Picasso
Queridos Mortos

Picasso é um homem morto. Devia dizer bem dele. Não posso. Desgosto tudo de Picasso. Excepto a pintura, o desenho, a escultura, a cerâmica.. E nem sequer é porque lhe encontre ó tanta originalidade. Não. É porque lhe encontro a paixão de quem quer fazer, querendo tanto que por tanto, faz. A fúria da água à procura da queda no mar. Como no Ramos Rosa, se substituirmos o querer fazer, pelo fazer ainda que não queira, a tristeza de um pela gana de outro, a implosão pela explosão. No fundo, a mesmíssima coisa, avesso e direito. Mais bem: não a mesma coisa, a completa coisa. Mas Ramos Rosa disse sempre o que a vaidade não permitiu de voz a Picasso: sou um grande plagiador. Obviamente, não é. Apenas come e bebe o corpo e o sangue que se abrem pelos olhos da poesia que o devora, escrita por outros que, antes e com ele, foram, são poetas, e a própria carne dele se transubstancia luminosa na página definitivamente clara que nos devolve.
Aquilo lá em cima não é completamente verdade. Há uma ínfima coisinha que me agrada em Picasso: quando se chateava com as mulheres, ou as amantes, matava-as na pintura. Ou estraçalhava-as. Uma vez ouvi a Paula Rego, falava das colagens dela, creio, e da vontade, do gosto, da crueldade satisfeita com que cortava, cortadinho miúdo, os terríveis ciúmes que sentia do marido, mesmo na altura em que ainda marido de outra mulher. Eu, pessoalmente, gosto. E dos pianos e bigornas que caem de janelas nos desenhos animados, atingem em cheio as cabeças que ficam a ver passarinhos. É bom matar assim de morre!, morre malvado, bang! Ainda bem que não morreste, amote. Nisto, antes deste modo do que como Ramos Rosa: ele morre-se muito, não mata. Há-de ser por isso de sobreviver a tanta escuridão que sabe a luz de cor, com os olhos e os poros, pelo cheiro, e no-la entrega inteira.
Bom, mas eu quero é falar de Picasso como grande plagiador que obviamente não é. Outra mínima coisa que não me cai mal neste rapaz é a treta do modernismo e do expressionismo para os quais ele se estava modernamente lixando para expressar. Mas estou em crer que isso era o Goya que havia nele. Mal comparado: somos bichos habitados por aqueles a quem tanto amamos e que não têm culpa nenhuma de os convocarmos para que nos assombrem.
Quero falar daquele Picasso e não há meio.. Céus! Vou passar por cima dos lugares do costume: ai que génio, ai que precoce, ai que passou tão mal na fase azul de fome em Paris, ai que se apaixonou em cor de rosa e Braque e cubos, e mulheres nuas, nuas, nuas. Pronto. Já está. Só quero dizer que nada do cubismo em Picasso é geometria, como nada da nudez em Picasso é sublimação, como nada da pintura de Picasso é  analítica reflexão sobre o que quer que seja: é tudo a intensidade do desejo, a força do sexo, o rosto da vida jogado contra a morte. E isso ele foi buscar à Shunga. É nela que a exaltação do movimento no acto sexual, substitui a exactidão do movimento e permite ao corpo a plasticidade que ele não tem. É nela que se destaca aquilo que se quer que os olhos mais vejam, para que mais sinta quem vê, mesmo que colocando onde eles não podem ser, os elementos genitais sobredimensionados. Sentir é o verbo da Pintura de Picasso. Se é verdade que na Shunga se expunha o sexo porque dele se dizia ser o rosto oculto, é verdade também que Picasso desarruma a anatomia inteira de um tu ou de um nós para a explorar toda. Desocultar.

Eugénia de Vasconcellos


Comentários a “Picasso” (4)

  1. António Eça diz:

    Céus, Eugénia! Que texto bom!
    Estava a ler e por vezes a minha atenção fugia para um prefácio que estou a ler do Italo Calvino, a propósito do primeiro romance que escreveu — uma coisa chamada ‘O atalho para os ninhos de aranhas’, sobre ‘partigianes’ e afins, que ainda não consegui ler porque o texto quer que eu o leia com todo o vagar. E eu sigo as instruções.
    Ele também ensaia uma série de retornos para no fim, suponho, dizer tudo de enfiada.
    Gostei muito, penso muito disso no Picasso. A colagem (apropriação?…) da arte africana é, apesar de apenas esboçada, fisiologicamente expressionista. Não é uma fase que aprecie muito, aquelas meninas d’Avignon não me encantam um bocadinho.
    O que eu gosto mesmo é dos desenhos, dos touros e dos minotauros e dos amores da estiagem.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      É circular o danado do homem, terminou onde começou. Também gosto muito dos touros. E do abraço. Dos casais. Dos minotauros. Da cerâmica.

      A despropósito: merci.

  2. José Navarro de Andrade diz:

    Que belo texto para concordar e discordar ao mesmo tempo. Percebi o que me faltava em Picasso quando vi no MOMA uma exposição comparativa entre ele e Matisse. Resultado: Matisse sempre esteve uns anitos à frente do espanhol. Não acho que ele achasse os modernismos uma treta e nisso concordo com ele. Mas não aprecio artistas canalhas cuja infâmia é desculpada ou tolerada ou apreciada por serem artistas. Picaso magoou sem necessidade bastantes pessoas. E essa queda para a crueldade é o que não “está bem” na sua pintura.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      O exercício consciente da crueldade só a brincar de ser cruel. A falta de empatia é perigosa demais para a tolerância.

      Eu não gosto de Picasso. Só das criações dele.

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