Ilustre viajante e artista, David Roberts criou, sozinho (com a ajuda dos seus aparos e pincéis), a imagem romântica do Próximo Oriente que viria a alimentar a imaginação da Europa do século XIX, e que de alguma forma perdura ainda nos nossos dias.
Roberts, um relativamente desconhecido pintor Escocês que tinha feito carreira pintando elaborados sets teatrais em Edimburgo e Londres, tinha, no entanto e por isso mesmo, o perfil ideal para poder pintar os dramáticos cenários que o esperavam no meio dos desertos e cidades por onde viria a viajar. Com as suas mais de 200 litografias, Roberts trouxe, pela primeira vez para o mundo ocidental, uma detalhada ilustração do que eram as terras do Egipto, da Núbia e da Terra Santa. Com isso conseguiu, num registo quase fotográfico, retratar o excitante encontro do homem moderno com civilizações à muito desaparecidas, e das quais se sabia nessa altura muito pouco.
A poesia visual que Roberts deixou, no entanto, não demoraria muito a desaparecer. Nas mãos de modernos Tour Operators, e no meio de pilhas de garrafas de plástico deitadas para o chão, de habitantes locais que se vendem por um Euro à fotografia e de guias turísticos que debitam, a uma velocidade supersónica, factos mais que duvidosos a multidões de turistas desidratados e aborrecidos, o Cairo e os seus vestígios arqueológicos em particular ( e que re-visitei este fim de semana), não passam hoje de uma muito remota sugestão daquilo que Roberts nos deixou tão vivamente ilustrado nos seus lindíssimos desenhos.
Por vezes interrogo-me se não teríamos feito melhor justiça a esses nossos antepassados, deixando tudo coberto de areia e esquecimento.




















Muito bem dito Vasco. Não há areia que resista a tanta camioneta.
Pois eu não concordo, acho que muito “mal tratado” que possa estar é história, mesmo que a história que Guias contam possa já não ter nada a ver com que o que foi na realidade, acho que o Roberts, lá onde quer que esteja, se sente, ainda, orgulhoso pelo que mostrou ao mundo. E agora apesar de desgastadas poderem ser vistas por milhares de pessoas, mesmo que alguns possam estar enfadados na altura, fica com uma pequena ideia do que foi! E os antepassados que foram responsáveis pela sua construção, também ficam orgulhosos de verem a sua obra apreciada. Ok, estariam mais felizes se a vissem bem conservada! mas mesmo assim acho positivo podermos observá-las!
É apenas a minha opinião.
bjs
Vasco, o que dizes do Cairo, será comum a muitas outras paragens que durante muito tempo desejámos visitar e cuja beleza antecipámos a partir de fotografias, filmes ou imagens como estas de Roberts… sem turistas, guias, hordas, souvenirs, barulho e sabe Deus mais o quê…
Lembro-me em especial do esforço que tive que fazer para, em Xian, me concentrar nos fabulosos guerreiros de terracota e tentar abstrair da multidão, dos empurrões, da barulheira, dos flashes das máquinas, dos alarves que, displicentes comiam (bananas!!!) e sorviam ruidosamente pelas palhinhas o conteúdo de uns copos gigantes de plástico … Havia latas vazias, caixas daquelas onde vinham os rolos de fotografias, moedas e claro, cascas de banana e não só atiradas para o meio das estátuas … um horror!
Sim, Vasco, deviam estar cobertos de areia e esquecimento. O belíssimo trabalho de Roberts é mais que suficiente, longe dos ruídos, cheiros e algazarras em geral.Não tem nada pior do que transformar história em ponto turístico.