O dragão da cabaia*, by António Eça de Queiroz

Na tentativa de descoberta de armas de destruição maciça, o nosso Cemitério tem vindo a ser invadido. Primeiro pela Turmalina, agora pelo Eça.  O ETGM não se importa e até permite a entrada de dragões, vá lá, azulados. Damos as boas vinda ao homem que gosta muito de dragões.

 

Eu gosto muito de dragões.
Gosto da Coca de Monção, gosto do dragão do FCP – que é o mesmo que encima as armas da cidade. Mas, acima de tudo, gosto do meu dragão.
Obtive-o a partir de uma foto em que Eça está vestido com a cabaia que o seu amigo Bernardo Pindela lhe trouxe de Macau – e que eu suponho representar uma elegante homenagem ao escritor e à sua participação especial num grande acto humano.
N’O mandarim Eça nunca explica objectivamente porque nunca se deve fazer soar a campainha que determinará o fim do rico mandarim, que vive distante e incógnito lá «no fundo da China» segundo as frases mágicas que Teodoro lê, entre o sono e o sonho, nas páginas do velho in-fólio Brecha das Almas.
De facto, só no estranho prólogo teatral desta fábula alegórica se vislumbra algo: o 1º amigo quer «repousar do áspero estudo da Realidade humana». O 2º amigo aceita o alvitre com uma reserva: «Mas sobriamente, camarada, parcamente!… E como nas sábias e amáveis alegorias da Renascença, misturando-lhe sempre uma Moralidade discreta…»
A explicação da advertência de Eça para que «nunca mates o mandarim» – e que encerra a tal «Moralidade discreta» exigida pelo 2º amigo – é o que penso ter descoberto há uns anos.
Colocado em Havana em 1872, Eça logo denuncia o tratamento infra-humano imposto aos milhares de chineses que, chegados de Macau, engrossam as hordas de trabalhadores de que toda a economia cubana tanto carece. Com tal atitude Eça conquistou de uma assentada grossa falange de inimigos entusiastas e uma data de problemas.
Revolta-se com especial ênfase contra a legislação dirigida ao trabalhador ‘coolie’ – termo depreciativo para o emigrante chinês –, que representa, afinal, uma armadilha sem saída: o seu contrato de trabalho – que lhe assegura mal os limites da sobrevivência – é por oito anos; findo este tempo, o ‘coolie’ pode apenas voltar à China (com que dinheiro?), renovar o contrato, ou então recolher aos chamados «depósitos» – autênticos ghettos repletos de miseráveis permanentemente explorados por quem lhes fornece alimentação a preços da usura. Quando alguém precisa de mão-de-obra, vai lá e requisita oficialmente… escravos!
Considera o cônsul não haver «ninguém mais infeliz do que o ‘coolie’ (…) a não ser o Fellah no Egipto e na Núbia»
No seu livro «Eça de Queiroz e o século XIX», o escritor brasileiro Viana Moog descreve a situação em que o diplomata português se encontra, no auge deste seu combate humanitário sob bandeira oficial: «Em face desta situação, o cônsul Eça de Queiroz tem que optar por uma destas alternativas: ou adere à Comissão Central» – que, actuando à margem de qualquer lei, boicotava todos os pedidos de nacionalidade portuguesa solicitados pelos ‘coolie’ junto da representação diplomática – «ou luta contra ela. No primeiro caso tornar-se-á rico, receberá toda a classe de considerações, sobretudo se soube de começo simular hostilidade capaz de alarmar os negociantes. No segundo caso, terá de percorrer um caminho cheio de lutas, de ameaças e dissabores».
Ou seja: Eça sabe perfeitamente que lhe bastaria entrar em tal «jogo» para ficar rico de vez! – e que está mesmo na posição ideal para o fazer, pois quem ajudara a criar a máquina esclavagista tinha sido o seu antecessor, o cônsul português Fernando de Gaver.
Não fugirá, no entanto, à sua atitude idealista inicial, como refere Moog: «Não tem dúvidas ou vacilações. Fica ao lado dos chineses», lutando «contra tudo e contra todos, em defesa da massa anónima dos oprimidos que nada lhe podem dar em troca».
E é nesta intensa e desigual luta de já dois anos – em que passou centenas de certidões portuguesas para que muitos destes chineses emigrassem depois para o Chile e Peru, que surge em cena o marquês de Chin-Lan-Pin. Tratava-se de um elemento do conselho imperial da China em função diplomática. Uma comissão por si chefiada passeia-se por Cuba aparentando inteirar-se das condições dos seus compatriotas emigrados. Chin-Lan-Pin promete tudo a todos, mas nada mudará entretanto.
E com isso retira todo e qualquer protagonismo a Eça que, realmente, era o único ser ali preocupado com o destino de todos aqueles paupérrimos reféns.
Aqui é natural que alguém se pergunte o que afinal tem tudo isto a ver com o livro O mandarim – publicado seis anos mais tarde no Diário de Portugal sob a forma de folhetim.
Omiti propositadamente a categoria social a que pertencia o plenipotenciário chinês que se cruzara anos antes com Eça em Cuba. Porque o marquês de Chin-Lan-Pin era simplesmente um mandarim de 1ª classe…
Agora, já com o título do livro, vamos à procura da tal campainha em que nunca se deve tocar…
E aí está ela, bem visível na vil riqueza que Eça teria arrecadado facilmente se tivesse fechado os olhos àquela infâmia. Bastava, enfim, ter feito soar a campainha – um gesto mental que certamente consideraria habitual no ser poderoso e falso que se escondia sob a cabaia chinesa do oriental marquês.
O tal mandarim a quem mais tarde Eça acaba idealmente os dias no conto fantástico que escreveu com esse título, utilizando para tanto o medíocre, inconsistente e portuguesíssimo Teodoro. 

António Eça de Queiroz
*Síntese do texto A campainha do Mandarim, publicado em Eça de Queiroz e os seus clones (G&P)

Comentários a “O dragão da cabaia*, by António Eça de Queiroz” (16)

  1. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Gostei muito, António Eça. Do texto, que desconhecia porque não tenho esse seu livro, e do seu dragão da cabaia.

  2. António Eça diz:

    Muito obrigado, Eugénia.
    O dragão é lindo, uso-o como screensaver e timbre de carta ou mail.
    No livro esta história está cheia de pormenores diplomáticos interessantes, cartas ao Rei, pressões sobre Espanha e sei lá que mais.
    Aos 27 aninhos?!
    É obra.

  3. António Eça diz:

    Manuel, obrigado pela deixa!
    (Em termos de calendário é ideal!…)

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    António, sempre ao teu serviço — e dos bons textos.

  5. Orcama diz:

    Irmão meu, semelhante meu,
    Hei-de reler reler aquele José à luz deste António.

  6. António Eça diz:

    Orcama, meu bom amigo, eu não passo dum caco de vidro moderno que reflecte a luz da lua, quando ela lhe bate…

  7. Joana Vasconcelos diz:

    António, este seu dragão azul e preto é lindo de morrer e fez o extraordinário blog ficar ainda mais bonito!

    Gostei muito deste seu texto, que além de nos dar vontade de ir reler já hoje O Mandarim, mostra uma outra faceta do Eça, para além da de fabuloso escritor: a de dragão. Não tanto pela simbólica cabaia que, elegante, traja, mas pela força e ferocidade demonstradas, em circunstâncias particularmente adversas e, como bem sublinha, com apenas 27 anos!

    • Orcama diz:

      Agora fiquei na dúvida: 27 anos de quem? Eu imaginava que seriam de M. Antoine, quando redigiu Os Clones… pois tendo o Mandarim sido escrito em 1880, José Maria teria 35 anos.

  8. António Eça diz:

    É isso mesmo, Joana. Para mim o Eça é o meu ‘magic dragon’.

  9. Turmalina diz:

    António Benedito…caco de cristal azul…você sabe que sou fã do Eça e hoje gostei mais ainda dele!!! E você bem que poderia escrever por aqui mais e mais vezes…

  10. António Eça diz:

    «…Caco de cristal azul»… Que bonito, Turmalina…
    Sabe que Benedito é o único santo negro do panteão cristão?
    Eu gosto da ideia.

  11. teresa conceição diz:

    Que bela história, António.
    Não conhecia, eu que gosto tanto d’ “O Mandarim”. Apetece relê-lo com esta nova luz.
    E saber mais sobre os pormenores diplomáticos da questão — é mais uma leitora para o seu outro livro…

  12. António Eça diz:

    Orcama, estamos os dois certos: quando Eça foi para Cuba tinha 27 anos; esteve lá dois; escreveu o Mandarim seis anos depois de Cuba: igual a 35… Afinal, não faço milagres, nem com rosas…
    Teresa, ainda bem que gostou. Pique o MSF para que ele faça chegar clones aos vários cantos deste extraordinário blogue.

  13. Orcama diz:

    Obrigado. Desconhecia esses pormenor, que faz toda a diferença.

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