Francisco Suárez…
Queridos Mortos


Francisco Suárez nasceu em Granada, no dia 5 de Janeiro de 1548, oriundo de uma família nobre e bem provida de fortuna. Recebeu educação profundamente católica, pelo que, sendo o segundo de oito filhos (tinha três irmãos e quatro irmãs), não é de estranhar que, aos 10 anos de idade, tenha tomado a tonsura clerical, ao que parece de acordo com a sua própria vontade. Até aos treze anos estudou latim e gramática, em Granada, altura em que foi mandado com um irmão para Salamanca, para cursar cânones na Universidade, onde aparece no respectivo livro de matrículas até 1563. Em 1564, entusiasmado com as pregações que o Padre jesuíta João Ramirez fazia no átrio da Universidade, pediu, juntamente com outros alunos, para ser admitido na recém criada Companhia de Jesus. O pedido, no entanto, foi indeferido, sendo parecer unânime do Conselho do Colégio que o candidato tinha boas qualidades morais, mas talento insuficiente e saúde pouco robusta.
Suárez, porém, deslocou-se até Valladolid onde, de forma humilde, mas apaixonada, apelou ao Superior da Província, que reuniu o respectivo Conselho, mas obteve idêntico parecer. O seu esforço, contudo, foi compensado, já que o Provincial decidiu contra o parecer dos consultores (como era, aliás, seu direito) e admitiu Suárez na Companhia. Admitiu-o, no entanto, na classe de indiferente, isto é, dependendo da aptidão que viesse a demonstrar para os estudos, viria a servir a Ordem ou como simples irmão converso ou, como era seu desejo, como sacerdote. Passou então três meses em Medina del Campo, onde estava o Noviciado, indo depois para Salamanca, onde começou os estudos de filosofia no recém aberto Colégio dos Padres Jesuítas. Os primeiros meses, contudo, e apesar da aplicação com que se dedicou aos estudos, foram de uma esterilidade quase absoluta, pelo que os outros alunos, lembrados da alcunha de São Tomás de Aquino, já lhe chamavam o boi mudo.(1)
O próprio Suárez se persuadiu da sua falta de talento, julgando dever «optar pelo grau de coadjutor temporal e, nessa classe leiga, prestar à Ordem os serviços humildes correspondentes. Já que não podia ser doutor, seria cozinheiro, porteiro, ajudaria a varrer a casa. Expõe com a maior calma e resignação ao Superior esta sua deliberação. (…) O Padre Martim Gutierrez, (…) [responsável] pelo governo e direcção dos jovens estudantes, (…) pasma do heroísmo da sua virtude. Nega-lhe o pedido e recomenda que peça a Nosso Senhor, peça à Virgem Santíssima, a graça do entendimento. Ele faria o mesmo. Passa-se algum tempo e, um dia, Suárez propõe ao seu companheiro de repetições que ele ia expor a matéria; e fá-lo com tal brilho e clareza que o companheiro, atónito, corre ao professor e narra a mudança efectuada. Este, no dia seguinte, interroga Suárez, encarrega-o de argumentar contra a tese que se expunha, e reconhece a mudança extraordinária: o boi mugira também desta vez. Doravante Suárez é o primeiro estudante do curso».(2)
Em 1566 terminou com êxito a formação filosófica, logo começando os estudos de teologia, que duravam normalmente quatro anos. Foi, talvez, durante este tempo que forjou o seu génio intelectual, estudando aprofundadamente, amadurecendo o seu pensamento e desenvolvendo o seu próprio método de crítica e de investigação. Terminou os cursos de teologia em Abril de 1570, tornando-se professor da Companhia, lendo, nesse mesmo ano, um curso de repetição de filosofia no Colégio de Salamanca. Ainda em 1570, e tendo morrido o seu pai, dirigiu-se a Granada (o que fez pela última vez na vida), onde renunciou à sua herança, assim reafirmando o compromisso de se dedicar inteiramente a Deus e à Igreja. Em 1571 foi nomeado professor de filosofia do Colégio de Segóvia, para onde foi mandado por um triénio para ensinar filosofia escolástica. Em 1572, tendo recebido as ordens maiores, foi designado confessor e director espiritual daquela comunidade, o que era raro acontecer a um padre recém ordenado na Companhia. No entanto, e embora interrompesse com frequência os seus estudos em favor da pregação e do trabalho pastoral, uma pneumonia obrigou-o a abandonar o púlpito e a dedicar-se definitivamente ao estudo e ao ensino. A pregação, de qualquer modo, não era o seu forte.
O clima de desconfiança e de suspeição que então se vivia, resultante dos conflitos e das lutas que existiam entre católicos e protestantes, exageravam as rivalidades e as invejas também entre os professores das várias Ordens. Suárez, por isso, foi nessa altura acusado por alguns padres, receosos dos métodos com que ensinava, de introduzir novidades perigosas nas matérias filosóficas. Foi, no entanto, prontamente defendido e apoiado pelos reitores da Companhia. Em 1574, acabado o triénio filosófico, foi chamado para Valladolid (que era na altura a sede da corte), onde foi promovido ao ensino da teologia. Preparou, nesse ano, as futuras lições, ao mesmo tempo que exerceu o cargo de repetidor de teologia. No ano seguinte, porém, ensinou teologia em Segóvia e em Ávila, sendo finalmente chamado, em 1576, para a cátedra do Colégio de Santo Ambrósio, em Valladolid, onde durante quatro anos ensinou teologia explicando, na sua totalidade, a primeira parte da Suma Teológica de São Tomás.
De novo, e mais fortemente, recaíram sobre si acusações, das quais foi nova e plenamente justificado, tendo mesmo a estima do Geral da Companhia relativamente às suas qualidades sido claramente reforçada, a tal ponto que o chamou para preencher a cadeira de prima, que entretanto vagara, no Colégio mais importante da Companhia – o de Roma. Durante cinco anos aí ensinou teologia (1580−85), contactando directamente com a melhor intelectualidade da Companhia. Problemas de saúde, no entanto, obrigaram-no a mudar de clima, pelo que regressou a Espanha, trocando a sua cadeira com a do conhecido jesuíta Gabriel Vázquez, no Colégio de Alcalá. O rigor e a profundidade do seu saber, contudo, não compensavam a falta de brilho das suas exposições, pelo que os alunos, habituados aos excepcionais dotes oratórios de Vázquez, professor que muito estimavam, não foram numerosos nas suas aulas. Talvez por isso (ou, ao menos, também por isso) decidiu Suárez, após vinte anos de ensino, dedicar-se à publicação dos seus trabalhos. Publicou, primeiro o tratado «Do Verbo Incarnado», em 1590, a que se seguiu o tratado «Dos Mistérios da Vida de Cristo», em 1592. O grande êxito destas obras, no entanto, se confirmou o nome de Suárez nos meios intelectuais da época, colocou-o, uma vez mais, no meio das controvérsias próprias da altura, sendo acusado pelos dominicanos Avendano e Mondragon relativamente a erros de doutrina e pelo jesuíta Henrique Henriques como propagador de novidades perigosas e quase heréticas, pelo que foi repetidas vezes denunciado à Inquisição.
Entretanto, em 1591, tendo o Padre Vázquez voltado para o Colégio de Alcalá, rebentou entre os dois uma acesa polémica, a qual obrigou a intervenção do próprio Geral, que lhe pôs termo. A enorme popularidade de que gozava Vázquez, porém, aliada ao debilitado estado de saúde de Suárez, fizeram com que este pedisse para ser dispensado do ensino, para assim se dedicar exclusivamente à publicação das suas obras. Neste sentido, foi em 1593 para Salamanca onde, no entanto, lhe pediram que ocupasse o lugar de professor de teologia deixado vago pelo Padre Miguel Marcos, recentemente chamado para Roma. Ordenou neste período os seus escritos, publicando, em 1595, os dois tomos «Dos Sacramentos», e preparando a futura publicação do seu grande tratado de filosofia – as «Disputas Metafísicas». De novo envolvido em disputas e alvo de acusações, foi-lhe solicitado pelo Rei Filipe II de Espanha que assumisse a cátedra de prima na Universidade de Coimbra, do que se escusou, primeiro, em 1596, mas para onde acabou por se dirigir, um ano depois, ante a insistência do Rei.
Chegou ao Colégio de Coimbra no dia 1 de Maio de 1597. Pouco tempo depois (não obstante aí ter atingido o auge da sua carreira científica e do seu magistério universitário, sendo as suas aulas ouvidas com interesse e admiração por numerosos alunos), alguns doutores, e em especial o lente de véspera Frei Emídio da Apresentação, apressaram-se a fazer-lhe oposição, protestando contra o facto de Suárez não ter um diploma universitário. Em nome da Santa Sé, logo o Geral da Companhia lhe conferiu o grau de doutor. Os seus opositores, contudo, obstaram que este grau servia apenas para uma universidade pontifícia, mas não para uma universidade régia, pelo que Suárez teve que se dirigir à Universidade de Évora, onde os respectivos dirigentes arranjaram uma maneira de lhe conferir o capelo e a borla sem o sujeitar às longas provas de doutoramento.(3) Conferido o grau doutoral, e estando o ano lectivo a terminar, dirigiu-se a Salamanca, onde assistiu à conclusão da impressão das suas «Disputationes Metaphysicae» (1597), voltando logo a seguir para Coimbra. Em 1599, por causa da peste que assolava Lisboa e se espalhava até Coimbra, a Universidade foi encerrada, em Fevereiro, tendo Suárez partido para Madrid, onde preparou a impressão da obra «Opúsculos Teológicos», relacionada com o debatido tema «dos auxílios». Daí foi para Ávila, onde fez os exercícios espirituais, depois para Salamanca e, por fim, para Coimbra, onde em Janeiro de 1600 reabriram as aulas.
Em 1603, querendo dedicar-se à preparação das suas obras, pediu, uma vez mais, para ser demitido do cargo de professor, pretensão que lhe foi negada pelo Rei que, no entanto, lhe concedeu como auxiliar o Padre Cristóvão Gil, que Suárez conhecera durante as suas provas de doutoramento, em Évora. Publicou, entretanto, os tratados «Da Penitência», em 1602, e «Das Censuras», em 1603, o primeiro dos quais continha alguns parágrafos que foram condenados pelo Santo Ofício. Pretendendo explicar as suas posições e reabilitar estes seus escritos, viajou para Valladolid e Madrid, em 1603, e para Roma, já em 1604. A condenação, no entanto, manteve-se, sendo que este episódio (apesar do seu prestígio não ter sido posto em causa e de ter até podido, por causa dele, intervir directamente em Roma sobre a questão «de auxiliis») foi certamente o acontecimento mais triste e doloroso de toda a sua vida.
Regressou então a Coimbra, logo se dirigindo a Lisboa, onde em 1606 assistiu à impressão do tratado «De Deus Uno e Trino», que preparou durante a viagem a Itália. Por esta altura rebentou um grave conflito entre a corte romana e a república veneziana, o qual teve como consequência, entre outras, a expulsão dos jesuítas de Veneza e a confiscação de todos os seus bens. Suárez, em defesa do Papa, escreveu, nesse mesmo ano, a obra «Da Imunidade Eclesiástica», que, embora tenha sido muito apreciada em Roma, não foi publicada durante a sua vida, de modo a não comprometer o acordo que entretanto fora alcançado entre os conflitantes. A aprovação de que foi alvo na sede da Igreja católica, no entanto, foi claramente expressa no breve laudatório de Paulo V no qual Suárez foi pela primeira vez chamado «teólogo exímio e pio», como mais tarde viria a ser cognominado.
Entre 1606 e 1609 continuou a ensinar, em Coimbra, ocupando-se, ao mesmo tempo, da impressão dos dois tratados «Da Virtude da Religião e do Estado de Perfeição», dos quais apenas o primeiro foi então publicado, em dois volumes. Em 1609 foi para Madrid, chamado a depor no processo de beatificação de Santa Teresa de Jesus, após o que regressou a Coimbra, onde, em 1611, de novo pediu para ser dispensado do ensino, o que mais uma vez lhe foi negado (ainda que, até ao final do ano lectivo de 1612–13 fosse frequentemente substituído). Neste período, em Coimbra, publicou uma das suas mais importantes obras, o tratado «Das Leis e de Deus enquanto Legislador», em 1612, a que se seguiu, em 1613, o «Defesa da Fé Católica contra os Erros da Seita Anglicana», obra escrita a pedido do Papa Paulo V e muito elogiada nas Cortes de Madrid e de Roma, mas publicamente queimada em Inglaterra e condenada pelo parlamento em França.
Doente e cansado, conseguiu autorização do Rei e da Universidade para ser substituído pelo seu aluno, Dom André de Almada, com quem dividiu a cadeira de prima durante os anos lectivos de 1613–14 e 1614–15. Em 1616, com 68 anos, recebeu as cartas de jubilação, aproveitando para completar o seu longo comentário à «Summa Theologiae» de São Tomás, de que publicara já treze volumes. Concluiu o tratado Da Graça, a segunda parte do tratado «Da Religião» e o tratado «Da Obra dos Seis Dias», que incluía, na segunda parte, o tratado «Da Alma», que não chegou a terminar. Contudo, nenhuma destas obras foi publicada durante a sua vida, que, pouco depois, chegaria ao fim. Em Maio de 1617, com efeito, tendo chegado a Lisboa para tratar de assuntos relativos às suas publicações, foi chamado para mediar o conflito que opunha o colector apostólico e os magistrados civis, do qual resultou o interdito lançado sobre a cidade de Lisboa e a excomunhão dos magistrados. A sua intervenção, na verdade, ajudou a resolução do conflito, mas as fadigas a que se obrigou apressaram-lhe a morte, que sobreveio na manhã de 25 de Setembro de 1617.
Em todas as Igrejas de Lisboa se levantou o interdito para que lhe fossem feitas as exéquias solenes, tendo-se as demonstrações de respeito e de afecto repetido por todo o reino, e especialmente em Coimbra. Depositado na cova nº 13 do cruzeiro da Igreja de São Roque, que na altura pertencia aos jesuítas, foi passados quinze anos trasladado para uma capela que o seu discípulo e amigo, Dom António de Castro, fundou nessa mesma Igreja.(4) Anos mais tarde o Marquês de Pombal, interessado em fazer esquecer os jesuítas e aproveitando as obras necessárias após o terramoto, mandou colocar um pesado órgão em frente desta capela, que assim ficou esquecida até 1893, ano em que foi redescoberta. Hoje, no entanto, embora possamos visitar a pequena capela da Igreja de São Roque onde está sepultado Francisco Suárez, do lado esquerdo do altar-mor, logo depois do altar das relíquias, o facto é que ninguém lá vai, esquecidos que continuamos de o lembrar.
Tragicamente, a história do seu túmulo foi também – e é ainda – a história do seu pensamento e da sua obra, sendo que o brilho a que pareciam destinados foi igual ao brilho dos impérios ibéricos, que iluminando com luz nova um mundo novo, logo misteriosamente se extinguiram. O seu pensamento, de facto, assumindo toda a anterior meditação greco-cristã – nos círculos académicos era frequente o adágio dizendo que «em Suárez se ouve toda a Escola» –, apresentava-se como radicalmente novo (isto é, moderno), sendo justamente por via dessa novidade (isto é, modernidade) que a sua obra quase imediatamente se espalhou por todos os centros universitários da Europa, determinando interiormente o pensamento teológico, filosófico e jurídico de católicos e protestantes. Os novos impérios, porém, em luta com os primeiros, impuseram novas fronteiras, não só físicas, mas espirituais, assim banindo da história do novo mundo o pensamento daqueles que o fundaram. Só assim se percebe, de facto, que o pensamento neo-escolástico da Península Ibérica – e, sobretudo, o de Francisco Suárez que, culminando-o, definitivamente o ultrapassou – tenha sido, logo após o seu curto esplendor, votado a um quase absoluto esquecimento: não porque não fizesse parte da Modernidade que nascia; mas porque era a proposta de uma outra Modernidade, a qual se encontra, ainda, por descobrir — e com ela: Portugal.

(1) A alcunha tem que ver com um episódio da vida de estudante de São Tomás, passado na Universidade de Paris, onde chegou em 1245, tornando-se discípulo de Alberto Magno. Ora, a atitude que o então jovem Tomás tomou nas aulas do professor de Colónia, sempre muito atento mas taciturno e silencioso, aliada à sua pesada corpulência, fez com que os seus colegas apressadamente o julgassem como um ser maciço e incapaz de assimilar as subtilezas e as transcendências da especulação. Chamaram-lhe, por isso, não sem maldade, o boi mudo da Sicília (bos mutus Siciliae). Pouco a pouco, porém, repetiram-se os episódios em que o seu génio humildemente se manifestou, de tal maneira que os próprios mestres, espantados, o chamavam e interrogavam, logo reconhecendo a superioridade da sua inteligência. O próprio Alberto Magno, de facto, que mais tarde o levaria consigo para Colónia, terá então pronunciado a famosa e profética frase: «Chamamos-lhe o boi mudo; mas um dia os seus mugidos, expondo a doutrina, hão-de ouvir-se no mundo inteiro.» AMEAL, João, «São Tomás de Aquino», Ed. Tavares Martins, Porto, 1947(3), págs. 45–57.
(2) CORDEIRO, Valério A., «O Padre Francisco Suárez», Ed. Magalhães & Moniz, Porto, 1918, págs. 15–16.
(3) A partir de então, e em todas as suas publicações, Suárez usou sempre o título de «professor principal de Sagrada Teologia na célebre Academia de Coimbra».
(4) A referida capela, onde se depositaram os restos mortais do doutor exímio, ficou conhecida como altar da anunciação, por abrigar uma tábua maneirista que Gaspar Dias terá composto por volta de 1580 e cujo tema é a anunciação do anjo Gabriel à virgem Maria. Foi, de facto, mandada edificar por D. António de Castro, filho do ilustre vice-rei da Índia, que, mais tarde, aí preferiu ser sepultado, junto do antigo mestre e amigo, do que no jazigo da sua família. Por cima do seu túmulo podem ler-se as seguintes palavras: «Padre doutor Francisco Suárez, da Sociedade de Jesus, [professor] principal emérito na Academia de Coimbra, homem insigne pelas suas máximas virtudes e ciência, editou vinte e três brilhantes volumes de filosofia e teologia. Tendo já partido para a verdadeira vida, no dia 25 de Setembro de 1617, D. António de Castro, em sinal de amor e de obediência, consagrou [esta capela] ao seu ilustre mestre e amantíssimo pai».

Gonçalo Pistacchini Moita

Comentários a “Francisco Suárez…” (8)

  1. Marta Costa Reis diz:

    De Suarez fica sobretudo para a história uma nova reflexão sobre o conceito de soberania. Se bem que os seus livros de filosofia e teologia tenham servido de manual por tudo o que era faculdade por essa Europa fora, ele representa o estertor final da escolástica, que vem a cair uns 50 anos depois por obra e dúvida de Descartes…e tudo o que se seguiu. A história do túmulo é também muito interessante: tapado numa qualquer renovação, julgo que por ordem de Pombal, a quem não agradavam muito nem as ideias de Suarez, nem a sua filiação jesuítica, assim ficou, mais esquecido do que a escolástica, ressurgindo ambos no século XX, ainda que como “gente morta”.

  2. Joana Vasconcelos diz:

    Gonçalo, gostei muito. Fiquei exausta com tanta viagem, tanta polémica, tantos académicos enredos … e no meio de tudo isto, com tamanha e tão decunda produção científica. Este “seu” Suarez era mesmo de força!

    Agora as dúvidas da minha confrangedora ignorância:
    – o que eram as repetições e os repetidores?
    – a cadeira de prima era o quê? Summa Theologiae do São Tomás? Mas só da Pars Prima?
    – que interdito sobre as Igrejas de Lisboa foi esse que refere no fm do texto?
    – e os “bocados” que o Santo Ofício censurou … ficaram para sempre fora da obra ou foram entretanto recuperados?

  3. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Marta e Joana, obrigado pelos comentários.
    À Marta diria apenas que Suárez vale muito a pena ser estudado e conhecido para além das questões da soberania, relativamente às quais, foi, de facto, autor importante. Pode mesmo dizer-se que foi o primeiro pensador a defender claramente que a democracia era de direito natural. Mas na metafísica foi pensador originalíssimo tendo sido um dos fundadores da modernidade. Sim, da modernidade, que aqui começou, na Península Ibérica, que Descartes tanto combateu por essa Europa que se lhe opunha fora, com as Disputationes Metaphysicae debaixo do braço (curiosamente, ou não, Suárez é o único jesuíta de que Descartes fala pouco, mas elogiosamente).
    Às perguntas da Joana, mais ou menos telegraficamente, aqui vai:
    1. As aulas de teologia dadas pelos bacharéis, ou já licenciados, de então resumiam-se normalmente à leitura, primeiro, do Livro das Sentenças, de Pedro Lombardo, e, depois, da Suma Teológica, de São Tomás de Aquino (daí que nós hoje chamemos lição, e os ingleses lecture, a uma aula, ou conferência, da mesma maneira que os escolásticos lhes chamavam então lectio). As repetições, neste sentido, eram, literalmente, a repetição, feita oralmente por estes professores, dos comentários sobre estas obras elaborados pelos mais sábios doutores de então. Estas repetições cumpriam a função de permitir aos alunos, escrevendo aquilo que os professores repetiam, ter acesso àquilo que os doutores diziam, num tempo em que os livros não eram ainda de fácil acesso.
    2. As cadeiras, naquele tempo, eram nomeadas segundo as horas canónicas (matinas, prima, terça, sexta, noa, vésperas e completas), a partir do que se lhes defina, também, a importância – e concomitantemente, claro, a importância e a carreira dos respectivos professores (a qual variava, além disso, consoante se fosse professor de artes, de leis, de medicina, de filosofia, de cânones, de escritura ou de teologia). As cadeiras mais importantes, assim, independentemente da disciplina leccionada, eram a de prima (que hoje se diria de laudes) e a de vésperas, a que se seguiam normalmente as de terça e de noa. Como exemplo, transcrevo aqui uma parte dos estatutos da Universidade de Coimbra prescritos no tempo de D. Manuel (aquele que era muito amigo do António Eça), onde pode ler-se: «Item ordenamos que na dita universidade haja para sempre uma cadeira de prima de teologia e outra de véspera. E três cadeiras de cânones, nomeadamente prima, terça e véspera. E de filosofia natural uma e outra de filosofia moral. Três cadeiras de leis, prima, terça e véspera. De medicina duas, de prima e de véspera. Uma cadeira de lógica e outra de gramática.»
    3. A Summa Theologiae, sim, era a de São Tomás, que desde Francisco Vitória, que fora professor em Salamanca, vinha substituindo nas universidades a importância capital até então atribuída ao Livro das Sentenças do mestre Pedro Lombardo. E não, não só a primeira parte, mas todas elas (prima, prima secundae, secunda secundae e tertia). Daí aquele famoso dito segundo o qual os escolásticos, para qualquer lado que fossem, levavam sempre as partes de São Tomás.
    4. Sobre o interdito leiam-se as seguintes palavras do padre Valério Cordeiro: «A questão começara por um pleito de livreiros com o Capítulo da Catedral, debatido diante do tribunal eclesiástico. No meio da contenda, aqueles recorrem ao tribunal civil, que avocou para si injustamente a decisão. O colector Accaramboni protestou contra a usurpação; os magistrados civis persistiram, e até mandaram prender um dos serviçais da Nunciatura. Assim foi recrudescendo o conflito, até chegar ao interdito lançado sobre a cidade de Lisboa e a excomunhão sobre os magistrados. Estes entregaram-se às maiores violências, chegando inclusivamente a bloquear a legação apostólica. Todo o clero se pôs da parte de Accaramboni, sobretudo devido à influência e conselho do Padre Suárez, que não duvidou dizer, ao próprio Governador, a sem razão do modo de proceder da autoridade civil e a validade do interdito (…). Como disse Suárez numa carta: “não pude comprazer ao senhor Governador, pois o juízo, a razão, não está ao serviço da vontade.”» CORDEIRO, Valério A., O Padre Francisco Suárez, Ed. Magalhães & Moniz, Porto, 1918, pág. 53.
    5. Quanto aos “bocados” que o Santo Ofício censurou eram apenas uma citação de um texto, esse sim, censurado, que Suárez explicava na sua obra. A censura manteve-se ainda durante algum tempo, mas nunca foi aplicada na prática, pois o próprio Papa não tinha vontade de a ver aplicada. Sobre tudo isto, de uma forma resumida, permito-me sugerir a leitura da introdução que fiz à edição da tradução portuguesa do primeiro livro do tratado De legibus ac Deo legislatore, de Suárez (que também traduzi), publicado em 2005 pela Ed. Tribuna da História (se a Joana prometer referir de vez em quando a obra de Suárez nas suas aulas terei muito prazer em dar-lhe um no próximo jantar do nosso blog).

    • Joana Vasconcelos diz:

      Gonçalo, muito, muito obrigada! Que trabalheira lhe fui dar com a minha curiosidade! Mas a verdade é que aprendi tudo e gostei imenso! Aceito desde já a tão simpática oferta do livro do Suarez e tudo farei para o divulgar nas minhas aulas — haverá certamente uma maneira de articular harmoniosamente o seu pensamento com o Direito do Trabalho, o das Sociedades Comerciais, o da Família e mesmo com o diabólico Internacional Privado… Tinha era que se marcar o tal jantar .…

  4. Marta Costa Reis diz:

    Obrigada! Só estudei Suarez com um filósofo político que, da metafísica, nos transmitiu sobretudo a ideia de que era um São Tomás com mais umas “voltas e reviravoltas” até ficar virado ao contrário, mas muito longe da modernidade. Sem querer abusar sua paciência e trabalho, posso-lhe pedir mais umas luzes? ;)

  5. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Marta, quando quiser. Suárez tem sido a minha grande entrada para o mundo das ideias. Tenho-o estudado quando posso e gosto de partilhar o que tenho aprendido com ele. :)

  6. António Eça diz:

    Um homem já não poder ter uma opinião desassombrada que salta logo para os in-folio da Inquisição! Um deste dias tenho um Dominicano e esbirros a baterem-me à porta…

  7. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    António, que maçada, achei que os esbirros já tinham passado. Então continua constipado!?

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