Mãos postas em benção, Nossa Senhora sai à rua em Liquiçá. Carregada em braços pelos Liurais, chefes de tribo. No dia anterior tinham feito breves discursos entusiásticos no palco da festa da independência, agora vergam-se sob o peso da Senhora.
Envolta em cachecóis timorenses: a cada volta do caminho, as mulheres que esperam o passar da procissão vão oferecendo à Santa o enfeite-aconchego que trazem ao pescoço. Não sei se no final a Senhora Deles ainda se via, de tantas as oferendas.
As mulheres e os anjinhos entoam cânticos lentos, os Liurais lançam-se em danças tribais ritmadas. Misturam-se sons de ritos tradicionais timorenses com outros de letras portuguesas católicas, heranças possíveis de missionários lusos. E cascos de cavalos.
(Sem mini-de-filmar, não fiquei com nada gravado, a não ser na mente: seria a música que poderia oferecer ao Diogo hoje aniversariante. Assim, só posso um filme estático e mudo, Diogo - mas eram sons muito bonitos).
A história desta metade de ilha conta mais de 400 anos de domínio colonial português; três anos de ocupação japonesa durante a II Guerra Mundial; 24 de anexação indonésia, que terá resultado em cerca de 200 mil mortos.
Apesar, ou por causa, do esforço islamizante indonésio, a fé cristã sobrevive. Mais de 90 por cento da população é católica.
Há manifestações de fé diárias, nas missas, ou em dias marcados como as procissões. Sejam elas conjugadas com expressões animistas ou outras, são, acima de tudo, cerimónias de espiritualidade intensa. E mostram que uma forte marca cultural timorense persiste, apesar das violentas e prolongadas interferências exteriores.























Teresa, estes seus posts sobre Timor têm sido um encantamento diário numa semana muito trabalhosa — e demasiado quente, demasiado rápido — que não havia maneira de acabar!
Várias vezes fui espreitar e ganhar alma nova nas suas belíssimas fotos do Ramelau. Tocou-me o que nos contou sobre as memórias do seu Pai. E que lindas e verdadeiramente comovedoras as fotografias de ontem e as de hoje! Que privilégio o seu ter podido assistir e participar em momentos tão intensos e significativos — e coloridos! E que fascinantes histórias vai poder contar aos seus sobrinhos, primeiro, e aos seus netos, daqui a muitos, muitos anos!
PS — Foi também em 2002 que nasceu a minha filha Teresa. Um dia vou mostrar-lhe estes posts e ela vai gostar de ver e ler tudo :)
Joana, que bom dizer-me isso.
As minhas sagas resultam sempre em lençóis intermináveis, e fico com medo de estar a ser maçadora.
Nunca tinha mostrado estas fotos a ninguém, a não ser ao meu pai. Foi para ele que as fiz.
E os aniversários também servem para isto: servir um banquete de memórias.
Está a fazer-me bem recordar estes dias.
Muito bonita a tua procissão. Por tudo o que neste e nos anteriores posts li, pelas fotos, pela tua crença nestes timorenses firmes e crentes, deviam ter-te posto também num andor, santa Teresa.
Ora essa, Manel.
Eu não confundo povo e governantes.
Nesta gente acredito sim senhor. Como também acredito na nossa gente.
Agora imagine o que, por causa das confusões, andam a dizer dos portugueses por essa Europa fora.
Além disso, eu como santa teresa iria sufocar debaixo de tanto cachecol.
Ainda se fossem turbantes…
Avé Santa Teresa, ainda que de cachecol, que turbantes, neste caso, seria heresia…