menina, também Jeanne, que no curto espaço de dois dias ficou só no mundo.
Jeanne Hébuterne nasceu em 1898, em Paris. Seguindo os passos do seu irmão, André, começou a estudar desenho e pintura e a frequentar os círculos artísticos de Montparnasse. Foi aí que em 1917 conheceu Amedeo Modigliani. Jeanne tinha 19 anos, Amedeo mais catorze. Foi imediata a sua paixão. E tão intensa como o era o próprio Modigliani.
Desafiando a família, católica e convencional, a quem muito desagradavam os variados e constantes excessos de Amedeo e o facto de este ser judeu, Jeanne foi viver com ele. A vida do casal alternava períodos de grande turbulência com períodos de tranquilidade e harmonia, em que ambos desenhavam e pintavam, não raro retratando-se um ao outro. No final de 1918 nasceu-lhes uma filha. Meses depois, Jeanne voltou a engravidar. Vários dos seus retratos pintados nesta época por Modigliani mostram, com delicadeza e ternura, as suas formas arredondadas. Terão sido felizes, apesar da quase constante penúria e da crescente deterioração da saúde de Amedeo. A tuberculose, que o afligira na adolescência, regressou, e com gravidade. Amedeo morreu a 24 de Janeiro de 1920, de meningite tuberculosa. Na madrugada do dia seguinte, Jeanne, grávida de oito meses, conseguiu iludir a cerrada vigilância familiar e lançou-se da janela de casa dos seus pais.
Esta morte de Jeanne impressiona-me profundamente e intrigou-me durante muito tempo. Nunca me convenceu o epitáfio que, anos mais tarde, quando da sua trasladação para o Pére Lachaise, onde jaz ao lado de Modigliani, lhe compuseram: “devotada companheira, até ao sacrifício extremo”. Não encontro outra explicação para o seu acto — totalmente incompreensível, com uma vida por viver, uma outra dentro de si e mais uma pela mão — que não seja o absoluto desespero causado pelo desgosto da perda, claro, mas também pelo desgaste de ter acompanhado sozinha e num estado de extrema vulnerabilidade, sem ajuda e sem meios, os últimos dias de Modigliani. Agravado pela angustia quanto ao futuro e pelo sentimento de não pertença aos dois meios em que se movia e que marcara toda a sua vida — demasiado livre e outrageous para a sua conservadora família, demasiado bourgeoise para o grupo de Montparnasse, cuja boémia nunca a atraíra (e no qual pontuavam as inúmeras amantes de Amedeo, anteriores e contemporâneas de Jeanne, que abertamente a hostilizavam).
Mas foi justamente pela sua dramática e prematura morte e pelo seu papel de musa de Modigliani que Jeanne passou à posteridade. Pouco chegou até nós da sua vida e da sua arte. Sabe-se que era tímida, gentil e reservada. Que tocava violino e que concebia e confeccionava as suas próprias roupas e adereços. Os seus trabalhos, intransigentemente guardados pela família durante décadas, só se tornariam conhecidos em 2000 – por determinação e graças ao esforço da filha, que dedicou grande parte da sua vida adulta a reconstituir a história dos pais (que ambas as famílias lhe haviam ocultado), a firmar o legado artístico da mãe e, sobretudo, a reabilitar a memória do pai. A obra de Jeanne – cerca de 60 desenhos e 6 pinturas – revela uma forte influência de Modigliani, mas deixa também adivinhar já um estilo próprio, diferente e arrojado.
É possível que tivesse chegado longe. Nunca saberemos. Porque partiu demasiado cedo. Tinha 21 anos.




















Que bonita!
Gostei de mais uma história de Joana, embora nem todas sejam um exemplo a seguir!
Mas creio, que é mais uma que teria ido longe se cá continuasse a demonstrar os seus talentos, como se vê pela amostra.
Joana, é tambem muito isso que impressiona na história desta Joana: viveu tanto em tão pouco tempo e, no entanto, deixou tanto por viver!
Não fazia ideia que fosse tão nova. E sim, muito bonita.
Joãozinha, que boa surpresa! Seja muito bem-vinda aqui ao cemitério!
Faz-me lembrar aquelas anjas do Dante Gabrielle Rossetti, só que em verdadeiro.
Venho aqui vê-la de vez em quando.
Fico contente por gostar, António. Fui ver as “anjas” de que fala e achei muito bonitas.
Cega, só hoje consegui…
Mais uma bonita história, de mais uma Joana.
Aliás, sem contar comigo, q tenho uma história quase normal, acho que todas as Joanas que conheço têm uma história especial e sempre com qualquer coisa de…heróico!!
Bjns, gostei muito!
Hello, Cega, ainda bem que gostaste! Concordo contigo, excepto num ponto: nos tempos que correm, ter uma “história quase normal” como a tua é também — e como! — algo de especial e fruto muitas vezes de um esforço quase heróico!!!
Uma grande tragédia.
Só posso imaginar que o desespero de perder quem mais se ama a tenha levado para junto dele
em outras paragens.
Ví os dois filmes sobre Amedeo.
Ambos tristes, pois que teve uma vida triste.
Parabéns pelos escritos, gostei de ler.