Hank Jones
Queridos Mortos


No domingo passado não houve tragédia, sequer drama, com a morte de Hank Jones. Aos 91 anos sucedeu-lhe o que seria mais provável. Todavia o passamento do pianista faz confluir várias nuvens que enegrecem o espírito de melancolia.
Dos tempos áureos e até heróicos do jazz, esses nunca por demais admirados anos do pós-guerra até meados da década de 60 quando Miles Davis apostou o carimbo da sua autoridade em  soluções que a passagem do tempo demonstrou terem sido pouco interessantes – sabemo-lo e ouvimo-lo hoje, já desprendidos das polémicas de então –, desses idos do jazz sobrevivem, se não me trai a memória, dois gigantes, que apesar de tão longevos continuam a dar vitalíssimos sinais de criatividade musical: Ornette Coleman, o pai do free jazz, cuja mãe será um obscurecido e desaparecido Cecil Taylor e o titã Sonny Rollins, que nunca tendo sido pai de nada, nunca deixou de estar no centro de tudo, ou seja, logo ali ao lado de Coltrane, Mingus, Monk e Davis.
A morte de Hank Jones, com a idade que tinha e pela actividade que manteve até aos derradeiros momentos, é mais um pouco da morte do jazz. Embora cause admiração, é verdadeiro afirmar que nunca o jazz teve tantos e tão bons músicos como hoje; nunca terá sido tão bem interpretado como hoje; nunca tantas universidades o estudaram e musicalizaram como hoje; nunca tantas obras de jazz se editaram como hoje. Todavia, o resultado nunca foi tão académico, precisamente por efeito de ser o jazz agora parte da música erudita e matéria de análise musicológica, que é uma forma de embalsamento daquilo que antes era uma fina mistura entre intuição e sabedoria – e, sobretudo street life. A prova? Façam lá o favor de me trautear um standard nascido da inspiração de Winton Marsalis, o comandante em chefe do movimento de retorno às raízes boppers e swingantes que encabeçou no princípio dos anos 80? Em boa hora o fez, verdade seja dita, porque de tal modo o free jazz se refastelava na dissonância e na des-construção harmónica, que se tal enredo tivesse continuado a dominar o género, já nada dele haveria hoje para dizer, morto que estaria de tédio ou de cansaço. Mas é bem capaz de ter sido um bem que não veio por melhor, porque as cabeças do jazz e do seu público parecem grisalharem-se na mesma medida, sem surpresas – ou só poucas – nem progressos.
Por tudo isto passou Hank Jones na sua versátil que não eclética carreira. Seria injusto colocá-lo no pedestal de Duke Ellington, ou Bill Evans, ou Thelonious Monk; Jones não era uma divindade, como estes que praticaram o melhor que a música, toda a música, do século XX nos deu. Mas com a morte de Hank Jones, desaparece um modo de ser (mais do que um estilo ou escola) do jazz: aquilo que se chamava o “Jazz de Detroit”. Aliás, para ser mais tremendista, poderá arriscar-se que com Hank Jones vai a enterrar a própria Detroit.
O tal “Jazz de Detroit” já não era aquele jazz nascido a sul de St. Louis, de pescoço vermelho e reminiscências rurais; também não era o jazz sofisticado de colarinho branco de Nova Iorque; e demarcava-se ainda do estilo relaxado da West Coast; era um jazz de colarinho azul: impetuoso, quase agreste de tão rítmico, tocado bem alto, muito emotivo – o Hard Bop.
Hank Jones era o mais velho de três irmãos, aos quais sobreviveu. O do meio era o trompetista Thad, que teve de Portugal as pior das recordações, pois a belíssima orquestra que dirigia com Mel Lewis desfez-se no camarim do Cascais Jazz após uma homérica discussão entre ambos, com  o pobre Villas Boas debalde tentando apaziguá-los, mas apenas conseguindo que não passassem a vias de facto. O benjamim era Elvin Jones, que tinha fama de atropelar o soprador que se lhe pusesse à frente, de tal forma era dinâmico e pujante o som que libertava da bateria. Tocar diante dele era um desafio que poucos aceitavam, só mesmo gente do calibre de um John Coltrane.
Foi esta família e mais uns tantos – Lucky Thomson, Kenny Burrell, Pepper Adams, Milt Jackson, Tommy Flanagan, e um grande etc. – os pilares do então famoso “jazz de Detroit”. Tudo foi, nada descendeu.

Não deixa de ser assustador imaginar que uma cidade pode morrer por dentro, corroída pelo abandono. É o caso exemplar de Detroit, cuja downtown são ruínas fantasmagóricas e não poucas áreas residenciais, outrora ricas, são hoje desolados baldios. Nas imagens recolhidas por Stan Douglas no final do séc. XX, já não se consegue ouvir o Hard Bop, fica apenas um triste silêncio. Já não há o delicado piano de Hank Jones.



Comentários a “Hank Jones” (3)

  1. Vasco Grilo diz:

    Grande texto Zé! Nos EUA, ouvi grande Jazz por sítios como Memphis, Chicago, New Orleans e claro está NY. A Detroit nunca fui, nunca lá ouvi música e sei agora que nunca lá ouvirei este não-eclético, não-divino mas muito grande, Hank Jones.

    PS: Gostei muito do que dizes do Sonny Rollins. Eu diria mesmo que nunca foi pai, mas sempre espírito santo.

  2. José Navarro de Andrade diz:

    Obrigado Vasco, les bons esprits…

  3. Joana Vasconcelos diz:

    José Navarro, gostei muito. Não conhecia nada de nada. Por isso fiquei mais sabedora, claro, mas sobretudo muito curiosa — será que não nos pode dar um bocadinho de música de Hank Jones aqui ou lá em cima?

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