Ama quereres existir!


«Se alguém disser: Prefiro existir, embora infortunado, a não existir de modo nenhum, porque já existo. No entanto, se antes de existir pudesse ser consultado, escolheria não existir… Responderei: (…) Se pretendes fugir ao infortúnio, ama em ti mesmo quereres existir. (…) Na verdade, quanto mais amor tiveres a existir, tanto mais desejarás a vida eterna, e anelarás moldar a tua pessoa de tal maneira que as tuas disposições não sejam temporâneas, impressas em ti e gravadas a partir das afeições às realidades temporâneas. Essas realidades temporâneas, antes de existirem não são nada; quando existem, passam; e tendo passado, deixam de existir. (…) Como pois sustê-las a fim de permanecerem, realidades para as quais começar a existir é caminhar para o não existir? Mesmo assim, quem ama a existência preza essas realidades na medida em que existem, e ama o Ser que sempre existe. E se era volúvel no amor dessas realidades, firmar-se-á no amor deste Ser; e se se derramava no amor das coisas transientes, consolidar-se-á no amor do Ser que permanece. (…) Assim, se a este início pelo qual queres existir, acrescentares mais e mais existir, levantas-te e és elevado até ao Ser que existe em grau supremo. Assim te coibirás de toda a queda, em razão da qual passa à não existência aquilo que existe em ínfimo grau, arruinando juntamente consigo as energias de quem o ama. Daqui resultará que a quem prefere não existir para não ser infortunado, uma vez que não pode não-existir, resta-lhe ser infortunado. Em contraposição, quem tem mais amor a existir do que aversão a ser infortunado, acrescente mais existência à que ama, e exclua assim aquilo a que tem aversão. Quando realmente principiar a existir de um modo perfeito, dentro da sua condição, não será infortunado.»

AGOSTINHO, Aurélio, O Livre Arbítrio, III, 7, Ed. Faculdade de Filosofia de Braga, Braga, 1990 (2), trad. António Soares Pinheiro, págs. 191–193.

Comentários a “Ama quereres existir!” (1)

  1. Joana Vasconcelos diz:

    Joana Vasconcelos gosta do texto de Gonçalo Pistacchini Moita & Santo Agostinh!o! Facebook, any of you two?

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