Graciousness

Gosto desta qualidade, que reúne a simpatia, a generosidade e a elegância de quem está tão bem consigo que lhe é fácil apreciar, valorizar e promover o outro. Requer uma alma grande e uma cabeça bem arrumada, com os complexos e as inseguranças resolvidos, que permitam evidenciar o outro, fazê-lo ou deixá-lo brilhar, colocando-se num discreto segundo plano. Sobretudo quando o outro é mais novo e tem ainda toda uma vida pela frente, de  oportunidades de sucesso e realização.

E foi graciousness que me ocorreu quando há dias li o texto que Stevie Nicks, dos Fleetwood Mac, escreveu sobre Taylor Swift, eleita pela revista Time como uma das 100 Most Influential People in the World. Há muitos anos que assino a Time. É um dos momentos felizes da minha semana aquele em que a tiro da caixa do correio e lhe espreito a capa, antes de rasgar o plástico que a envolve. Depois meto-a no saco dos livros e dos Códigos e levo-a comigo, para ir lendo nos bocadinhos de tempo que vou tendo. Gosto muito dos números especiais que a Time, por alturas de Dezembro, dedica à Person of the Year e em que faz o balanço do ano que termina, em imagens, eventos – e com uma tocante secção dedicada aos que nos deixaram. E também daquele em que, desde há uns anos para cá, e por esta altura, escolhe as 100 Most Influential People in the World. Folheio-o sempre rapidamente para ver quem são e só depois leio os textos relativos a cada um. Nunca por ordem, mas conforme me vai apetecendo. Grande parte é escrita por pessoas tão ou mais influentes, famosas e, em geral, achieved, na mesma ou noutra área. E revelam sempre tanto sobre o visado como sobre o seu autor. No número deste ano, gostei de ver entre os 100 Sonia Sottomayor, a primeira latina a chegar ao Supreme Court americano. Gostei de ler sobre Kathryn Bigelow por Oliver Stone, sobre Steve Jobs por Jeff Koons, sobre Kim Yu-Na, a fabulosa patinadora coreana que ganhou o ouro em Vancouver, pela não menos fabulosa Michelle Kwan, sobre Bill Clinton por Bono, dos U2. Mas especialmente do texto que sobre Taylor Swift escreveu Stevie Nicks.

Taylor Swift tem 20 anos. É muito talentosa e linda de morrer. Escreve e compõe as suas próprias canções, que acompanha à guitarra, e que já lhe valeram 4 Grammys. Stevie Nicks começa por afirmar que a sua determination e childlike nature lhe lembram as suas, há quarenta anos. Acha notáveis e merecidos os Grammys que Taylor já ganhou e confessa-se sua admiradora. Diz que Taylor is writing for the universal woman and for the man who wants to know her. E conclui dizendo, não apenas que the female rock-‘n-roll-country-pop song writer is back, mas que serão women like her who are going to save the music business.

Mais gracious, só o gesto a mesma Stevie Nicks, quando aceitou o convite de Taylor Swift para partilhar com ela o palco na cerimónia dos Grammy Awards, cantando uma das suas canções – sem se deixar deter por Taylor ser 20 years old, 1,8 meters and slender e ela, Stevie, ser 40 years older and neither of the other two things.


Escrevi ao som dos fantásticos Fleetwood Mac que o Manuel Fonseca tão oportunamente postou e que me deram o impulso e a inspiração para escrever este post que há tempos andava para fazer. E que daqui agradeço.

Comentários a “Graciousness” (16)

  1. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Gostei mesmo muito, Joana. E não só porque manifesta a acção dos maiores sobre os grandes, mas pelos que, no nosso dia a dia e desde sempre, ao enfocarem a luz sobre as nossas pequenas virtudes nos ensinam que não nos fazemos menores quando a apontamos aos outros.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Fico contente por ter gostado, Eugénia. Nesta nossa idade, em que sinto estar in between gerações, agrada-me e valorizo cada vez mais, sobretudo (mas não exclusivamente) em questões de trabalho, a gratiousness concretizada em dar espaço e oportunidade aos mais novos, vsalorizá-los, deixá-los afirmarem-se e mostrar o que valem e, sendo altura, saber recuar, retirar-se, dar palco aos que se seguem. Considero que fui sempre muito afortunada nesse plano e tento, justamente porque sinto que começa a ser altura de o pôr em prática, ir fazendo o mesmo que me fizeram e tanto me ajudou e beneficiou. Como vê, a estou no caminho da plena sabedoria (a modéstia é que não há maneira …)

  2. Turmalina diz:

    As duas são lindas e cantam maravilhosamente bem juntas :o)

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Olá Joana, ainda bem que o Peter Green a inspirou. Espero que tenha dançado um bocadinho a ouvir o Need Your Love So Bad. A Stevie Nicks é uma segunda geração dos FM, a seguir a 75, tinha eu deixado o rock a favor dos merengues de musseque. A sua história é bonita. As duas lady singers tratam-se quase tãoo bem como nós neste cemitério que andamos sempre a dizer bem uns dos outros (o Navarro que não nos ouça que ele gosta de pensar que não). E não digo mais nada que agora vou pôr comments a dizer bem dos outros posts todos (até nos meus, com pseudónimo).

    • Joana Vasconcelos diz:

      Olá Manuel, confesso que fiquei um bocado surpreendida de início com estes seus Fleetwood Mac — eu apanhei-os ou fui apanhada, não sei ao certo, já na fase Stevie Nicks … Fui à wiki e fiquei a saber como era antes. E gostei muito. Foi de facto um belo e inspirado fim de tarde.

      Concordo consigo, que nós cadáveres aqui jacentes somos mortalmente simpáticos uns com os outros, nos fúnebres comentários que fazemos aos sinistros posts uns dos outros. Mas é tambem ou sobretudo por isso que deste extraoridinário cemitério ninguém quer sair, para ir trabalhar, ao supermercado ou dormir, e menos ainda para ir para o céu!

  4. Anita visita os mortos diz:

    Joana, nem tu és a Taylor Swift nem eu a Stevie Nicks (thank God for both!). Mas serei eu um pseudónimo teu que aqui vem sugerir que outros pratiquem a sua graciousness sobre ti? Deixemos a dúvida no ar, graciously, quanto à minha existência e intencionalidade…

    • Joana Vasconcelos diz:

      Anita, minha boa e gratious amiga, pois parece que não somos. Mas, a sermos — e deixando de lado a questão da altura … (LOL) — a provecta Stevie, sabe-lo bem, seria moi. Quanto às questões que envolvem a tua misteriosa pessoa, eu tenderia a afastar a tese do pseudónimo: 1) porque jamais me ocorreria a Anita (só mesmo tu …) … 2) não me posso queixar de falta de graciousness dos outros mortos jazentes aqui no cemitério, mais das almas penadas que nos visitam: são todos (como dizia uma irmã do meu pai quando era pequena) amorosos e muitíssimo simpáticos …

  5. antónio eça diz:

    Os FM do Peter Green são do bom tempo.
    Já da Stevie Nicks nunca fui grande fã, suponho que devido ao síndrome do líder desapareceido.
    É como os Doors sem o Morrisson.

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