Eu sei, malvadíssima Eugénia, que tenho andado um bocado arredado deste cemitério e que ainda não respondi à indecente maldição que lançou aqui. Mas invoco em minha defesa:
1 - Um computador avariado há dez dias.
2 — Uma «chama imensa» que me tem mantido o juízo em lume brando. Imagine lá que, de cada vez que me sento para escrever um post, só consigo pensar em «papoilas saltitantes». E, sabe como é, tenho (apesar de tudo) o resto de uma reputação a manter.
Dito isto, a verdade é que sei muito pouco sobre agências de rating e ainda menos sei sobre coesão e essas coisas. Mas li, há tempos, um livrinho em que aprendi todo o pouco que sei sobre tão terríveis cabalas. Não posso prometer-lhe uma leitura arrebatadora. Tipo Tolstoi, ou assim. Nem posso poupá-la a uns gráficos mais a puxar para o maçador. Mas se o que quer é uma explicação luminosa para toda esta trapalhada. Se o quer é uma daquelas explicações tão simples, tão simples que só as podem dar as pessoas que verdadeiramente percebem as coisas complicadas. Então. Então leia isto:


















Não fora confessar-se in flamma, não fora a alegria que as papoilas dessa flamma ontem nos deram e não haveria perdão para a sua demora.
Olá Pedro e Eugénia. Desculpem-me a pergunta, que eu também não tenho andado cá… Afinal o que é que se passou ontem de que tanto todos falam? Passei por acaso ali em Lisboa já tarde, mas tive que voltar para casa, porque estava tudo cheio de gandulos e de gente ordinária, bêbados e aos gritos. Um horror. Alguém sabe o que é que aconteceu?
Coisas estranhíssimas, Gonçalo.
Aqui debaixo da minha janela formou-se um engarrafamento monumental, havia carros daqueles do tuning a fazer uma barulheira doida, centenas de pessoas seguiam a pé todas na mesma direcção ornamentadas de vermelho e com bandeiras (dessa parte eu gostei). Às tantas passou um autocarro descapotável cheio de homens a acenar que, segundo a televisão que transmitia em directo tão insólitos eventos, seriam Jesus e seus discípulos. Vários seguidores do mesmo Jesus, sobretudo os motards, exibiam cartazes a dizer “Quem tem Jesus tem tudo” e “Até o Papa vem festejar com Jesus”, entre outras extraordinárias afirmações. Tudo deveras bizarro.
Gonçalo, estás a ver, estás a ver, nao se deve confiar nos dados dos sentidos. O que tu dizes é doxa, triste doxa.
Queres mesmo saber o que se passou: alegria do povo. Sabes como é, festa de ricos e pobres, mais pobres do que ricos, festa de brancos e pretos, muito mais pretos do que em terra de brancos se pensaria. O fenómeno chama-se Benfica, Sport Lisboa e Benfica. Um clube de futebol — global de antes de haver globalização, transnacional depois de já ter havido feridas independências, inclusivo e “integrante” ao ponto de ser de tantos e desintegrados imigrantes (sobretudo africanos de 5 séculos) o único real, fiel e verdadeiro laço de pertença. Fora isso, só uma linda festa de de 200 mil lisboetas, fogo de artíficio parolo e de olhó balão, português sim, mas muito mais ganhador do que pobre e resignado (o FCP esteve quase lá, o SCP nunca, nem de perto, desmitologizado clube de ser classe alta num país de classe nenhuma).
O que raio é doxa? A que vem depois da coxa?
Parece que tomaram um chá esquisito (de papoilas, segundo depreendi das palavras pouco conexas de PN) e deu-lhes uma epifania.
Agora querem fundar uma seita davídica, ou jesuita, ou lá o que é.
Bizarro, sem dúvida.
Muito.
Esteve quase lá?!…
Essa é boa!
Só não temos é seis milhões de armários cheios do mofo dos anos.
Cuidado que com a cinza do outro o mofo é muito perigoso (para os espíritos mais ligeiros, claro).
Vejam na próxima revista do DN — até vem um conselho da OMS dedicado aos benfiquistas — e tudo…
Caríssima Joana — e só por você eu poderia vir aqui a me meter no entrevero de times que desconheço, mas devido à cor não posso deixar de festejar com o Benfica — eis uma descrição do que, suponho, anda a acontecer pelas ruas (basta substituir Flamengo pelo time campeão daí, parece-me)… “Flamengo não é somente um clube, uma agremiação esportiva. O flamengo é uma religião, uma seita, um credo, com sua bíblia e seus profetas maiores e menores. O Flamengo é um amor, uma devoção, uma eterna comunhão de sentimentos. Por ele muitos deram a vida, alienaram a liberdade, destruíram amizades, arruinaram lares, com homicídios e suicídios. O Flamengo dá febre, dá meningite, da cirrose hepática, dá neurose, dá exaltação de vida e de morte. O Flamengo é uma alucinação. Deveria ser feita uma Lei Federal que obrigasse o Flamengo a jogar em todo Brasil, toda semana e ganhar sempre. Quando o Flamengo vence, há mais amor nos morros, mais doçura nos lares, mais vibração nas ruas, a vida canta, os ânimos se roboram, o homem trabalha mais e melhor, os filhos ganham presentes. Há beijos nas praças e nos jardins, porque a alma está em paz,está feliz. O Flamengo não pode perder, não deve perder. Sua derrota frustra, entristece, humilha e abate. A saúde pública, a higiene nacional exigem que o Flamengo vença, para bem de todos , para felicidade geral, para o bem-estar nacional.” (Trecho de uma carta do Sr. Ex°. Dr. Juiz de Direito Eliezer Rosa, apaixonado torcedor do América, dirigida ao Jurisconsulto João Antero de Carvalho)
Luciana,
Que prosa tão bonita! Posso plagiar?
Caríssimo Pedro, não faltam proposições inspiradas sobre este time arrebatador que é o meu Flamengo…fiz uma seleção do que já escreveram torcedores (http://borboletasnosolhos.blogspot.com/2009/08/ser-flamengo-e-ser-humano-e-ser-inteiro.html) e aqui o que escreveram adversários encantados (http://borboletasnosolhos.blogspot.com/2009/10/eles-dizem.html)
Sirva-se à vontade, eu sempre digo que a paixão,a alegria e o orgulho são assim, rubros …
Ora aí está! A Luciana mostrou-nos aquilo que em Portugal nós já vimos na forma tentada (como dizem os polícias): a imposição do SLB como clube de regime que, como tal, deveria ganhar sempre…
Foi assim no tempo da outra senhora e também foi assim no tempo da ‘senhorita’ que agora lá está por empréstimo.
É a teoria do monolitismo apaziguador, muito próprio de certas culturas — diria pré-colombianas.…
É por estas e outras assim que o inquisidor-mor Ricardo Costa vai de vela virada até ao fim do ano.
Já tem os patins calçados.
Desculpe-me sr. Antônio, mas a vontade que aqui temos de que o Flamengo ganhe sempre (inclusive adversários como se pode ver na carta de um não torcedor) tem mais relação com a consequência das vitórias rubro-negras do que com qualquer idéias apaziguadoras ou ditatoriais…quando o Mengo ganha tornamo-nos mais alegres, irreverentes, sim, mas também muito mais exigentes, críticos e atentos (rsrs). Mas nem sei eu o que faço no meio de uma disputa que não é minha (já me bastam os dissabores cotidianos de não ter dribles, gols e tabelinhas a fartar-me fazendo-me recorrer — pra completar minha cota diária — a antigos jogos ou filmes como Looking for Eric de Ken Loach que aliás recomendo aos amantes ou do vermelho ou de belos gols…).
Não sei se um torcedor do Corinthians, o maior clube do Brasil, concordaria.
Excelentíssima D. Luciana (esta pequena maldade é por causa do seu ‘senhor António’…), no Brasil até os adversários gostam que o Fla ganhe? Bem, aqui não é nem nunca será assim com o Benfica.
Aliás, em Portugal o SLB ganha muito raramente: nos últimos 17 anos ganhou três vezes.
A média é para manter.
Oh, meu querido Antônio (assim, quem sabe, some a excelência…), não são todos os adversários, apenas os esclarecidos (rsrs), como por exemplo o delicioso Nelson Rodrigues…
Áh!
Assim está bem, minha doce Luciana — embora a questão dos «esclarecidos» seja sempre de natureza subjectiva, como certamente concordará…