Dia de festa

              É um país que sopra as velas. Timor-leste nasceu a 20 de Maio de 2002. E parece que a ilha inteira desceu a Díli para fazer nas ruas a festa da indepedência. Foi assim há 8 anos.

Dili, 20 Maio 2002, tc

              Eu andava nas ruas com uma mini-câmara de filmar, pessoas com mais de 60 anos vinham ter comigo e queriam gravar declarações patrióticas em português quase fluente. O que tinham sofrido para viver aquele dia. O valor de empunhar uma bandeira e exibi-la sem medo.

Díli, 20 Maio 2002, tc

      Os jovens só falavam o bahasa indonésio, mas levantavam as cores do país como um coração ao alto.

Timor-leste, 20 Maio 2002

             A máquina de filmar desmaiou com a humidade. As máquinas das fotos não. Tinha levado uma polaroid e andei a oferecer quadradinhos a todas as famílias que pude. Muitos nunca se tinham visto num retrato. Riram muito quando se viram a aparecer lentamente no cartão brilhante.

Díli, 20 Maio 2002, tc

E ficaram com um registo em papel deste dia, que há-de, espero, desbotar mais cedo que a memória.

                 (E se as que vos mostro parecem já esborratadas é porque em 2002 o digital para mim não existia, o scanner também não, e estas são fotos de fotos, duplicadas a partir do meu álbum de recordações). 

                  O que sobreviverá deste dia nestas pessoas?

Comentários a “Dia de festa” (6)

  1. Vasco Grilo diz:

    Estupendas estas tuas fotos de fotos, Teresa!
    Gosto tanto que estou a pensar em fotografá-las.

    Ouvi hoje na BBC World Service, a história da invasão de Timor pela Indonésia e as descrições das atrocidades que o exército Indonésio cometeu sobre a população. Na ilha tinha ficado apenas um repórter estrangeiro, um australiano. Pensa-se que terá sido abatido com um tiro na borda de um cais no porto de Dili com mais umas centenas de pessoas que ali encontraram a mesma sorte. Ver agora as tuas fotografias é uma boa maneira de acabar o dia numa nota bastante mais positiva.

    Obrigado.

    • Teresa Conceição diz:

      Vasco, obrigada pela ideia das re-re-fotografias:)

      As notícias referentes a Timor, entre 1974 e 1999, raramente nos deixam bem-dispostos.

      Num dia máximo de alegria, esperaram-se notas positivas.

      Mas este foi um dia mesmo singular: nos dias seguintes, a percorrer o país de ponta a ponta, foi raro encontrar sorrisos.
      24 anos de Indonésia em cima: as pessoas perderam o hábito de sorrir.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Eu conheci aqui no Porto o repórter que conseguiu levar para fora de Timor a cassete do massacre de Santa Cruz, que teve enorme importância na denúncia internacional.
    Jantei com ele, até lhe dei um desenho meu, e agora não consigo lembrar-me do nome…
    Teresa, suponho que para muitos, os que têm agora 25/30 anos, sobreviverá a identidade necessária.
    Espero que sim, vivi com grande intensidade esses dias míticos.
    Grandes experiências!

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Fui ver uns papeis e encontrei: Max Sthal.

  4. Teresa Conceição diz:

    António,
    que boa lembrança esta: O Max Stahl é um herói em Timor. Nunca o conheci.

    Se não fosse pela divulgação das imagens do cemitério, em 91, o processo teria tido evolução muito mais lenta. Sem provas dos massacres, não se teria criado a consciência da urgência de agir.
    E se calhar ainda não existia um país novo.

  5. António Eça de Queiroz diz:

    Se calhar não, Teresa. Ainda bem que existem pessoas destas.

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