Postais do Távora VII (e último) — Outra vez na linha

A todo o saudoso cemitério

Reabriu, a 1 de Abril, o troço da linha do Douro entre Tua e Pocinho. Estava fechado há meses, desde o dia de Natal. Por causa de uma derrocada de pedras. Tudo demasiado igual ao sucedido na incomparável e insubstituível linha do Tua. O desfecho, por ora, diferente e feliz.

Porque, do numeroso grupo de Vasconcelos, originários e supervenientes, havia quem nunca tivesse feito o percurso. Porque os que o conheciam já tinham saudades, lá fomos. Ida e volta.   

Entre o Pinhão e o Pocinho, a linha do Douro segue paralela e sempre junto ao rio. Como nenhuma estrada o faz. Vê-se tudo e é tudo belíssimo – as curvas, as encostas em socalcos, as vinhas novas plantadas na vertical, as casas brancas das quintas, os maciços, de granito e giesta, por desbravar, os vales a perder de vista. E há ainda uma estação chamada Alegria, onde me apetece sempre desembarcar, uma antiga gafaria, na curva do Meão, as brutas escarpas do Cachão da Valeira e a placa que assinala o fim das obras que tornaram o Douro navegável.  

Das várias vezes que tinha feito esta volta, era Verão. Quase sempre ao fim da tarde, à hora a que o sol desaparece atrás dos montes. Desta vez, de cabeça sempre fora da janela, estranhei a falta do cheiro — inconfundível, a esteva, a urze e a calor — e da barulheira das cigarras. Mas vi, pela primeira vez, o rio cheio, muito cheio, de água e de espantosos remoinhos, sobretudo na zona do Cachão. A recordar tempos antigos. Como sempre, gostei muito …  

 JV

Comentários a “Postais do Távora VII (e último) — Outra vez na linha” (7)

  1. António Eça diz:

    O Cachão matou muita gente, e quase dava cabo da D. Antónia Adelaide Ferreira.
    Essa viagem é fantástica, lindíssima. E concordo com as cigarras, com o calor esbraseante, com os grifos e garças cinzentas, com tudo!

    • Joana Vasconcelos diz:

      Esqueci-me de falar dos pássaros! E desta vez vi tantos, a planar e a voar em círculos sobre a água …Mas, António, eu juraria que eram águias …

    • Orcama diz:

      Caro António Eça,
      Diz-se, pelo menos cá por baixo, que D. Antónia se terá salvo graças ao rodado do vestido e às “sete saias” de então, que funcionaram como flutuador…

  2. António Eça diz:

    Mas são os chamados abutres do Egipto, ou grifos. Há lá para cima uma grande colónia.

  3. Orcama diz:

    Não há melhor maneira de desfrutar da paisagem do que uma viagem de comboio. Mas para ficar memorável mesmo, só com um suave cheiro ao creosote das travessas da linha e um pouco de fumaça da locomotiva… Aí, é todo um outro mundo que nos avassala…
    A linha da Beira-Baixa, saltitando entre as duas margens do Tejo, sendo inebriante em fins de tarde, não possui todavia todo o dramatismo telúrico da linha do Douro e das de alguns dos seus afluentes. Mas a imagem do silvante comboio, rasgando à desfilada a imensidão da planície alentejana, alfombrada de matizes vários — desde os verdes das searas, olivais, azinheiras e sobreiros, amarelos dos girassóis e dos trigais maduros, castanhos e ocres das terras, brancos imaculados das aldeias, com aquele azul celeste sempre em fundo — é também todo um ilimitado e marcante deslumbramento…
    Enfim, já deu para perceber… sou mesmo um fã do comboio.

Comentar