So small, yet so powerful


The Pill. A Pílula. Faz 50 anos. Foi no início de Maio de 1960 que a Food and Drug Administration (FDA) autorizou a sua comercialização como contraceptivo, pela G.D. Searle & Co, com a marca Enovid.  

Por essa altura, já largos milhares de americanas a utilizavam para tratar female disorders que, ao que parece, haviam registado um crescimento exponencial desde que, três anos antes, a mesma FDA a aprovara para o respectivo tratamento… Recorde-se que, à data, em cerca de metade dos Estados americanos vigoravam as Comstock Laws, baseadas no Comstock Act, de 1873, que criminalizava a venda e a distribuição de contraceptivos (bem como a divulgação de informação sobre os mesmos), considerados obscene materials. Motivo pelo qual os testes médicos, levados a cabo por Pincton e Rock em 1956, decorreram em Porto Rico. Só em 1965, viria o Supreme Court, no caso Griswold v. Connecticut, a dar a primeira machadada nas Comstock Laws, considerando-as contrárias ao direito à privacidade. Dos married couples only, though. E corria já o ano de 1973 quando, no caso Eisenstadt v. Baird, veio tal doutrina a ser alargada a unmarried persons.       

A data é assinalada neste artigo da Time, que faz o balanço do primeiro meio século de vida daquele que o Economist terá considerado, em 1999, the most important scientific advance of the 20th century. E que relembra os seus antecedentes e o contexto científico e social em que surgiu, o seu impacto e os seus benefícios e, muito especialmente, as controvérsias que rodearam os seus primeiros tempos (algumas das quais perduram) e outras que entretanto surgiram.  

A pílula mudou para sempre a vida das mulheres. Ao permitir-lhes controlar a sua fertilidade. E desfrutar, em pleno, da sua sexualidade, libertando-as do temor de uma gravidez não desejada. Mas também, e não menos significativamente, ao contribuir de forma decisiva para legitimar, de forma generalizada e irreversível, tais pretensões.

As suas repercussões foram, contudo, bem mais vastas e profundas. Tendo surgido numa época de convulsões e de profundas mudanças sociais, a pílula potenciou e consolidou os seus efeitos. É inquestionável a sua influência na forma como as mulheres passaram a encarar as suas vidas e o seu papel na família e na sociedade e a perspectivar as suas opções, os seus direitos e obrigações e os seus projectos de realização individual.    

Cinquenta anos volvidos, continua aceso o debate em torno da minúscula pílula. Das suas implicações morais e religiosas, ainda. Mas também, e mais intensa e latamente, dos seus reflexos na qualidade de vida e nos eventuais riscos que comporta para a saúde daquelas que diariamente a tomam – estima-se que 100.000 milhões de mulheres, worldwide.

Amada e/ou odiada, por muitas e diversas razões, a verdade é que a nossa vida – e neste nós incluo mulheres e também homens — não seria a mesma sem ela.   

Comentários a “So small, yet so powerful” (5)

  1. Orcama diz:

    Cinquenta anos? Já está velhinha, mas continua a operar milagres, esta paladina da liberdade.
    Também foi uma revolução… de rosas? Ou antes um popular 1º de Maio?

    • Joana Vasconcelos diz:

      Foi de rosas, porque se desenrolou delicada, se bem que com alguns inevitáveis espinhos. E porque permitiu colorir a vida de muitíssimas mulheres com uma paleta bem mais rica e estimulante, de tantos tons quantos os das rosas … Mas foi sem dúvida também um” popular 1.º de Maio”, por serem as suas conquistas tão (ou mais) abrangentes e irreversíveis que aquelas que nessa data se celebram … ;)

  2. José Navarro de Andrade diz:

    Não sei se foi a “maior revolução científica” porque me parece ser mais da área da tecnologia; mas estou com a ideia de que foi a maior revolução social do séc. XX. Dissociar o sexo da procriação trouxe as mulheres para uma situação de igualdade quer na despreocupação quer desculpabilização quer, sobretudo, na responsabilização profissional. Noutras latitudes ficaram-se pela burka…

    • Joana Vasconcelos diz:

      Absolutamente de acordo, JNA. Apenas acrescentaria que a burka de que fala não está confinada a outras latitudes, fora da Europa. E que também aqui por estas europeias paragens subsistem ainda (e são bem limitadoras) algumas outras burkas, de diferente aparência e textura, mas com idêntica ou próxima fundamentação …

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