Mark Rothko
Queridos Mortos

Orange and Yellow, 1956

Afirmar que Mark Rothko foi o maior pintor do século passado não é grande ousadia, embora os partidários de Matisse, Picasso ou Pollock possam ter a última palavra.
A América tem muito que agradecer a dois dos piores monstros que varreram a Europa no séc. XX – os pogroms na Rússia czarista e o nazismo. O primeiro deu origem ao cinema tal como o conhecemos, pois quase todos os grandes produtores clássicos de Hollywood, os homens que governaram os estúdios, eram judeus fugidos pela mão dos pais do Império Russo. Também uma boa parte dos grandes compositores da Broadway, nomeadamente Irving Berlin e os irmãos Gershwin eram provenientes dessa zona da Europa.
Dos sanguinários cossacos, escapou em 1913 o farmacêutico Jacob Rothkowitz que partindo da Letónia só parou no outro lado do mundo, em Portland. Aí cresceu, por entre diversas e contumazes dificuldades económicas, o seu filho Marcus, que entretanto adaptou o seu nome para Mark, Mark Rothko. Os primeiros passos nas artes foram dados sem fugir a esta genealogia, já que Rotko teve como professores Arshile Gorky (arménio, refugiado do genocídio perpetrado pelos turcos) e Max Weber (russo, judeu).
Estes elementos biográficos não constituem nenhuma razão necessária que predestine a obra de Rothko, mas nada teria sido igual se ele não tivesse emergido deste caldo de cultura, um dos mais profícuos e inovadores do modernismo. Ao contrário, por exemplo, da literatura que se pode construir em solidão, a pintura exige escola, grupo, movimento, e é impossível encontrar um grande artista que não tenha sido gregário; até o solipsista Van Gogh, epítome do génio incompreendido, teve como único amigo um pintor. Daí que a primeira manifestação de Rothko tenha sido em conjunto com outros rapazes, com um programa artístico semelhante: Barnett Newman, Joseph Solman ou John Graham (mais uma vez, todos judeus russos).
Não importa relatar aqui as várias fases do trabalho de Rothko, ao longo das quais foi deitando borda fora os cada vez mais ténues sinais de figuração e depurando cada vez mais a racionalidade da composição. É mais ou menos a partir de 1947, já a sua carreira ia para lá da metade, que Rothko chega àquelas formas feitas de nuvens ou massas de cor, brumosas e flutuantes sobre a tela, que hoje são imediatamente identificáveis. Também não interessa dissertar acerca do conceito de “expressionismo abstracto” que cobriu teoricamente esta pintura, outros o farão melhor e com maior clareza. Vale, isso sim, a resposta de Rothko quando lhe perguntaram sobre o sentido do que fazia: “silence is so accurate.

white-over-red, 1959

A melhor definição de arte li-a de Vicente Todolí, ainda estava ele à frente de Serralves: arte é tudo aquilo que um artista designa como tal. Uma definição política clara, que traslada a questão para a pergunta sobre o que é um artista, a qual é tomada como ofensiva pelos que se consideram artistas, como nos revela Sarah Thorton no seu magnífico “Seven Days in the Art World”. Um círculo fechado.
Porque me é tão simpático o axioma de Todolí? Porque me liberta para afirmar sem preocupação que arte é tudo aquilo que eu sinto como tal. E esta experiência absolutamente pessoal mas transmissível, tive-a como um relâmpago quando pela primeira vez fiquei diante de uma tela de Mark Rothko – Londres, Tate (a antiga, antes da fábrica), numa tarde de Agosto de 1981, num escala do inter-rail a caminho da Escócia. Tudo nesse encontro me pareceu inevitável e não tive a menor dúvida de que Rothko havia pintado aquele quadro para mim. E o próprio Rothko teve a consciência integral do que me fez:
“The fact that people break down and cry when confronted with my pictures shows that I can communicate those basic human emotions. The people who weep before my pictures are having the same religious experience I had when painting them. And if you say you are moved only by their color relationships then you miss the point.“

A pintura de Mark Rothko foi sendo cada vez mais sombria, a paleta cada vez mais restringida aos vermelhos carregados, negros e castanhos profundos. Em Fevereiro de 1970 suicidou-se.
Ainda hei-de ir a Houston ver a capela.

untitled, 1969

Comentários a “Mark Rothko” (7)

  1. Turmalina diz:

    Eram grandes esses judeus russos :o)

  2. António Eça diz:

    Gosto particularmente deste último.
    Não deve haver coisa mais despojada.
    Mas de russos — neste caso não judeus — de quem eu gosto mesmo é da Natalia Goncharova e do Malevich, que são bastante anteriores.

  3. vasco grilo diz:

    Fico mais aliviado por saber que embora ja’ nao alimentes a ilusao de que existe uma composicao musical que te personifica, estejas convicto que existe um quadro que foi imaginado e pintado so’ para ti.

    Gostei muito do texto, com gosto alias de tudo o que aqui nos escreves.

    Um abraco

  4. pedro marta santos diz:

    Deu-me vontade de regressar à Tate para sentir relâmpagos.

  5. Joana Vasconcelos diz:

    JNA, só há dois dias descobri este seu fantástico texto! Gostei dos quadros que escolheu e de todos os outros que andei a espreitar na net. Sobretudo das cores fortes — vermelho e laranja (e até do amarelo, com eles combinado). Lembraram-me Chagall, provavelmente a despropósito.

    Por coicidência, na Newsweek que recebi esta semana, vinha um artigo sobre Rothko, a pretexto de uma peça que estreia por estes dias em NY. Aqui fica o link: http://www.newsweek.com/id/235423

  6. José Navarro de Andrade diz:

    só hoje pude passar por aqui e só por um momento: obrigado pelos vossos comentários.

  7. Joaquim Manuel diz:

    Rothko é ridículo, e as imagens dos quadros aqui mostradas ilustram bem isto.
    I S T O N Ã O É A R T E !

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