Ela aí vem

Liquiçá, 21 Maio 2002

                 Mãos postas em benção, Nossa Senhora sai à rua em Liquiçá. Carregada em braços pelos Liurais, chefes de tribo. No dia anterior tinham feito breves discursos entusiásticos no palco da festa da independência, agora vergam-se sob o peso da Senhora. 

Os Liurais de Liquiçá

Os Liurais de Liquiçá















Envolta em cachecóis timorenses: a cada volta do caminho, as mulheres que esperam o passar da procissão vão oferecendo à Santa o enfeite-aconchego que trazem ao pescoço. Não sei se no final a Senhora Deles ainda se via, de tantas as oferendas.

Liquiçá, 21 Maio 2002

As mulheres e os anjinhos entoam cânticos lentos, os Liurais lançam-se em danças tribais ritmadas.  Misturam-se sons  de ritos tradicionais timorenses com outros de letras portuguesas católicas, heranças possíveis de missionários lusos. E cascos de cavalos.

(Sem mini-de-filmar, não fiquei com nada gravado, a não ser na mente: seria a música que poderia oferecer ao Diogo hoje aniversariante. Assim, só posso um filme estático e mudo, Diogo - mas eram sons muito bonitos). 

                                                         

           A história desta metade de ilha conta mais de 400 anos de domínio colonial português; três anos de ocupação japonesa durante a II Guerra Mundial; 24 de anexação indonésia, que terá resultado em cerca de 200 mil mortos.

Apesar, ou por causa, do esforço islamizante indonésio, a fé cristã sobrevive. Mais de 90 por cento da população é católica. 


                          Há manifestações de fé diárias, nas missas, ou em dias marcados como as procissões.  Sejam elas conjugadas com expressões animistas ou outras,  são, acima de tudo, cerimónias de espiritualidade intensa.  E mostram que uma forte marca cultural timorense persiste, apesar das violentas e prolongadas interferências exteriores. 

Comentários a “Ela aí vem” (6)

  1. Joana Vasconcelos diz:

    Teresa, estes seus posts sobre Timor têm sido um encantamento diário numa semana muito trabalhosa — e demasiado quente, demasiado rápido — que não havia maneira de acabar!

    Várias vezes fui espreitar e ganhar alma nova nas suas belíssimas fotos do Ramelau. Tocou-me o que nos contou sobre as memórias do seu Pai. E que lindas e verdadeiramente comovedoras as fotografias de ontem e as de hoje! Que privilégio o seu ter podido assistir e participar em momentos tão intensos e significativos — e coloridos! E que fascinantes histórias vai poder contar aos seus sobrinhos, primeiro, e aos seus netos, daqui a muitos, muitos anos!

    PS — Foi também em 2002 que nasceu a minha filha Teresa. Um dia vou mostrar-lhe estes posts e ela vai gostar de ver e ler tudo :)

  2. teresa conceição diz:

    Joana, que bom dizer-me isso.

    As minhas sagas resultam sempre em lençóis intermináveis, e fico com medo de estar a ser maçadora.

    Nunca tinha mostrado estas fotos a ninguém, a não ser ao meu pai. Foi para ele que as fiz.
    E os aniversários também servem para isto: servir um banquete de memórias.
    Está a fazer-me bem recordar estes dias.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Muito bonita a tua procissão. Por tudo o que neste e nos anteriores posts li, pelas fotos, pela tua crença nestes timorenses firmes e crentes, deviam ter-te posto também num andor, santa Teresa.

  4. teresa conceição diz:

    Ora essa, Manel.
    Eu não confundo povo e governantes.
    Nesta gente acredito sim senhor. Como também acredito na nossa gente.

    Agora imagine o que, por causa das confusões, andam a dizer dos portugueses por essa Europa fora.

  5. teresa conceição diz:

    Além disso, eu como santa teresa iria sufocar debaixo de tanto cachecol.
    Ainda se fossem turbantes…

  6. Orcama diz:

    Avé Santa Teresa, ainda que de cachecol, que turbantes, neste caso, seria heresia…

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