A todo o saudoso cemitério
Reabriu, a 1 de Abril, o troço da linha do Douro entre Tua e Pocinho. Estava fechado há meses, desde o dia de Natal. Por causa de uma derrocada de pedras. Tudo demasiado igual ao sucedido na incomparável e insubstituível linha do Tua. O desfecho, por ora, diferente e feliz.
Porque, do numeroso grupo de Vasconcelos, originários e supervenientes, havia quem nunca tivesse feito o percurso. Porque os que o conheciam já tinham saudades, lá fomos. Ida e volta.
Entre o Pinhão e o Pocinho, a linha do Douro segue paralela e sempre junto ao rio. Como nenhuma estrada o faz. Vê-se tudo e é tudo belíssimo – as curvas, as encostas em socalcos, as vinhas novas plantadas na vertical, as casas brancas das quintas, os maciços, de granito e giesta, por desbravar, os vales a perder de vista. E há ainda uma estação chamada Alegria, onde me apetece sempre desembarcar, uma antiga gafaria, na curva do Meão, as brutas escarpas do Cachão da Valeira e a placa que assinala o fim das obras que tornaram o Douro navegável.
Das várias vezes que tinha feito esta volta, era Verão. Quase sempre ao fim da tarde, à hora a que o sol desaparece atrás dos montes. Desta vez, de cabeça sempre fora da janela, estranhei a falta do cheiro — inconfundível, a esteva, a urze e a calor — e da barulheira das cigarras. Mas vi, pela primeira vez, o rio cheio, muito cheio, de água e de espantosos remoinhos, sobretudo na zona do Cachão. A recordar tempos antigos. Como sempre, gostei muito …
JV


















O Cachão matou muita gente, e quase dava cabo da D. Antónia Adelaide Ferreira.
Essa viagem é fantástica, lindíssima. E concordo com as cigarras, com o calor esbraseante, com os grifos e garças cinzentas, com tudo!
Esqueci-me de falar dos pássaros! E desta vez vi tantos, a planar e a voar em círculos sobre a água …Mas, António, eu juraria que eram águias …
Caro António Eça,
Diz-se, pelo menos cá por baixo, que D. Antónia se terá salvo graças ao rodado do vestido e às “sete saias” de então, que funcionaram como flutuador…
Mas são os chamados abutres do Egipto, ou grifos. Há lá para cima uma grande colónia.
Não há melhor maneira de desfrutar da paisagem do que uma viagem de comboio. Mas para ficar memorável mesmo, só com um suave cheiro ao creosote das travessas da linha e um pouco de fumaça da locomotiva… Aí, é todo um outro mundo que nos avassala…
A linha da Beira-Baixa, saltitando entre as duas margens do Tejo, sendo inebriante em fins de tarde, não possui todavia todo o dramatismo telúrico da linha do Douro e das de alguns dos seus afluentes. Mas a imagem do silvante comboio, rasgando à desfilada a imensidão da planície alentejana, alfombrada de matizes vários — desde os verdes das searas, olivais, azinheiras e sobreiros, amarelos dos girassóis e dos trigais maduros, castanhos e ocres das terras, brancos imaculados das aldeias, com aquele azul celeste sempre em fundo — é também todo um ilimitado e marcante deslumbramento…
Enfim, já deu para perceber… sou mesmo um fã do comboio.
Falando em comboios, tem um que ainda quero experimentar:
http://www.serraverdeexpress.com.br/fotos.php
As fotos são do comboio que desce a Serra da Graciosa, no Paraná. Já fiz a descida de carro e fiquei maravilhada com o cenário.Mas não tem todo aquele romantismo dos trens antigos…
Já vi um documentário sobre ele. Há lá passagens de cortar a respiração e outras de uma beleza celestial…