tarde, tarde demais, by Turmalina

A Turmalina sentiu-se inspirada pelo primeiro desafio da Eugénia. Tarde demais, porque o desafio mudou. Mas fica aqui, com vénia da Gente Morta, a short story que ela enviou.

 

Eram pequenos olhinhos brilhantes, quase minúsculos, que a observavam. Ela cavava, cavava e cavava num gesto tresloucado e sem fim. O silêncio da floresta refletia o silêncio da sua alma. E havia  um vazio , um abismo entre seu corpo e sua  existência. Aonde havia de ter se perdido? Entre um sorriso e um abraço que tanta falta lhe fazia?
A noite se aproxima e não há caminho de volta. Perdera suas crenças e seu amor próprio. Vendera a alma ao diabo. Não lhe restaram nem mais lágrimas que pudesse verter agora. A culpa envenenava-a, gota a gota. Ela podia ter dito não.
Seu desespero era tanto que não percebia que pequenos olhinhos a observavam. Ela sabia que não haveria mais tempo, na manhã seguinte estaria tudo terminado. Sempre perdera e não seria agora que haveria de ganhar. É tarde, muito tarde, tarde demais.
Exausta, sentou-se aninhada entre as raízes da frondosa árvore, abraçou os joelhos, abaixou a cabeça, contraiu-se e mais uma vez tentou chorar.Seus delicados braços em torno dos joelhos tremiam de dor e frio. Suas mãos , encardidas de tanto cavar, adormeceram de cansaço.Aos poucos começou a escutar os sons da floresta.
Pareciam grilos, pareciam galhos, pareciam passos, não, pareciam pássaros. Mas era tudo tão confuso. Tudo doía-lhe, o corpo, a alma e até o estômago. Há quanto tempo estava alí? Não conseguia nem lembrar-se  de como é que chegou lá. Só sabia que era tarde, tarde demais.
Aos poucos foi acalmando-se e logo o sono veio. E aqueles pequenos olhinhos continuavam ali, velando seu sono. Apesar de já adulta parecia ainda uma menina. Aquela mesma menina que quando criança passeava por este mesmo bosque, rindo enquanto seu pai contava-lhe estórias engraçadas. E que na primavera colhia pequenas flores nascidas aos pés das árvores para enfeitar os longos cabelos da sua mãe.
Era madrugada e ela dormia, coberta pelo frio, fome e solidão.E principalmente pela terrível culpa. Aquela mulher que já não tinha pai, nem mãe, nem filhos, nem nada, dormia o sono que não era bem o dos justos. O dia parecia querer amanhecer. E aqueles pequenos olhinhos brilhantes agora choravam ao escutar as moto serras invadindo a floresta. Era mesmo tarde, tarde demais.   

Comentários a “tarde, tarde demais, by Turmalina” (18)

  1. Turmalina diz:

    Com meus grandes olhinhos brilhantes, agradeço-lhes novamente a oportunidade de compartilhar algumas palavras.

  2. Vasco Grilo diz:

    Olá Turmalina. Curiosamente, foi nas moto serras a rosnar ao longe que pensei de imediato quando vi a fotografia da Eugénia pela primeira vez.…
    Obrigado por aparecer.
    Volte sempre!

    • Turmalina diz:

      É Vasco, veja aonde anda nosso subconsciente…aquele que deveria estar povoado somente de Lobos Maus e Bruxas Más do Leste…
      Eu vejo aqui, conscientemente, uma preocupação com o tipo de planeta que deixarei para o meu filho.
      E aparecer por aqui é sempre um enorme prazer!
      Eu é que agradeço :o)

  3. Luciana diz:

    Que lindos seus brilhantes olhos feito história, Turmalina…

  4. Orcama diz:

    Pelo que acima escreve, este post bem podia ter por título: Os olhos de Turmalina.
    Pois é, mas ficou tarde, tarde demais, Eugénia de Vasconcellos trocou as voltas, e agora? Novo texto, novo post “e sempre assim sem remédio”, como dizia um poeta de cá… Ponha a caixa de correio deste blog a funcionar, que eles gostam, e eu, enquanto leitor, também. Faça-o tá?

  5. teresa conceição diz:

    Que bom estar de volta deste lado, Turmalina!

    E ainda bem que não deixou cair esta fotografia.
    Gostei muito desta história. E é bom lembrarmos as moto-serras de vez em quando.
    Os nossos dias são tão rápidos que nos esquecemos delas e elas continuam serrando caminho.
    E um dia acontece o seu título.

    • Turmalina diz:

      Obrigada, Teresa! Ela (a fotografia) quase que me escorregou das mãos..mas ainda deu tempo.Espero também que um dia silenciem as moto serras. Do lado de cá temos a Amazônia e toda aquela diversidade que é dilacerada silenciosamente enquanto corremos de um lado para o outro nisto que chamamos de vida ideal.Espero que nunca seja tarde :o)

  6. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Olá Turmalina. Belo texto.
    Há uma música portuguesa (não sei se conhece), que, a propósito, poderia aqui traduzir-se assim:

    Os olhos da Turmalina
    São verdes cor do limão.
    Os olhos da Turmalina
    São verdes cor do limão.
    Ai sim Turmalina ai sim
    Ai não Turmalina ai não.
    Ai sim Turmalina ai sim
    Ai não Turmalina ai não.

    :)

  7. Joana Vasconcelos diz:

    Que boa surpresa, Turmalina! Entre a espantosa fotografia e o seu belíssimo texto, sente-se o gelo que faria nessa noite, na floresta e dentro dessa mulher, tão só e desanimada …

    • Turmalina diz:

      Ah…Joana, eu é que fico feliz de poder participar deste tão animado e acolhedor Cemitério. Mais ainda porque gostou do texto. A solidão deve mesmo ser gélida.Assim como o remorso.De vez em quando é bom trabalharmos um tema diferente. :o)

  8. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Turmalina,

    que bem lembradas, as moto-serras. Jamais as pensaria diante desta fotografia.

  9. Turmalina diz:

    Sou boa em livre associações. Me falta o dom da escrita literária ou poética, mas no caso dos roteiros, as associações funcionam muito bem. Sou aquele tipo de pessoa que de um botão de rosa faz um jardim inteiro.Desde pequena ouço a frase: — De tudo ela faz uma estória.
    Quando vejo pessoas caminhando apressadas pela rua costumo me exercitar rascunhando o que cada uma delas deve estar pensando naquele momento.Eu já “sei” inclusive de onde vem a menina do seu trem…é automático. Quando observo uma imagem imediatamente já construo uma estória.

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