Arquivo | Maio de 2010


Art Institute of Chicago

É uma mania minha, já aqui confessada, esta de visitar museus de mãos dadas. Ontem visitei o Art Institute of Chicago. E confirmei o já intuía: é possível dar as mãos, naquele sorriso táctil que é um segredo só meu, a duas décadas de distância. Porque foi assim, só aparentemente separados por vinte anos, que ontem passeámos, à chuva, pela Paris de Caillebotte. Porque foi assim que vimos o Verão partir, foi assim que vimos o Inverno chegar, em religioso silêncio, encostados ao feno impressionista e impressionante de Monet. Foi assim que percorremos o Domingo da Grande Jatte. Foi assim que voltámos a respirar Cassatt, Sargent e Whistler, velhos amigos de Boston. Foi assim que bebemos um copo, solitários, na noite americana de Hopper. Foi assim. De mãos dadas por memórias que eram já minhas muitos anos antes de ter chegado a Chicago.

Georges Seurat, Un dimanche après-midi à l’Ile de la Grande Jatte. Art Institute of Chicago

Edward Hopper, Nighthawks. Art Institute of Chicago

Gustave Caillebotte, Rue de Paris, temps de pluie. Art Institute of Chigago

Grant Wood, American Gothic. Art Institute of Chicago

Psicadélicos integrados



Capa de A Maze of Death, de Philip K. Dick

Há já uns dias que tinha uma ideia a cocigar-me as meninges, depois de ter apanhado no youtube algo que não conhecia de todo – embora conhecesse os seus autores e algumas das suas mais incríveis peripécias musicais.
A ideia tinha a ver com o contributo do chamado psicadelismo na sonoridade particular que muitas bandas bem conhecidas de todos apresentaram nos anos 60/70 – com sequelas mais ou menos bem sucedidas. O click para a transformar em algo legível chegou-me esta tarde com o Querido Morto que o Diogo, ainda que virtualmente, enterrou à força (toca a ler para perceber a relação, ou queriam a papinha toda feita?!…).
Antes de mais, o que aqui vou mostrar resulta em algo absolutamente diferente de Lust for Life ou de qualquer outro dos galopes desenfreados de Iggy Pop. Mas se os resultados práticos são muito diferentes em termos sonoros já os fundamentos disto tudo não são particularmente distintos, porque todos os seus autores utilizaram o excessivo como filtro mágico e inspirador das suas extremadas aventuras musicais. E nem sequer se pode contrapor o número de cadáveres que cada modelo produziu para estabelecer uma grande diferença nos estilos visíveis das respectivas criações – porque todos estes modelos apresentam um vasto rol de vítimas reais.
Toda a gente conhece alguma da música surgida com o psicadelismo: no final dos Sessenta Lucy in the Sky with Diamonds, dos Beatles, era o santo e a senha do reino do LSD; Syd Barrett e os Pink Floyd primitivos deixavam o mundo atarantado com o seu primeiro álbum, The Piper at the Gates of Dawn, todo ele uma imensa trip lisérgica explicada de modo mais ou menos alegórico ao ouvinte embasbacado: you only have to read the lines/ the scripty black/ and everything shines… (in Matilda Mother).
Hendrix e a sua guitarra estratosférica, os Stones (ainda com Brian Jones) e o seu Their Satanic Majesty Request, os Birds e os Canned Eat, Ten Years After ou os Moody Blues, os Yes, Génesis, e tantos outros e em tantas partes (os alemães Can, Faust e Amon Düll, por exemplo) são sem excepção testemunhos mais ou menos vivos dessa passagem, necessariamente efémera, pelo LSD.
E aqui o efémero faz toda a diferença, porque quem permaneceu intelectualmente viciado em ácido acabou por pagar pesada conta: Barrett flipou de vez; Brian Jones, Hendrix, Jim Morrisson morreram, todos eles bem agarrados à harpa do niilismo*.
Os que sobreviveram – ou seja, os que tiveram algum cuidado, em especial no que diz respeito ao intervalo entre as várias experiências – integraram-se melhor ou pior numa existência que, no entanto, já não dispensaria a plástica de alguns dos side effects mais espectaculares (e físicos) produzidos por aquelas pequenas pastilhas (microdots) que apareciam no mercado com nomes sugestivos de orange sunshine, window pane ou crystal drops.
Com tais sobreviventes o psicadelismo largou a subjectividade experimental e instalou-se definitivamente na paleta melódica dos iniciados – que entretanto deixaram de cantar as nuvens de Saturno e os Neptune games para se dedicarem ao novíssimo território da filosofia e das causas públicas (Animals e The Wall, dos Floyd de Roger Waters, são um exemplo acabado desta trajectória).
Só que em todas as regras existem excepções.
É o caso de Gong, um grupo formado em 1967 por Daevid Allen, um australiano que abandonou os Soft Machine depois de ter sido impedido de reentrar em Inglaterra. Refugiado em França, Allen juntou-se a Gilli Smyth (um londrino e conceituado professor da Sorbonne) formando então a banda psicadélica mais duradoura de sempre (embora Allen e Smyth ainda tenham fugido de França para Maiorca, como personas non gratas, na sequência do Maio de 68). Pip Pyle, Steve Hillage, Mike Howlett, Allan Holdsworth, Pierre Moerlen e Bill Bruford ajudariam depois a criar o mito Gong, que, contra as normais expectativas de sobrevivência deste tipo de associações estético-intelectuais, se mantém alive and kicking em pleno século XXI (2032 é o nome do álbum publicado em 2009).

Exemplifico Gong com duas obras muito diferentes (aconselho headphones e full-screen no segundo exemplo).
A primeira dedico-a o todas os alicianos que vivem ou frequentam o ETGM. Com facilidade perceberão o porquê da dedicatória.

You – Perfect Mistery

http://www.youtube.com/watch?v=tgohx8gNtRA&feature=related

A segunda segue direitinha para todos aqueles a quem o espigão da curiosidade perguntou alguma vez que diabo seria afinal uma trip de LSD.
É claro que este som e estas imagens (onde a espaços surge o insuspeito Timothy Leary, conhecido por muitos como o papa do LSD, no seu filme How to operate your brain) não permitem a percepção dos diferentes estados de consciência e das complexas lutas de personalidade que o ácido lisérgico propõe – embora quem o tenha experimentado possa aqui entrever certos padrões. Tudo o que a experiência permite assegurar é que estes nove delirantes minutos conseguem no mínimo invocar alguns dos cenários a que as cerca de 10 a 30 horas de viagem submetem o sujeito – um sujeito por vezes bem assustado, mas certamente ainda mais abismado com os extraordinários territórios que assim consegue vislumbrar.

Flying Teapot – com excerto do filme How to operate your brain, de (e com) Timothy Leary

Nada há aqui de apologético: embora não mate objectivamente, o LSD é uma droga poderosíssima e muito perigosa em termos mentais, apenas comparável a coisas menos conhecidas do público, como a psilocibina dos cogumelos psylocibe mexicana ou a mescalina dos cactos peyote.
Só posso afirmar que, debaixo do sol, nada conheço que seja exclusivamente mau.
Ou bom.

*Termo utilizado por Philip K. Dick, em Valis, para caracterizar o estado mental dum potencial suicida


Os olhos azuis de Dennis Hopper

O José Navarro disse sobre o Dennis Hopper o que devia ser dito. Se me atrevo a glosar o mote é apenas por se ter dado o caso de o Dennis Hopper já ter chorado para mim. Para mim, mim, mesmo mim. Julgo que a coisa se passou há 19 anos, por volta do dia 1 de Junho e, em letra de forma, está tudo na Revista do Expresso de 8 de Junho de 1991, pgs. 85 a 87, numa entrevista que fiz a meias com o João Lopes. (Confesso, Hopper chorou metade para mim, a outra metade para o João Lopes – ou vice-versa).
Dennis Hopper tinha vindo a Portugal, convidado pelo Festival de Tróia, e dignou-se falar connosco. Apareceu-nos fresco, cheiro de Eternity, duche tomado há menos de 10 minutos, e os mais lindos olhos azuis que a face da terra já viu. (Sei bem que estou a falar de um homem, tal como de um homem, Gary Cooper, João Bénard um dia escreveu que era o mais bonito homem que a Criação teria gerado, e eu acredito e isso sossega-me). Dennis Hopper, dizia eu, trouxe os lindos olhos azul turquesa e fê-los acompanhar por um displicente fato de seda (ou seria seda e linho) tão azul, tão turquesa, tão brilhante como os olhos dele. Esmagou-nos com amabilidade, respondeu a tudo, e era tão pouco o que by the book tínhamos para lhe perguntar. E foi quando, blá, blá, blá, bad guys para a frente e actor do Método para trás, quisemos saber como é que se sentia por ter de ir procurar dentro de si mesmo e das suas experiências íntimas o mal , o “bad”, dos “bad guys” que representava. Hopper olhou-nos incrédulo e desatou no mais fingido pranto que nós, crédulos entrevistadores, poderíamos esperar: “Oh, oh, oh, I feel so bad”. Segundos terríveis de espera, doce incredulidade, e os olhos azuis turquesa de Hopper, brilhando mais do que o sol de Junho da península de Setúbal, voltaram a rir-se: “C’mon, not that bad. It’s all right!
It’s all right” foi um raio de luz que vindo dos olhos de Hopper me aqueceu e iluminou. Na altura, andava eu a deslambuzar-me de Barthes e a tentar fundamentalizar-me em meia dúzia de críticos norte-americanos, do Village Voice à pesporrência da Film Comment, e vinha-me um tipo de 55 anos, e com um simples “all right, ok” resumia tudo, fazia-me compreender e aceitar.
Hopper, a seguir, disse o que lhe apeteceu. Disse, por exemplo, que o “so bad” Frank Booth de Veludo Azul é um papel de comédia, mesmo que David Lynch (“ele é um escuteiro-chefe, sabem”) não o consiga perceber, e que o verdadeiro e único mau que sentiu mau (“o único papel catártico da minha carreira”) foi quando foi Paris Trout, do filme homónimo, em que contracenou com Barbara Hershey e Ed Harris (eram, digo agora eu, os três soberbos, num filme convulsivo e demente). Desviou um bocadinho a conversa para nos contar que poderia muito bem ter escrito um livro com o título “Seis Drogas e como as Usar para Representar” em que narrasse a viagem de bate fundo, muito fundo, com que se entreteve durante alguns anos. Lembro-me de Hopper contar que tinha em casa, espalhadas pelo chão, telas de Warhol e outros astros da pop arte e que tripavam em cima delas, até darem cabo dos quadros ou lhos roubarem.
Falou, claro, de Easy Rider. Mas do que se lembrava muito bem era do gosto pelo risco que desenvolveu depois. Foi à universidade, a Huston, fazer uma demonstração aos estudantes. Fez um círculo com cargas de dinamite e pôs-se em pé no exacto centro desse círculo. Explodiu as cargas sem se mexer, nem pestanejar, saindo incólume da experiência. Antes tinha-nos explicado que um cineasta era como um construtor de capelas da Renascença. O título da entrevista fazia-lhe justiça: “Um psicopata de veludo”.

Joana, malgré tout

É talvez a única das muitas Joanas vindas do passado (e que, pelo tanto que me agrada o meu nome, há muito colecciono) de que não gosto. Nada nela e na sua curta e desgraçada existência me suscita admiração ou interesse, compaixão ou afecto, Não sei explicar porquê. Suponho que é mesmo isso que define uma embirração. Poderia tentar alinhar razões para este meu desagrado – mas a verdade é que muitas Joanas houve, bem mais loucas e mais patéticas, bem mais excessivas noutros traços que não valorizo, aprovo ou compreendo mas que, ainda assim, não deixam de me atrair e fascinar. Ou seja, é implicação mesmo.  

Ora eu quando embirro, desgosto ou, o que é raro, detesto, não ligo nem faço caso: procedo como se aquela pessoa, coisa, situação não existisse. Caso contrário, estaria a conferir-lhe uma importância que não tem, nem merece ter. Por isso a excluí da série de Histórias de Joanas, que há tempos aqui comecei.

Em todo o caso, e como em tudo na vida, há que ter um mínimo de fair-play...

Porque hoje, 30 de Maio, data da sua morte (em 1431) se festeja Jeanne d’Arc, venerada em toda a cristandade como padroeira dos soldados, prisioneiros e presos e Sainte Patronne de França.

E, sobretudo, porque a sua controversa figura inspirou, ao longo de séculos, pintores e escultores, escritores e dramaturgos, realizadores, actores e músicos, nalgumas das suas mais belas criações.  Escolhi, de entre tantas, duas — uma lá em cima, outra já a seguir - que justificam, só por si, celebrar uma Santa que não é da minha devoção e lembrar uma Joana que não está no meu panteão.  Last but by no mean the least, permitem desfrutar da beleza e talento destes extraordinários não santos, que conseguem sempre o milagre de me fazer olhá-la com outros olhos.


“Quem és tu?” pergunta a lagarta azul

Este texto foi publicado na Alice, uma revista online a cuja narrativa não linear se adapta. Mas gosto sempre de trazer tudo aqui para casa, mesmo que seja uma simples cópia.
Já agora, o desafio da Alice é simples: a lagarta azul pergunta a cada um dos convidados, “Quem és tu?”  Respondi como soube, assim:

Uma das coisas que me faz gostar da Alice é ela dar pontapés a lagartos. Ao Bill, capítulo IV, acertou-lhe valente biqueirada que o fez voar, como um foguetão, para o lado de lá da sebe. Mas se os lagartos forem lagartas e azuis, daquelas que fumam narguilé e perguntam “Quem és tu?”, já a música tem de ser fina.
Quem és tu?” nem a Alice sabia nem eu sei, que é a cândida resposta que se deve dar a lânguidas lagartas azuis.
Eu? Às vezes sou, outras não. Lembro-me de um dia em que fui. Aconteceu em Luanda quando, antes de saber quem era, vinha do Liceu. “Aquele que ainda não sabia que era eu” ia de olhos postos no chão e não viu as nuvens. Num instante as nuvens desabaram. Que grande dilúvio! As nuvens caíram espalhando-se todas em gotas grossas. Quentes, mas menos quentes do que o quente que o chão estava. “Aquele que ainda não sabia que era eu”, molhado, tão molhado, disse: olha sou eu. Tinha 10 anos e era eu; eu era a água a correr com alegria pela camisa branca de terylene, a cheia a tapar-me os quedes* se quedes se calçassem até aos joelhos, calções ensopados. Se nesse dia a lagarta azul me tivesse perguntado “Quem és tu?”, teria respondido: eu era eu de tirar a camisa, o peito raquítico de costelas a assomar, contente de estar seminu no meio da rua, mundo sem porquê, sem puxão de orelhas, de uma felicidade aquática, quente, como um pequeno saguim sem ter de dar explicações: de aceitação panteísta se já na altura se dissessem palavrões.
 Ó que mentira, estimada lagarta, se dissesse que não voltei a ser eu. Voltei, muito. Às vezes tão alegre, uma vez tão triste. E sempre um eu animal, bicho.
Quando na sala de partos, acabada de sair da nua mãe tua rainha, te puseram pinguim nos meus braços de urso, fui eu nas convulsões estremecidas, no grito sufocado, no riso que me rolava dos olhos em gotas grossas quentes muito mais quentes do que Junho em Lisboa.
Soube que eu é que era eu para responder a esse “quem és tu?” no dia da vida, mas também soube no dia de morte e morgue de meu pai. Sim, fui eu, estavas já vestido, animal frio em cima da pedra fria, a palidez maquilhada, para sempre fechados os olhos que tinham aberto os meus, e estou agora a tratar-te por tu o que nunca em tua vida fiz, cachorro sempre a seguir-te, ali de repente a uivar, eu órfão com medo de ladrar à tua morte.
Fui sempre assim, mais eu, a responder a “quem és tu?”, do que na placidez biográfica de ter nascido em aldeia beirã, ter vivido gentil infância e adolescência em Luanda, ter tão pouco estudado direito e tanto gostado de filosofia, ter dez anos servido João Bénard na Cinemateca, outros tantos e mais três Balsemão no Expresso e SIC, ou tentar agora fabricar filmes ou livros. E tudo isso é o que civilmente, com gosto e nenhuma negação, sou. Eu.
Hei-de voltar “quem és tu?” a ser eu, daquela maneira, só de emoções e bicho-do-mato. Serpente, águia, macaco equilibrista, animal sem nenhuma metafísica. Voltarei a ser eu à chuva, ao sol, de pé e deitado. Lânguido, nunca lagarto, ou sequer lagarta que fuma narguilé.

*Quedes era o que, em Angola, se chamava aos “ténis” ou sapatilhas. Corruptela da marca Keds, que era a que dominava o mercado.

Tão estranho este morto

A juntar aos 13 mortos residentes que, inabaláveis, continuam residentes, o Diogo trouxe-nos um novo morto. É tão bizarro que até os bizarros Mick Jaegger e Keith Richards lhe vieram espreitar o estranho funeral. Atrevam-se lá agora a não ir ler. Aqui

Foi Duro

Destiny Hope é o seu verdadeiro nome. Porque os pais acreditavam que she would accomplish great things. Por ser muito sorridente passou a Smiley e daí a Miley foi uma questão de tempo. Porque a sorte se constrói, Miley Cyrus, sempre pela mão do pai, o cantor country Billy Ray Cyrus — imortalizado pelo dificilmente igualável Achy Breaky Heart — começou cedo uma impressionante carreira, que inclui vários milhões de discos vendidos, inúmeras nomeações para vários prémios, alguns dos quais ganhou. A série da Disney Hannah Montana, em que contracena com o pai Billy Ray e representa uma girl next door que é também uma secret pop star, fez dela uma estrela à escala global, ídolo de milhões de crianças e pré-adolescentes. Por tudo isto, foi incluída em 2008, com apenas 15 anos, na lista das 100 Most Influential People in The World da revista Time (sob veementes protestos de vários outraged readers). No mesmo ano, a Forbes atribuiu-lhe o posto 35 na Celebrity 100 list, tendo subido seis lugares, para 29, em 2009. Perto de completar 18 anos, procura libertar-se da imagem de criança-vedeta. Para tanto protagonizou já um pequeno escândalo, que envolvia fotos suas moderadamente sugestivas, de costas desnudas, envolta num lençol, lançadas na net, em 2008. Seguiram-se vagas de indignação parental e o pedido de desculpas da praxe. Soube-se, depois, que as fotos eram de Annie Leibowitz, se destinavam à Vanity Fair e que a sessão decorrera na presença e sob supervisão dos seus dedicados progenitores. Na mesma senda de emancipação da Hannah Montana, lançou dois discos a solo (o terceiro sai agora em Junho) e participou nos filmes The Last Song e Sex and The City II.

A notícia da sua vinda ao Rock in Rio foi recebida com euforia aqui em casa. O dia de ontem foi aguardado, ansiado, sonhado pela minha filha Teresinha (e pelas manas grandes também, embora elas jurem que não). Oficialmente era o “Dia da Família” na Bela Vista, com um cartaz adequado, muitos eventos e diversões. Porque levo já muitos anos disto, fui só ao anoitecer, para desfrutar o main course com as crianças em bom estado. Sorte minha, ainda assisti, no Palco Sunset, ao divertido mano a mano entre Luís Represas e Martinho da Vila. Estava um mar de gente – 88 000 pessoas — crianças por todo o lado, algumas já em estado catatónico, pais (daqueles muito esforçados) com ar exausto e já pouco estóico, após terem suportado os DZRT e horas em filas para que aos rebentos lhes não faltasse nada (pipocas, gelados, uma volta na roda gigante ou na montanha-russa, anéis fluorescentes e perucas, uma guitarra insuflável oferta do principal patrocinador do evento). Mal os pobres sabiam o que lhes estava ainda reservado: porque a pequena estatura dos fãs de Miley não lhes permitia vislumbrar os écrans, quanto mais o palco, no meio da multidão, era preciso erguê-los – às cavalitas ou ao colo — e assim permanecer …  

Quanto ao concerto propriamente dito, Miley chegou, viu e venceu, sem dificuldade. A rapariga é pirosa e totalmente produzida, pouco espontânea e nada interactiva com o público. Tudo o que profere se reduz a um rosário de clichés e lugares comuns, claramente seguindo um guião standard. Os atuendos que envergava, decerto judiciosamente escolhidos para lhe conferir a tão almejada imagem sexy, em nada a favoreciam — bem pelo contrário, sobretudo o primeiro, umas absurdas hot-pants que lhe realçavam as pernocas rolicinhas. Mas para além de tudo isto, devo dizer que me impressionou muitíssimo a desenvoltura e o à vontade em palco, a energia e a segurança e, porque não dizê-lo, o controlo e o profissionalismo de uma miúda com apenas 17 anos. Miley Cyrus canta e dança, não pára quieta e interpreta as suas músicas com a convicção única de quem gosta muito delas e do que faz. E depois, valia a pena ver as caras encantadas e quase incrédulas de tantas meninas e alguns meninos que, deliciados, cantavam em coro todas as suas músicas, do princípio ao fim.   

Fiel a um dos lemas que regem a minha vida – se não podes vencê-los, junta-te a eles – tinha feito o meu homework. Vasculhei o You Tube em busca de músicas e coreografias. Toquei-as, decorei-as, trauteei-as. Ensaiei meneios e gestos. Tamanha devoção alarmou a Teresinha que, há dias me inquiriu, séria: “a mãe não vai para lá cantar e dançar assim, pois não”? Respondi, evasiva (e sabedora do que grande parte das minhas amigas andava a tramar): “não, claro que não … mas se as outras mães fizerem, eu também faço”. E fiz. Can’t be tamed, 7 Things, Robot, Party in the USA, When I look at you, Start all over, See you again, The Climb, entre outras – cantei-as, dancei-as, executei as apropriadas coreografias. Com a Teresinha e os seus 25 kg sobre os ombros metade do tempo (valeu-me a sempre generosa Madalena, com quem partilhei tão pesado encargo). Foi muito, muito divertido. Mas duro, muito duro. Hoje estou que mal me mexo…

(Z)iggy Stardust or the Rock´n´Roll Suicide

Um engodo é o que é este Querido Morto. Porque vem ao engano quem pensa que vai ser glorificado o álbum Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars. E ainda mais se sentirá ultrajado quem vier à espera de um obituário antecipado do camaleónico Bowie, que foi quem deu à luz Ziggy e o matou com as suas próprias mãos.

Mas, concedamos. Convirá explicar, ao menos, porque veio Ziggy ao mundo e dele se despediu tão cedo. A conjuntura era a de um pré-apocalipse, com a destruição da humanidade e da Terra anunciadas para daí a cinco anos. Tudo por causa da delapidação dos recursos naturais do planeta. Nada que — quase quarenta anos depois de Ziggy — não continue a ser apregoado como uma inevitabilidade se o desperdício se mantiver ao ritmo da indiferença dos tempos presentes. Enquanto não vinha a débacle final, os adolescentes pilhavam tudo o que podiam, perante a complacência dos mais velhos que os deixavam entregues a si próprios. O rock´n´roll, que até então constituía a sua principal ocupação, já não era opção, pois que a electricidade era bem escasso para tanta fúria nas guitarras. Ziggy, que era um deles, não desistia porém de cantar e tocar. E foi com a sua voz e guitarra que anunciou aos fans aquilo que lhe tinha surgido em sonhos: que estaria para chegar à Terra, vindo do Além, uma espécie de anjo ou messias (“a Starman”) que traria de novo a esperança e a hipótese de redenção à humanidade. De um momento para o outro Ziggy foi convertido em profeta e os fans passaram a segui-lo como fiéis discípulos. Só que os “Starmen” (eram vários, afinal) nada tinham de anjinhos. Aterraram na Terra, sim, mas sem nenhuma preocupação pelo bem-estar da humanidade. E, porque, no seu estado original de anti-matéria, não conseguiam ter existência terrena, desfizeram o corpo do pobre Ziggy e recolheram os bocados para os tomarem para eles e se tornarem visíveis. Isto tudo num palco metaforicamente adequado: o do próprio palco onde Ziggy actuava e enquanto cantava Rock´n´Roll Suicide.

A morte de Ziggy Stardust – que, numa outra variação da história, era ele próprio o marciano “Starman” que se finava em palco às mãos dos seus fans – funcionava, para Bowie, como uma alegoria da glória e decadência do rock´n´roll que, de tanto se alimentar dos seus excessos, estava condenado à auto-destruição. Era essa a alma do rocker, a de levar sempre uma vida de extremos, a de um comportamento nos antípodas daquilo a que o caminho do sucesso aconselharia, a da negação do corpo através da apologia do vício que o consumia. Em suma, havia no rocker um desejo de eternidade que só a morte podia consumar, e o culto desse sacrifício – a que os fans se rendiam e alimentavam — era tanto maior quanto mais profunda fosse a descida aos infernos. Com a morte de Ziggy, morria também o rock´n´roll, ou pelo menos o seu espírito original. Aos excessos e vícios do rock´n´roll poderia até suceder — depois de uma transição da mais absoluta anarquia a que se chamou punk — uma sua derivação, convenientemente depurada do roll e sem dúvida mais clean e ordenada. Mas aquilo que o pós-punk e a new wave produziram já nada tinha a ver com a urgência da life in the fast lane dos ícones que fizeram crescer o imaginário do rock nos anos loucos compreendidos entre a segunda metade de 60 e a primeira de 70.

E, para além de toda a simbologia que encerrava, quem era afinal de contas a personagem que se escondia atrás de Ziggy Stardust, aquele em quem Bowie se inspirou para criar a figura que o converteu numa celebridade mundial? Bowie himself não seria certamente uma hipótese credível, pois que o próprio sabia – e o tempo veio a comprová-lo para quem tivesse dúvidas – que a sua pose estudada a puxar à sofisticação (ou ao pretensiosismo, dirão alguns) pouco compatível era com a alma de um verdadeiro rocker. Seria Hendrix para quem apontava o he played it left hand dos primeiros acordes do tema-título? É possível, dirão os seus devotos, mas, estando Hendrix já morto quando Ziggy nasceu, o final da história soaria demasiado previsível. O que dizem os entendidos – e Bowie nunca o desmentiu – é que Ziggy seria nem mais nem menos do que James Osterberg, nome de registo de um rapaz de Detroit que ficou para a história como Iggy Pop. E, nesse sentido, concorrem tantos sinais que se torna arriscado dizer o contrário. A começar pelo Iggy, abreviatura de Iguana que se fez anteceder de um Z. A continuar na enorme admiração que Bowie nutria por Iggy e pelos seus Stooges, e que o fazia lamentar não ter a virtude da medida da decadência necessária para fazer uma obra-prima como Raw Power, álbum contemporâneo da Rise and Fall de Ziggy que, assim como fechou o ciclo do rock´n´roll, funcionou como a pedra de Roseta do punk (e que, verdade se diga, nenhum álbum da era punk conseguiu igualar). A continuar ainda em todos os excessos que Iggy exibia em palco e fora dele, ao lado dos quais Jagger e Richards faziam figura de anjinhos, e que, a serem aqui reproduzidos, levariam certamente a que muitos leitores deixassem neste exacto ponto a leitura do bizarro obituário que lhes propus. Tão bizarro como o fenómeno que levou a que a glória e a decadência da Iguana fossem uma e a mesma realidade, como se cada uma se alimentasse da outra, como se cada mutilação que o monstro Iggy se infligia em palco fosse condição necessária para a libertação da fúria criativa que elevou ao altar da intemporalidade muitas das suas canções. It´s only rock´n ´roll, dirão os saudosos. Ou melhor, it was, porque, depois de Iggy, veio o dilúvio, como Bowie nos quis dizer com o seu Ziggy. O próprio fez questão de se encarregar das exéquias: o último estertor do rock´n´roll é também da sua responsabilidade, pois foi ele que produziu Raw Power, não sem que Iggy e seus compinchas tivessem, na altura, sido iguais a si próprios, escarnecendo de quem lhes dava de comer e rejeitando os arranjos de Bowie.  

O tempo acabou por fazer a justiça devida: a Bowie, que acabou de ver, neste ano de 2010, e por vontade de Iggy claro, reeditado o álbum histórico dos Stooges na versão que para eles produziu. E a Iggy Pop que, contra todas as evidências, não só sobreviveu a uma morte anunciada como acabou a ser adoptado pela indústria, que o entronizou no Rock and Roll Hall of Fame e o fez Cavaleiro das Artes e Letras.

E o roc´k´n´roll, o que lhe aconteceu? Esse, morreu mesmo. Apesar de um e outro grito de revolta da Iguana e de assomos como os de Cobain, nunca mais se fez nada com a urgência, intensidade e o desespero de Raw Power. Ainda bem, dirão os paizinhos dos adolescentes da idade daqueles que veneravam Ziggy e o levaram à morte. Nós, que só nos preocupamos com a imortalidade, não somos da mesma opinião.

 

 

Hopeless Dennis Hopper

Michael Tighe, “Dennis Hopper & Viggo Mortensen in Omaha”, 1990

O rebelde sem causa não era o outro era este, o verdadeiro mau da fita, o rebelde sem reconciliação. Não lhe coube o glamour de “live fast, die young and leave a good looking corpse”; só cumpriu parte da velocidade, pois quanto ao resto foi prolongando a existência aos solavancos, às vezes quase tocando o céu, outras só porque sim, como é próprio dos inconformados.
O clímax? Easy Rider (1969), o filme mais janado da história do cinema que ainda hoje ninguém sabe como foi, só sabemos que foi enorme sem querer. Fonda filho entupiu e Hopper teve aquele instante único em que um charro a mais fez toda a diferença.
Outros cumes? O primeiro: o Ripley de Der Amerikanishe Freund (1977) em homenagem a Nick Ray pela mão – que nunca voltou a ser melhor – de Wim Wenders. O segundo: o fotógrafo ao fundo do rio, já do lado de lá, em Apocalypse Now (1979). O terceiro: a figura completa do Mal em Blue Velvet (1986), sorvedor de Pabst Blue Ribbon, a cerveja do povo: “rednecks, white socks and Blue Ribbon Beer”.
Foi descuidado, insuportável e, sobretudo, truculento sempre e até ao fim, sem amolecer e ao lado de Dennis Hopper os bad boys de Hollywood Jack Nicholson e Warren Beatty reduzem-se a uns meninos  copo-de-leite. Entretanto sem que se desse muito por isso, foi um excelente fotógrafo. Só mesmo no finzinho, há dias,  lhe deram o merecido crédito institucional, com a pegada no Walk of Fame.
Desejar paz à sua alma seria um insulto.

Dennis Hopper, “Double Standard”, 1961

Dennis Hopper, “Jane Fonda (com arco & flecha)”, Malibou, 1965

Massive cocktail




Dedicado a todos os que gostam de gostar


Não vi, não li, não sei


Por obra do eng. Vasco Grilo e do seu supino desplante em confessar o que devia ter lido mas não leu, ou porque não conseguiu ou porque não quis, venha o diabo e escolha, cá me obrigo a dar o flanco, que confissão puxa confissão, e o meu inferno não há de ser mais brando que o dele. Tu quoque Brutus, é o mínimo que se pode exclamar, diante de tão desonrosa lista que vos apresento. Vale que ainda houve pudor em não revelar a verdadeira dimensão da verdade, pois do muito que ficou por assinalar bem pode o leitor inferir a minha ignorância.

ANTÓNIO LOBO ANTUNES – Desconfio sempre de mim próprio. Se tanta gente cujo gosto eu estimo gosta dele, porque não haverei também de apreciá-lo? Foi assim que me dispus a ler “Exortação aos Crocodilos” de Lobo Antunes. Não posso dizer que não tinha sido avisado, pois lera comentários que faziam a mais terrível das afirmações: que não era fácil de ler. Ora eu tendo a gostar apenas de livros tipo Fred Astaire, aqueles em que grande parte do esforço do escritor é, precisamente, o de ocultar o esforço que fez para o escrever. Fiquei derrotado à 3ª página. Eh pá, não!

THE ALEXANDRIA QUARTET – Terá sido moda, ou foi só comigo? O certo é que a dada altura da minha vida, passava por pestífero por não ter lido os 4 livros de Durrell, e assim não poder entrar nas discussões noite fora sobre eles. Durante esse breve período Lawrence Durrell parecia tudo, sem antes nem depois. Depois, nem eu acabei por ler os 4 tomos, nem voltei a ouvir falar deles, pelo menos assim, com a intensidade definitiva daqueles tempos.

OS CAPITÃES DA AREIA – Um camarada entregou-mo dizendo que me ia fazer bem. Eu já devia andar esquinado por essa altura, pois para ali ficou. E só por birra, com ele todo o Jorge Amado.

NORMAN MAILER – No final dos anos 70 tinham feito tantos encómios à edição portuguesa de “The Executioner’s Song” que me atirei aos dois volumes, cheio de ilusão, como dizem os espanhóis. Encalhei a meio do primeiro. Quando saiu um fragmento de “Oswald’s Tale: An American Mystery” na New Yorker, li-o com avidez e agrado – é agora, pensei. Logo numa das primeiras viagens que comecei a fazer regularmente aos EUA lá vim carregado com o calhamaço. Foi ficando na estante dos “a ler”, até hoje. Porque será que não tenho vagares para Norman Mailer?

ECUADOR et al. – Já repararam como as louras de voz grossa dobram a língua quando dizem o “l” de Miguel, arrastando-o? Não sei se é por isso que desde a primeira hora decidi não pegar no “Equador”. Minto: uma vez, pela calada da noite, roubei-o da outra mesinha de cabeceira e ainda percorri 5 páginas. Só confirmei a repulsa inicial – xarope, só para a tosse. O Miguell certamente não terá culpa, mas sempre associei “Equador” à onda de “O Código Da Vinci” – no way jose – e aos dramas fofos da sra. Rebelo Pinto.

GUERRA E PAZ; VANITY FAIR; ULISSES – Juro que um dia hei de os ler. Mas não será amanhã.

Blog sem Saída

Beco sem Saída. Estocolmo, Junho de 2007


Acabou-se o regabofe. Deste Blog ninguém sai com vida.