Arquivo | Abril de 2010


O dragão da cabaia*, by António Eça de Queiroz

Na tentativa de descoberta de armas de destruição maciça, o nosso Cemitério tem vindo a ser invadido. Primeiro pela Turmalina, agora pelo Eça.  O ETGM não se importa e até permite a entrada de dragões, vá lá, azulados. Damos as boas vinda ao homem que gosta muito de dragões.

 

Eu gosto muito de dragões.
Gosto da Coca de Monção, gosto do dragão do FCP – que é o mesmo que encima as armas da cidade. Mas, acima de tudo, gosto do meu dragão.
Obtive-o a partir de uma foto em que Eça está vestido com a cabaia que o seu amigo Bernardo Pindela lhe trouxe de Macau – e que eu suponho representar uma elegante homenagem ao escritor e à sua participação especial num grande acto humano.
N’O mandarim Eça nunca explica objectivamente porque nunca se deve fazer soar a campainha que determinará o fim do rico mandarim, que vive distante e incógnito lá «no fundo da China» segundo as frases mágicas que Teodoro lê, entre o sono e o sonho, nas páginas do velho in-fólio Brecha das Almas.
De facto, só no estranho prólogo teatral desta fábula alegórica se vislumbra algo: o 1º amigo quer «repousar do áspero estudo da Realidade humana». O 2º amigo aceita o alvitre com uma reserva: «Mas sobriamente, camarada, parcamente!… E como nas sábias e amáveis alegorias da Renascença, misturando-lhe sempre uma Moralidade discreta…»
A explicação da advertência de Eça para que «nunca mates o mandarim» – e que encerra a tal «Moralidade discreta» exigida pelo 2º amigo – é o que penso ter descoberto há uns anos.
Colocado em Havana em 1872, Eça logo denuncia o tratamento infra-humano imposto aos milhares de chineses que, chegados de Macau, engrossam as hordas de trabalhadores de que toda a economia cubana tanto carece. Com tal atitude Eça conquistou de uma assentada grossa falange de inimigos entusiastas e uma data de problemas.
Revolta-se com especial ênfase contra a legislação dirigida ao trabalhador ‘coolie’ – termo depreciativo para o emigrante chinês –, que representa, afinal, uma armadilha sem saída: o seu contrato de trabalho – que lhe assegura mal os limites da sobrevivência – é por oito anos; findo este tempo, o ‘coolie’ pode apenas voltar à China (com que dinheiro?), renovar o contrato, ou então recolher aos chamados «depósitos» – autênticos ghettos repletos de miseráveis permanentemente explorados por quem lhes fornece alimentação a preços da usura. Quando alguém precisa de mão-de-obra, vai lá e requisita oficialmente… escravos!
Considera o cônsul não haver «ninguém mais infeliz do que o ‘coolie’ (…) a não ser o Fellah no Egipto e na Núbia»
No seu livro «Eça de Queiroz e o século XIX», o escritor brasileiro Viana Moog descreve a situação em que o diplomata português se encontra, no auge deste seu combate humanitário sob bandeira oficial: «Em face desta situação, o cônsul Eça de Queiroz tem que optar por uma destas alternativas: ou adere à Comissão Central» – que, actuando à margem de qualquer lei, boicotava todos os pedidos de nacionalidade portuguesa solicitados pelos ‘coolie’ junto da representação diplomática – «ou luta contra ela. No primeiro caso tornar-se-á rico, receberá toda a classe de considerações, sobretudo se soube de começo simular hostilidade capaz de alarmar os negociantes. No segundo caso, terá de percorrer um caminho cheio de lutas, de ameaças e dissabores».
Ou seja: Eça sabe perfeitamente que lhe bastaria entrar em tal «jogo» para ficar rico de vez! – e que está mesmo na posição ideal para o fazer, pois quem ajudara a criar a máquina esclavagista tinha sido o seu antecessor, o cônsul português Fernando de Gaver.
Não fugirá, no entanto, à sua atitude idealista inicial, como refere Moog: «Não tem dúvidas ou vacilações. Fica ao lado dos chineses», lutando «contra tudo e contra todos, em defesa da massa anónima dos oprimidos que nada lhe podem dar em troca».
E é nesta intensa e desigual luta de já dois anos – em que passou centenas de certidões portuguesas para que muitos destes chineses emigrassem depois para o Chile e Peru, que surge em cena o marquês de Chin-Lan-Pin. Tratava-se de um elemento do conselho imperial da China em função diplomática. Uma comissão por si chefiada passeia-se por Cuba aparentando inteirar-se das condições dos seus compatriotas emigrados. Chin-Lan-Pin promete tudo a todos, mas nada mudará entretanto.
E com isso retira todo e qualquer protagonismo a Eça que, realmente, era o único ser ali preocupado com o destino de todos aqueles paupérrimos reféns.
Aqui é natural que alguém se pergunte o que afinal tem tudo isto a ver com o livro O mandarim – publicado seis anos mais tarde no Diário de Portugal sob a forma de folhetim.
Omiti propositadamente a categoria social a que pertencia o plenipotenciário chinês que se cruzara anos antes com Eça em Cuba. Porque o marquês de Chin-Lan-Pin era simplesmente um mandarim de 1ª classe…
Agora, já com o título do livro, vamos à procura da tal campainha em que nunca se deve tocar…
E aí está ela, bem visível na vil riqueza que Eça teria arrecadado facilmente se tivesse fechado os olhos àquela infâmia. Bastava, enfim, ter feito soar a campainha – um gesto mental que certamente consideraria habitual no ser poderoso e falso que se escondia sob a cabaia chinesa do oriental marquês.
O tal mandarim a quem mais tarde Eça acaba idealmente os dias no conto fantástico que escreveu com esse título, utilizando para tanto o medíocre, inconsistente e portuguesíssimo Teodoro. 

António Eça de Queiroz
*Síntese do texto A campainha do Mandarim, publicado em Eça de Queiroz e os seus clones (G&P)

Temos companhia

A dívida americana é tão elegantemente comprida como uma linda mulher de Modigliani. Espreitem:
$8,370,635,856,604.98
Para pagar esta dívida esguia o governo americano contrai novas e mais dívidas. Há espíritos alarmados, reclamando aumento de impostos ou, sobretudo, cortes nas despesas. Sem uma coisa ou outra, ou sem as duas juntas, o quadro configura, garantem, o fraudulento esquema de Ponzi. Não é grande consolação, mas afinal Portugal não está sozinho, diz-nos este artigo da Washington Post.

culto

Gostava que os especialistas jurídicos do É Tudo Gente Morta estudassem o assunto. Recentemente, no Brasil os jornalistas da meritória Folha de São Paulo, experimentaram abrir um novo culto religioso. Verificaram, em primeiro lugar, que o processo era mesmo simplex e baratíssimo. Em segundo lugar, descobriram que as autoridades não estabeleciam requisitos teológicos ou doutrinários. Nenhuns, nem sequer um mínimo de fiéis: apenas inscrição, pagamento de pouco mais de 100€, cinco dias úteis e ala, pregação. A partir daí, só vantagens: contas bancárias isentas de impostos sobre aplicações financeiras, templos do culto imunes a imposto sobre património. E se os sacerdotes do culto (que o culto investe com toda a arbitrariedade) forem condenados (mas porquê, ó ingratos, depois de livres de todos os impostos), têm direito a prisão especial.
Gostaria, repito, que os nossos especialistas estudem as possibilidades do É Tudo Gente Morta (ETGM). Já temos um nome propício e bom? Pensava eu, antes de ver os que a imaginação delirante destas almas arrebatadas inventou:
– Igreja Evangélica de Abominação à Vida Torta
– Igreja Evangélica Pentecostal Labareda de Fogo
– Igreja Evangélica Pentecostal a Última Embarcação Para Cristo
– Igreja Menina dos Olhos de Deus
– Associação Evangélica Fiel Até Debaixo d’ Água
– Cruzada Evangélica do Pastor Waldevino Coelho, a Sumidade
– Igreja E.T.Q.B (Eu Também Quero a Bênção)
– Igreja Evangélica Florzinha de Jesus, Irmã do Carlinhos
– Igreja Pentecostal Jesus Vem, Você Fica
– Igreja Evangélica Pentecostal Cuspe de Cristo
– Assembléia de Deus Batista A Cobrinha de Moisés
– Igreja Pentecostal Marilyn Monroe.
Ainda esbocei uma gracinha à frente de cada nome, mas a tanta genuidade não tenho mais do que render-me. Com as inerentes vantagens fiscais.

Not Wright

Rotunda
Guggenheim Museum, NY

Não tenho andado por aqui, por várias e diversas razões, a maioria delas pouco interessantes. Estar ausente deste espaço, por pouco que tempo que seja, significa saltar por cima de uma formidável produção. Está mal, mas teve de ser; agora apresento-me ao serviço — espero — e, entretanto, aqui ficam algumas perspectivas de edifícios de Frank Lloyd Wright que pude ver nas últimas e não tão últimas deambulações pelos Estados Unidos.

Fallingwater
Pennsylvania

Estou longe de ser um adepto inquestionável das obras de Wright e acho que detestaria se toda a arquitectura fosse a dele, já que em mim fica sempre a sensação de que o estilo pradaria implica uma certa bunkerização dos edifícios. Ainda assim, há que admirar a obra, porque é formidável.

Unity Temple
Oak Park, Illinois

Dragos-magos

Porque o Dragão Gedeão verde da Teresa é o mais bonito que por aqui alguma vez passou, resolvi trazer um outro para lhe fazer companhia.

Dragão de ferro e tinta verde

“Poema do Poste com Flores Amarelas” — António Gedeão

Teresa Conceição 2010

Mostrengo

“História de Dona Redonda e da sua Gente” — Virgínia de Castro e Almeida

Dom Thomaz de Melo “TOM” 1941

O vermelho, o preto e o amarelo

A sala é cilíndrica, negra e sombria. E está cheia de fado. Amália, claro. A luz, pouca, incide directamente nas três enormes peças que pendem do tecto e que ocupam quase todo o espaço disponível, obrigando a contorná-las com cuidado. É nelas que se fixa irresistivelmente o olhar do visitante. Que se queda, entre o incrédulo e o fascinado, a contemplá-las, no seu translúcido, plástico e extraordinário esplendor.

Refiro-me evidentemente às três peças que formam a trilogia Coração Independente, de Joana Vasconcelos – três imensos “corações de Viana”, construídos num inconcebível, trabalhoso e belíssimo filigrana de talheres de plástico, vermelhos, amarelos e pretos. E reunidos, temporariamente, nesta sala, para absoluto deleite de quem lá entra.  

A oportunidade de ver de perto, de muito, muito perto, os três corações, habitualmente dispersos, constitui um fortíssimo (se bem que de modo algum o único), motivo para visitar Sem Rede, a primeira exposição retrospectiva da artista, no Museu Colecção Berardo (CCB).   

A exposição percorre várias fases da sua já significativa carreira. No que se refere aos materiais, está lá tudo aquilo que se espera (e porventura mais): para além dos tão idiossincraticamente nossos crochets, Nossas Senhoras de Fátima fosforescentes, azulejos e ténis de feira (estes últimos reunidos no delicioso LusoNike), há gravatas, “meias de vidro”, secadores, espelhos, faróis de carro e cabelo artificial. Nas peças, cabe destacar as já clássicas Noiva, Cama Valium e Cadeira Aspirina, Flores do Meu Desejo e Cinderela. Entre muitas outras. O denominador comum é o humor — irreverente, crítico, às vezes corrosivo. Também Joana Vasconcelos ridendo castigat mores. Por isso, todas as suas obras nos interpelam e dão que pensar, para lá da surpresa e do cómico iniciais. E nem todas dão vontade de rir, como a impressionante Burka.

Percorrer a exposição foi, para mim, um acto de humildade que redundou num profundo gozo. Sendo o meu um nome comum na minha família (entre bisavó, tia-avó, tias e primas em todos os graus, seremos para cima de uma dúzia), a verdade é que nem sempre convivi facilmente com esta homonímia — que me varreu do Google e me reduziu à triste condição de “não, não ser a artista…” (mais nova do que eu, para o cúmulo). Tempos houve, confesso, em que me esforcei por cultivar um apropriado ódio de estimação pela criadora e sua criação. Em vão. Porque, se nem todas as peças e instalações me agradavam por igual, das que gostava, gostava muito. O Coração Independente Vermelho devia, aliás, ser meu. Depois, havia o irresistível absurdo das situações que tal homonímia potenciava — a última das quais envolveu a ampla cobertura noticiosa da licitação, em hasta pública e por uma quantia astronómica, do coração (até então independente) de Joana Vasconcelos, arrematado em Londres por uma mulher desconhecida e, claro, uma profusão de e-mails e sms absolutamente delirantes das minhas jocosas amigas… Para me redimir de tanta má vontade, fui ver a exposição na primeira ocasião. De coração limpo e disposta a não embirrar nem implicar muito. Gostei. Mesmo. Mas o mérito não é meu. É todo da criativa e talentosa Joana Vasconcelos.    

O outro elevador de Ponsard

Elevador de São Julião (ou da Biblioteca) — (1987−1915)

Estava ali em Lisboa, no Largo de São Francisco, mas chamava-se Elevador de São Julião. Levantava do chão 25 pessoas de cada vez através de um contrapeso de água. Levantou as últimas em 1915. Nem mesmo o José Navarro de Andrade teve oportunidade de o usar.

tarde, tarde demais, by Turmalina

A Turmalina sentiu-se inspirada pelo primeiro desafio da Eugénia. Tarde demais, porque o desafio mudou. Mas fica aqui, com vénia da Gente Morta, a short story que ela enviou.

 

Eram pequenos olhinhos brilhantes, quase minúsculos, que a observavam. Ela cavava, cavava e cavava num gesto tresloucado e sem fim. O silêncio da floresta refletia o silêncio da sua alma. E havia  um vazio , um abismo entre seu corpo e sua  existência. Aonde havia de ter se perdido? Entre um sorriso e um abraço que tanta falta lhe fazia?
A noite se aproxima e não há caminho de volta. Perdera suas crenças e seu amor próprio. Vendera a alma ao diabo. Não lhe restaram nem mais lágrimas que pudesse verter agora. A culpa envenenava-a, gota a gota. Ela podia ter dito não.
Seu desespero era tanto que não percebia que pequenos olhinhos a observavam. Ela sabia que não haveria mais tempo, na manhã seguinte estaria tudo terminado. Sempre perdera e não seria agora que haveria de ganhar. É tarde, muito tarde, tarde demais.
Exausta, sentou-se aninhada entre as raízes da frondosa árvore, abraçou os joelhos, abaixou a cabeça, contraiu-se e mais uma vez tentou chorar.Seus delicados braços em torno dos joelhos tremiam de dor e frio. Suas mãos , encardidas de tanto cavar, adormeceram de cansaço.Aos poucos começou a escutar os sons da floresta.
Pareciam grilos, pareciam galhos, pareciam passos, não, pareciam pássaros. Mas era tudo tão confuso. Tudo doía-lhe, o corpo, a alma e até o estômago. Há quanto tempo estava alí? Não conseguia nem lembrar-se  de como é que chegou lá. Só sabia que era tarde, tarde demais.
Aos poucos foi acalmando-se e logo o sono veio. E aqueles pequenos olhinhos continuavam ali, velando seu sono. Apesar de já adulta parecia ainda uma menina. Aquela mesma menina que quando criança passeava por este mesmo bosque, rindo enquanto seu pai contava-lhe estórias engraçadas. E que na primavera colhia pequenas flores nascidas aos pés das árvores para enfeitar os longos cabelos da sua mãe.
Era madrugada e ela dormia, coberta pelo frio, fome e solidão.E principalmente pela terrível culpa. Aquela mulher que já não tinha pai, nem mãe, nem filhos, nem nada, dormia o sono que não era bem o dos justos. O dia parecia querer amanhecer. E aqueles pequenos olhinhos brilhantes agora choravam ao escutar as moto serras invadindo a floresta. Era mesmo tarde, tarde demais.   

António Gedeão

           Foi por causa de um poema. Um sozinho. Quando o recito em voz alta, muito convicta, como quem conta uma história, extraio alguns sorrisos e perplexidades ( — que terá visto ela nisto?). Acho que nunca encontrei ninguém que o tivesse lido ou escutado, ou se lembrasse dele. Eu sei que é um poema curtinho e menor, comparado com os outros dele que tantas vezes se ouviram e foram cantados. Tantas vezes que se tornaram banais.

             Não foi por causa da edição da Poesia Completa, com desenhos de Júlio Pomar (que continua firme cá em casa no lugar de uma partitura de música). Gosto tanto desta edição, os desenhos que não foram feitos para estes poemas somam-lhes tanto. Conheci-o em edição prosaica e, na altura pré-adolescente em que descobri a escrita de António Gedeão, aquelas pontes poéticas entre ciência e vida comum abanaram-me. O segredo científico da lágrima era o cloreto de sódio, e assim se inutilizava o racismo; no íntimo do sonho estava a cisão do átomo, o radar, a geradora, o foguetão que desembarca na superfície lunar, liguei o poema ao Tintin, e ir dormir era a certeza de grandes aventuras sonhadas.

             Nunca soube nem fazia ideia, na altura em que li, de quem eram os Eles que não sabem nem sonham que o sonho comanda a vida da “Pedra Filosofal” de 1956. Nunca imaginei o poema como bandeira de luta para a geração reprimida, um tão aparentemente doce a dar força aos que se atormentavam com uma ditadura e guerra colonial intermináveis.  E durante a adolescência acabei por embirrar com as canções feitas para os poemas, com as rimas, com isto ou aquilo.

               Também demorei a saber que era Rómulo de Carvalho, cientista, professor, quem escrevia com outra assinatura. Chamou ao Homem um animal aflito e publicou o primeiro livro apenas aos 50 anos. E reencontrei-o nesta edição do ano da morte de António Gedeão, 1997, e reconciliei-me. Voltei a comover-me com os poemas que me tinham tocado aos 10 anos. E revi aquele, velho amigo, que tanto me surpreendeu naquele tempo.

António Gedeão, 1967

              É por causa deste texto que aqui convoco o poeta. O poema do poste revelou-me o que mais nenhum conseguiu: a descoberta científica dos locais secretos onde se escondem os dragões. E a cor verdadeira dos terríveis bichos: entre o ferro e a tinta verde, era uma cor muito difícil de fazer, porque fugia, rutilante-cintilante. Lembro-me de tentar desenhos elaborados das escamas e da cauda pontiaguda e sem fim. E de ter passado a olhar com um respeito muito alto para os postes.

              Não me safei: mais de uma vez distraí-me em busca de flores que não estavam lá e esbarrei no poste. E os embates comprovaram-me sempre a verdade do poema: o dragão escondido lançava-me fogo intenso na testa, antes de desaparecer, rutilante-cintilante.


                         Teresa  Conceição                                                                              

O poste e o dragão

           É um delicado, científico e poético lança-chamas que está quase a nascer-morrer aqui mesmo ao lado. De ferro e tinta verde. Podia chamá-lo Podrageão ou Drageoste. Podia, mas não servia de nada. Quem será?

…ed ancora Valentina

Aqui com banda sonora de Piero Umiliani para o filme Baba Yaga de Corrado Farina baseado no álbum original de Crepax. Um exemplo único daquilo a que se pode chamar hoje um Italian Exploitation Style Flick, e que provavelmente terá aparecido por Lisboa por alturas da primavera de 75 (seguramente no Politeama ou no Olympia) como um transgressivo exemplo do melhor Softcore Europeu.

Baba Yaga, Corrado Farina 1973


E como já sei que a culpa vai ser atribuída toda todinha ao Pedro Norton, aqui fica mais uma nota de transgressão Dominical “anni settanta”.

Pop Porno — Il Genio, 2008

Outro 25 de Abril

Olha que bom que ainda é 25 de Abril. Neste dia em que, mesmo aqui no Cemitério, já houve desilusão, ilusão, euforia, tristeza e optimismo, venho, dizer-vos que acaba de sair este livro tão angustiadamente sarcástico e de mal-dizer de Jorge de Sena, publicado, e desfraldo a declaração de interesses, pela Guerra e Paz.

Já o tinha publicado em 1999, na minha primeira editora, chamada Três Sinais. É um inédito que Mécia de Sena decidiu publicar, aceitando fazê-lo numa edição de luxo, de capa dura e em pano, com dimensões raríssimas para um livro de poemas, e ainda por cima um livro reunindo textos tão violentos e desabridos. Agora, em formato paperback, e de acordo com Mécia de Sena, mantivemos todos os poemas, que são, no essencial, um retrato do Portugal mesquinho que a ditadura forjou (forjou-o o poder instalado e autoritário, mas também a ortodoxa oposição à ditadura, e Jorge de Sena sentiu o ferrete das duas), mas juntámos-lhe o discurso que Sena pronunciou na Guarda, a 10 de Junho de 1977, e no qual, cantando Camões, Sena desmentiu a ideia sobre ele feita que muitos propalaram. Cito um passo que testemunha  a crença e os ideais de quem muito amava a pátria e à pátria se dedicava:
Ninguém como ele [Camões]  desejou representar em si mesmo a humanidade, representando tão exactamente o próprio Portugal como ele, no que Portugal possui de mais fulgurante, de mais nobre, de mais humano, de mais de tudo e todos, em todos os tempos e lugares…
Ninguém como Camões nos representa a todos, repito, e em particular aos emigrantes, um dos quais ele foi por muitos anos, ou aos exilados, outro dos quais ele foi a vida inteira, mesmo na própria pátria, sonhando sempre com um mundo melhor, menos para si mesmo do que para todos os outros.
”.
Do que, para si mesmo, mas sobretudo para todos os outros se deseja, e o que se deseja é livrar-nos ou livrarmo-nos de um lixo de 8 séculos, fala-nos, cru e sem lirismos delicodoces, este

A Canalha

Como esta gente odeia, como espuma
por entre os dentes podres a sua baba
de tudo sujo nem sequer prazer!
Como se querem reles e mesquinhos,
piolhosos, fétidos e promíscuos
na sarna vergonhosa e pustulenta!
Como se rabialçam de importantes,
fingindo-se de vítimas, vestais,
piedosas prostitutas delicadas!
Como se querem torpes e venais
palhaços pagos da miséria rasca
de seus cafés, popós e brilhantinas!
Há que esmagar a DDT, penicilina
e pau pelos costados tal canalha
de coxos, vesgos, e ladrões e pulhas,
tratá-los como lixo de oito séculos
de um povo que merece melhor gente
para salvá-lo de si mesmo e de outrem.
7 de Dezembro de 1971