A sala é cilíndrica, negra e sombria. E está cheia de fado. Amália, claro. A luz, pouca, incide directamente nas três enormes peças que pendem do tecto e que ocupam quase todo o espaço disponível, obrigando a contorná-las com cuidado. É nelas que se fixa irresistivelmente o olhar do visitante. Que se queda, entre o incrédulo e o fascinado, a contemplá-las, no seu translúcido, plástico e extraordinário esplendor.
Refiro-me evidentemente às três peças que formam a trilogia Coração Independente, de Joana Vasconcelos – três imensos “corações de Viana”, construídos num inconcebível, trabalhoso e belíssimo filigrana de talheres de plástico, vermelhos, amarelos e pretos. E reunidos, temporariamente, nesta sala, para absoluto deleite de quem lá entra.
A oportunidade de ver de perto, de muito, muito perto, os três corações, habitualmente dispersos, constitui um fortíssimo (se bem que de modo algum o único), motivo para visitar Sem Rede, a primeira exposição retrospectiva da artista, no Museu Colecção Berardo (CCB).
A exposição percorre várias fases da sua já significativa carreira. No que se refere aos materiais, está lá tudo aquilo que se espera (e porventura mais): para além dos tão idiossincraticamente nossos crochets, Nossas Senhoras de Fátima fosforescentes, azulejos e ténis de feira (estes últimos reunidos no delicioso LusoNike), há gravatas, “meias de vidro”, secadores, espelhos, faróis de carro e cabelo artificial. Nas peças, cabe destacar as já clássicas Noiva, Cama Valium e Cadeira Aspirina, Flores do Meu Desejo e Cinderela. Entre muitas outras. O denominador comum é o humor — irreverente, crítico, às vezes corrosivo. Também Joana Vasconcelos ridendo castigat mores. Por isso, todas as suas obras nos interpelam e dão que pensar, para lá da surpresa e do cómico iniciais. E nem todas dão vontade de rir, como a impressionante Burka.
Percorrer a exposição foi, para mim, um acto de humildade que redundou num profundo gozo. Sendo o meu um nome comum na minha família (entre bisavó, tia-avó, tias e primas em todos os graus, seremos para cima de uma dúzia), a verdade é que nem sempre convivi facilmente com esta homonímia — que me varreu do Google e me reduziu à triste condição de “não, não ser a artista…” (mais nova do que eu, para o cúmulo). Tempos houve, confesso, em que me esforcei por cultivar um apropriado ódio de estimação pela criadora e sua criação. Em vão. Porque, se nem todas as peças e instalações me agradavam por igual, das que gostava, gostava muito. O Coração Independente Vermelho devia, aliás, ser meu. Depois, havia o irresistível absurdo das situações que tal homonímia potenciava — a última das quais envolveu a ampla cobertura noticiosa da licitação, em hasta pública e por uma quantia astronómica, do coração (até então independente) de Joana Vasconcelos, arrematado em Londres por uma mulher desconhecida e, claro, uma profusão de e-mails e sms absolutamente delirantes das minhas jocosas amigas… Para me redimir de tanta má vontade, fui ver a exposição na primeira ocasião. De coração limpo e disposta a não embirrar nem implicar muito. Gostei. Mesmo. Mas o mérito não é meu. É todo da criativa e talentosa Joana Vasconcelos.


















Que boa reconciliação, Joana…eu mesma fui uma das que perguntou sobre a arte e a criatura. Hoje prefiro a Joana daqui.Quanto à outra, gosto da combinação da arte e expressão com o artesanato.
Que querida, Turmalina, obrigada!
Finalmente foste ver a “outra” :)
Os corações são mesmo especiais e tocam-nos no fundo da alma nostálgica com que, lusos, vimos equipados. Mas o labirinto nocturno de flores foi também uma revelação. É também uma grande mulher esta “outra” Joana.
Hello Anita! Absolutamente de acordo. Devo dizer que me encanta a maneira como a “outra” combina o humorístico e o festivo com o sério, às vezes muito sério …
Eu ainda não fui ver.
Depois deste texto, Joana, fiquei mesmo com vontade.
Teresa, se puder, não perca. É uma exposição muito divertida e estimulante, cheia de cor e de vida. Está até 18 de Maio — e está previsto, a 15 de Maio, sábado, pelas 16h uma visita guiada pela própria JV …
Então mas não são a mesma?
Não Gonçalo, não somos. Lamento se o desiludi. :(
Raios! Ia fazer essa pergunta, Gonçalo! Tirou-me o pão da boca, e isso não se faz.
Agora a sério, Joana: já dei comigo a pensar como lidaria você com a visibilidade da ‘outra’…
Até admiti que fossem parentes.
Percebo perfeitamente o seu breve rancor ignoto.
E tem todo o meu apoio na redenção — ela tem realmente graça, e disso nem todos se podem gabar.
Já agora: posso lhe dar um dragão?…
É que andam pr’aí a exibir dragões e eu tenho um, não sei se conhece…, especial — chamemos-lhe.
Diga se quer.
Quero, claro!
António Benedito, então e o meu dragão? Estou p’ráqui à espera e nada! Não foi dá-lo à outra, que “tem realmente graça”, não???
Pensava que a Joana era você, Joana.
Mas olhe, Joana, agora ainda admiro mais o que escreve!
Olá Alberto, que simpático, muito obrigada!
Ó Alberto, tens sempre o teu mail cheio. Vais ao encontro do BART?
Joana: seguem dragões para você escolher o melhor.
Imediatamente!
António, tive uma ideia luminosa! Vá ver, imediatamente!
Penso que desta vez consigo ir. Nesse caso espero encontrar-te. Abraço
Bééhh.… Pode ser!
Vou ver se faço isso agora.
Ó Joana: a «outra», que «tem realmente graça»?!…
Afinal as pazes foram muito tácticas, não?
Não inveje — você também tem graça, real graça…
Gosto muito da sua homónima, não igualmente de tudo, mas da escala e da reutilização que fazem visíveis coisas invisíveis, sim. Ainda bem que a trouxe.