os pequeníssimos livros

Tenho feito, e continuarei a fazer, o louvor de belos e desmesurados livros que precisam de sólida mesa para serem lidos e de um guindaste para lhes virar cada página. O tamanho é a primeira qualidade deles, a que mais realça as outras. Mas tenho também uma (ou outra) certa e fiel paixão pelos pequeníssimos livros.
Já viram “O Culto do Chá”, de Venceslau de Morais? As 60 páginas da edição japonesa (que custou uns duzentos mil réis) vieram a público em 1905, com ilustrações de Iochiaqui, gravadas por Gotô Seikodô. É um livrinho lindíssimo, cujo aflitivo bom gosto a editora frenesi (assim, com minúsculas, por favor) reproduziu com a fidelidade que o original exigia. À época vieram para Portugal mil exemplares e o livro, ironizava Morais, era tão bom que nenhum livreiro o queria. Em recente leilão vendeu-se um exemplar dessa 1ª edição por 850 euros.
75 são as páginas em que ardentemente respira Herberto Helder na “Vocação Animal”, editado pelas “publicações dom quixote” (assim também, em minúsculas na capa), em Maio de 1971, e que era dedicado “a uma devagarosa mulher de onde surgem os dedos, dez e queimados por uma forte delicadeza.” Não se encontra, creio, essa dedicatória, na Poesia Toda que reúne a Obra do poeta, como não se encontram os versos originais que não reproduzirei, mas que na versão actual chegaram a esta menos escatológica versão: “Aprendi como é devagar – comer devagar, sorrir, dormir devagar, pensar e morrer – aprendi devagar.
43 são todas as páginas de que a Assírio & Alvim precisou para publicar um dos mais famosos e perturbantes monólogos do século XX, “A Voz Humana”, que Jean Cocteau escreveu sem precisar de outra coisa que não fosse um telefone e a angústia de uma mulher que se despede do amante. A tradução que tenho é de Carlos de Oliveira e o finíssimo livro faz parte da colecção Gato Maltês.
Gosto muito da capa dura do “Giotto”, pequenina edição da World’s Masters Series, coordenada por Anthony Bertram, com a chancela da The Studio Publications, London, New York. Giotto é apresentado em 15 páginas e nas outras 49 há estampas a preto e branco com os seus quadros ou pormenores deles. “The small mind is always hungry to admire the small and to exagerate its importance. Small things have their place in great events, but it is a small place. Giotto is always busy with great events and never allows his genuine interest in these small things to distract his attention from them. If they distract ours, that is because of our pettiness, our inability to keep proportion.” Só mesmo em 1951, data da edição desta minha miniatura, se tratavam os leitores com tamanha desconsideração e se lhes dava, para seu benefício, tal raspanete.

Impresso na tipografia Herder & Co, em Frisburg, corria o ano de 1939 (e suponho que antes de começar a Guerra), gosto muito de ter “Los Novios”, a versão espanhola do sexto de uma série de tomitos de arte publicados pelor Dr. Heinrich Lützler e que para castelhano foram vertidos pelo Dr. Francisco Carillo Guerrero. Em 6 páginas, o Senhor Professor Lützer perora sobre a representação dos noivos na pintura, ao que se segue, a cores e a preto e branco, a reprodução de 25 quadros, incluindo “Novios Portugueses”, fragmento de um quadro de Rembrandt que acima reproduzi.
Muito mais recente, de 1985, é o livrinho de 10 por 14 cm, editado pela apaginatantas. Pequenino é verdade, mas contendo o que João Barrento no prólogo chama “Priapreia Gotheana” e que, na capa, tem o menos vigoroso título “Erótica & Curiosa”. Li e, assim acabando, ofereço para mote estes versos:
Se a moça te esquece, volúvel, ligeira.
Anda, vê se agarras o tempo passado,
Que o seio da segunda, quando for beijado,
Mais doce é ainda do que o seio da primeira.
 

Comentários a “os pequeníssimos livros” (23)

  1. Orcama diz:

    Em matéria de chás, sou decididamente um aventureiro. Há algum tempo descobri num supermercado perto de mim (tipo bon marché) um magnífico e inebriante “Rooibos Orange” ao qual mantenho, em casa, absoluta fidelidade. Deixo aqui um link sobre o mesmo.
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Rooibos
    Porventura desinspirado pela xícara que dele agora degusto, surgiu-me, esta rimalhada:
    E sendo da primeira,
    o seio já olvidado
    que venha o da terceira
    pois o da segunda… é passado.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Orcama, começo a desconfiar, avaliando os resultados, que esteve a beber tea and oranges that came all the way from China, com a Suzanne do Leonard Cohen..

      • Manuel S. Fonseca diz:

        Ao lado dos cds do Leonard Cohen não tem, não terá, Eugénia, uns livros pequeninhos? Conte lá, em vez de andar aqui a atazanar Mr. Orcama.

        • Eugénia de Vasconcellos diz:

          Acho-lhe muita graça, Manuel Fonseca! Nem sequer se dignou responder ao desafio que lhe fiz, de ser você a contar a next história de embalar, e vem-me pedir que conte livros pequeninos. Nem grandes!

          • Manuel S. Fonseca diz:

            Quem é que lhe disse que não ando a pensar ha história de embalar?! Vai ver. Mete comandos, red ligh district e morte por asfixia a umas vigorosas e amorosas mãos. Vai ver que dorme sossegadinha por longos dias e silenciosas noites. Já conta, agora, os seus livros pequeninos? Guarde lá os grandes para mais tarde.

  2. António Eça diz:

    Orcama, seu grande canibal…

  3. Pedro Norton diz:

    É o Manuel! Cada vez que posta fica a casa descomposta.

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Ah, pois, Pedro, e quem é que veio feito pusher de chá do vulcão?!
    A despropósito, Pedro, já comprou o lencinho vermelho que o PMS lhe aconselhou?

  5. Luciana diz:

    Empenhada em farrear, tinha me prometido distância do virtual, mas parece que não posso confiar em mim mesma…Enfim, apesar de ter uma sólida mesa e mais consistente ainda paixão por livros imensos, fico comovida pela ode aos pequeninos.
    Uma pergunta de absoluta relevância: Caro Manuel, você já conhece o Museu da Língua Portuguesa, aqui em São Paulo? Descobri ontem que podia morar lá de tão enternecida que fiquei! Devias vir ver!
    Quanto ao suspeito PN, aviso que a lista de encomendas não para de crescer…

  6. Turmalina diz:

    Ah…agora descobri deonde o Mr. Orcama trouxe o tal chá? Não foi da Islândia, não.…
    Reparem na ilustração que acompanha o texto que diz: No bar, quando entra o visitante, oferece-lhe, após as reverências, uma almofada de regalo e uma chavena de chá.
    http://bibliotecajoanina.uc.pt/obras_raras/o_culto_do_cha/o_culto_do_cha_img

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