Gosto de provérbios, ditos e expressões afins. Encantam-me a sua profunda sabedoria e a sua deliciosa e certeira ironia. E atrai-me a sua força descritiva e argumentativa, a concentrar de forma tão sugestiva quanto divertida ideias que — falo por mim – só de modo bem mais impreciso e menos sucinto seria capaz de exprimir. Uso-os o tempo todo – para, em geral, conversar, explicar, discutir, convencer, e também para (chamemos-lhe assim) pregar às minhas filhas. Como síntese ou remate, para quebrar o gelo ou aligeirar um discurso demasiado técnico ou denso, como arma de arremesso ou nota de inesperado e nonsense. Não há melhor.
Eis alguns dos meus preferidos:
1 — Deitar fora o bebé com a água do banho. Gosto desta expressão, a que muito recorro para desmontar e a zurzir soluções – jurídicas e legais, na sua maioria — à primeira vista consistentes e até fundadas mas que, tudo visto e ponderado, causam tamanhos danos ou são tão desproporcionadas nas suas repercussões que, mais que resolver o problema, dando porventura razão a um dos lados, matam o próprio problema, deixando todos de mãos vazias, ou criam outros, prejudicando até quem se queria beneficiar.
2 — Não se pode ter sol na eira e chuva no nabal. O meu crescente apreço por este provérbio é directamente proporcional à sabedoria que, muito contrariada é certo, vou adquirindo. Ao aceitar, relutantemente, que a vida é feita de escolhas e de renúncias. Que é preciso priorizar (é assim que se diz?), aceitar que se não é ubíquo e que o tempo não estica tanto quanto gostaríamos e precisaríamos. E que há realidades, programas e opções que são verdadeiramente inconciliáveis entre si.
3 — Só se atiram pedras às árvores com frutos. Muitas lágrimas enxuguei eu e ajudei outros a enxugar com este — e também com a variante mais vale mal de inveja que bem de piedade. Visto que se não pode proibir a inveja e a crueldade e porque as pessoas que por elas se deixam dominar sempre existirão e sempre farão todo o mal que conseguirem a quem as confronta com as suas insuficiências, limitações e inseguranças, o único remédio é não dar parte de fraco e, sobretudo, sem mudar de rumo, levar avante vida, projectos e objectivos. Porque se trata afinal de optar entre continuarmos a controlar a nossa vida ou deixar que outros, por tal via, a controlem.
4 — Se a vida te der limões, faz com eles limonada. Gosto muito deste. Pelo que implica de ver sempre o lado bom (que está sempre lá, difícil é às vezes decifrá-lo e valorizá-lo) e de, melhor ainda, reverter a nosso favor situações desagradáveis e desequilibradas. Requer talento q.b., algum esforço e muita prática. Mas compensa sempre. Porque quando algo nos empurra para o fundo, podemos sempre bater com os pés para voltar para cima. E quanto mais forte o impulso que dermos, mais e mais depressa subimos.
5 — A vaidade não tem frio nem calor. Há anos que me persegue. Ouvia-o da minha mãe sempre que me preparava para sair, qualquer que fosse a hora, fantástica, claro, mas com uma indumentária contrastante com as reais condições climáticas (apesar de ser já oficialmente Primavera, Verão, Outono ou Inverno, tanto fazia, era justamente esse o problema). Dei por mim há tempos a aplicá-la à minha terrível filha do meio. Lembro-me de, por segundos, me ter ocorrido algo entre “isto não pode estar a acontecer” e “não acredito que vou dizer isso”. Mas disse. E reincidi. Sem êxito, claro. Mas isso já eu sabia.
6 – Gaba-te cesto que vais à vindima. É o que rosno perante todos aqueles que mostram ter-se em grande conta sem motivo para tanto, se julgam extraordinários na banalidade dos seus feitos, se gabam de proezas absolutamente comuns ou – confesso ser esta a minha modalidade preferida – de fazerem ou se proporem fazer aquilo que mais não é que a sua obrigação, que é suposto, devido, normal fazer naquelas circunstâncias. Pessoas que, como dizem lá para os meus lados beirões, não se enxergam.
7 – Se não podes vencê-los, junta-te a eles. Também faço muito uso da sábia versão o que não tem remédio, remediado está. Porque a sabedoria está às vezes em reconhecer que não vale a pena lutar, contrariar, insistir, resistir — mas antes em aceitar, ceder, dar o braço a torcer e, sendo possível, make the most of it. Exemplo: o concerto da Miley Cyrus/Hannah Montana, agora que faltam escassas três semanas para a malfadada data e depois do que gastei em bilhetes para a malta toda, vai ser – digo-o com resignada certeza — um momento único e inesquecível na minha vida.


















Que delícia de post, Joana! Eu só conhecia o quarto e o último. Minha mãe costuma dizer que ” quem não ouve conselho, ouve coitado”, que deriva do “quem não ouve cuidado, ouve coitado”.
Em tempo: Feliz Dia das Mães!
Turmalina, esses seus provérbios são excelentes!!! Fico com eles para juntar aos outros … !
Eu sou pouco dada a provérbios, mas o meu pensamento que me obedece pouco gosta destes:
“quem porfia, leva a caça”; “o bocado está guardado para quem o há-de levar.”
Sábio e persistente, o seu pensamento Eugénia. A minha avó Madalena usava muito o seu segundo.
Olá Joana;
ADOREI ler os provérbios, tb sou das pessoas que ao longo da vida usa provérbios :-))))))
Assim, aqui fica alguns que uso constantemente com o meu filho, para que este seja mais arrumado com as sua coisas e se empenhe mais no estudo! :-)))))
Guarda que comer e não que fazer — Normalmente uso este provérbio quando o meu filho diz “mãe, amanhã faço” :-)))))
Um lugar para cada coisa, cada coisa no seu lugar — Este então é constante, de cada vez que entro no quarto dele e vejo a desarrumação.…. :-))))))
Capa e merenda nunca pesam — Este normalmente uso quando digo ao meu filho para levar um casaco pois pode vir a ter frio, ao qual ele responde “mãe, eu não tenho frio!”
E mtos outros.…
Beijinhos
Fala pouco e bem, ter-te-ão por alguém;
Muito falar, pouco pensar;
Cavalo dado, não se olha ao dente;
Paula, mas que bem aparecida! Estes teus provérbios para arrumação de quarto são excelentes, mas suspeito que o teu filho não partilhará este meu enrtusiasmo e que os resultados que alcanças com os mesmos devem ser tão magros como os meus … Adolescentes …
Os do muito falar, pouco pensar e/ou acertar etc. (ou vice-versa, de falar pouco e bem) tal como o depressa é bem não há quem é que jamais alguém me ouviu .… ou ouvirá invocar … :)
Joana, não tinha lido este post, mas adorei, a maior parte deles conhecia-os e curiosamente também os aplico com os filhos, também muitas vezes sem sucesso!
Não conhecia o 3 — “Só se atiram pedras às árvores de fruto”, que me parece também muito útil em alguns momentos, vou guardar na memória, para aplicar sempre que necessário!
Aproveite bem o concerto da Miley Cyrus, eu safei-me dessa, por enquanto!!
bjs
Olá Joana, fico contente por ter gostado! Porque “cá se fazem, cá se pagam” e “filho és, pai/mãe serás”, um dia veremos as nossas crianças rendidas à profunda beleza e sabedoria dos provérbios … e a usá-los para pregar em vão para os respectivos filhos, enquanto nós, avós, nos rimos …
Quanto ao fatídico concerto, fico contente por si mas, sem querer agoirar, sempre vou dizendo que “até ao lavar dos cestos é vindima” e que “o que tem de ser tem muita força” … e faltam ainda duas semanitas …