Era impolido e mal areado. Não sabia nada, ninguém me tinha dito coisa nenhuma, e as coisas de que vos vou falar atropelaram-me. Descobri sozinho ou foram coisas que sozinhas vieram ter comigo. Antes de ter 18 anos. Gostei. Depois descobri que, para cada uma delas, havia turbas de apreciadores e que as autoridades (ou os mestres na especialidade) estimavam e faziam muitas festinhas a quem gostava.
A lista, à espera que o PMS, nosso fanático em listas, suba francamente a fasquia.
A Náusea, um romance de Jean-Paul Sartre. Tinha 15 anos e dizia-se que Sartre era um filósofo. Fui ler e era um romance. Fiquei impressionado e com doida vontade de impressionar. Lembro-me que o protagonista ia para a cama com a dona da pensão: “Apertava-me a cabeça contra o seu peito num transporte de paixão: julgava que era assim que devia ser. Eu, por meu lado, dedilhava-lhe o sexo debaixo da roupa; depois o meu braço entorpeceu.” Pensem o que quiserem, as folhas do livro de 301 páginas estão todas a soltar-se.
Deep Purple – Agora que vou congelando as famosas “memórias afectivas” ponho-me a imaginar que “Child in Time” foi a primeira canção que deles ouvi. Se foi, tinha 17 anos e julgo que a ouvi num programa que o António Macedo fazia na Emissora Oficial de Angola, antes de alguém dizer, como na altura se passou a dizer, que os Deep Purple eram muito bons.
Rain People, de Francis Coppola – Vi-o num cinema do exército, perto do colégio dos maristas (também lá vi Buster Keaton e Chaplin, e agora venham dizer-me que a tropa é repressiva!!!). Mr. Orcama deve saber qual era a unidade. Ninguém sabia, ninguém queria ou esperava saber!, quem era o raio do realizador dum filme com uns miseráveis actores desconhecidos. Gostei muito da mulher que saía de casa e abandonava o marido. Achei, na altura, que era mesmo o que me convinha.
A Leste do Paraíso, de John Steinbeck. Foi só o titulo e por ser um romance, sem saber sequer que também existia um filme. Aprendi o essencial sobre o livre arbítrio.
Catedrais góticas – Um gosto estranho para quem vive nos trópicos. Sempre achei glorioso (e nervoso) o rendilhado decorativo externo e a luz que os vitrais filtravam para o interior. Ainda hoje tenho vivo preconceito contra quem revire os olhos quando se fala de Idade Média. Gostava tanto que fui a uma semana de conferências (o que eu ouvi dos meus amigos) que o professor Adriano Vasco Rodrigues foi fazer a Luanda comparando e contrastado o românico e o gótico. Projectavam-se slides e descobri então que era míope. À saída, por volta das 11 da noite, perdia os autocarros por não conseguir ver-lhes os números.
Sgt.Peppers Lonely Hearts Club Band – Tínhamos outra vez 15 anos (tínhamos sempre 15 anos naquela altura) e o LP era diferente de tudo o que os rapazes de Liverpool tinham feito. Gostei logo e fiquei de cabeça perdida com a Lucy (in the sky with diamonds).
John Cage – Calhou ouvir. Sabe Deus como, porquê e quando. A ousadia da coisa, a aceitação do ruído, das vozes que falam conversas de cada dia, a mistura fraternal disso tudo com os silêncios, desassossegaram-me e sossegaram-me. Fui ler Allan Watts a seguir. Mais Zen não podia haver. Não descansei enquanto não tive dele o meu primeiro LP. Consegui.
O Fio da Navalha, de Somerset Maugham. A minha lição de boas maneiras. Escrita sem mariquices, prosa límpida e ágil, penetrante e viva nas descrições, de uma sincera humanidade na exposição de cada personagem e meio social.
Eine Kleine Nachtmusik – Restos de uma mala abandonada no Porto de Luanda. O meu pai trouxe-me meia-dúzia de 45 rotações “estrangeiros”. Um era de Jean Ferrat, outro era essa Kleine Nachtmusik que ouvi aos 12 anos até à exaustão. Já me tinham mais ou menos ameaçado que era preciso gostar-se daquilo, não sabia que se podia gostar tanto e de olhos tão fechados.

















Manuel: fantástica a lista e a ideia da lista. Ficamos à espera da lista do MARTA e que ele, por sua vez, desafie o morto que se segue.
ps: reclamam a sua presença lá em baixo a propósito de uma dicussão sobre umas nojieces em forma de raio x.
Marta? Não é Pedro? O sem feridas!
Ah, sim, já seguiu desafio para o PMS, registado e com aviso de recepção.
Regras do Jogo:
a) Coisas (livros, pintura, música, ideias, and so on) de valor intelectual que descobrimos sem ser pela Voz do Mestre.
b) Só se aceitam descobertas feitas até aos 18 anos de idade. Depois, virgindade perdida, já não conta.
Meu caro Manuel “Larry-Roquentin” Fonseca,
Quem o autorizou a andar a rebuscar o sagrado baú das “minhas” memórias? Não encontrou lá o Lord Jim, do Conrad? E porque deixou escapar Les jeux sont faits? E sinfonia nº1 do Mahler que está mesmo ao cimo ao lado de In a silent way do Miles?
Está todavia perdoado pelo talento que revela, e a mim me falta, para ordenar e compartilhar aquele “nosso” malão…
A falta que uma vírgula faz a seguir a perdoado! Leia-se: Está todavia perdoado, (Virgula!!!)
Orcama (que já fui ralhada seguidamente, aqui, pelo uso ostensivo de sr. e sra), eu devo, para o bem da verdade, manter — para meu uso pessoal — sua frase original. Caro Manuel, está perdoado pelo talento que revela de trazer manifestações espirituosas, provocativas, evocativas e buliçosas ora ao pensamento ora aos sentimentos. Sou assim, generosa no meu perdão.
Tem toda a razão, Luciana. A virgula, está mesmo a mais. Obrigado pela interpelação, pela qual fiquei realmente… pabo. :)
Well, well, well, querido Manuel…adoro fazer retrospectivas…
Deep Purple escutei muito na época do colégio, principalmente o album Made in Japan. Muito tempo depois fui encontrar Ritchie no Blackmore’s Night…agora num estilo renascentista.
O primeiro filme que assisti sozinha, ou seja, sem os pais, foi Um Golpe de Mestre, num cinema de praia.Eu devia ter em torno de 10 anos tb. E logo em seguida vieram muitos e muitos outros, inclusive uma exibição fora de época de Romeu E Julieta do Zeffirelli.Começava aí meu diálogo com Shakespeare.
Acho que até que me caberia bem ler A Náusea e O Fio da Navalha, pois nos dois casos nem tudo é o que parece ser, embora continue sendo Quanto ao John Cage, considero-o diferente demais.Ele faz com o som o que Marcel Duchamp faz com a imagem.
Quanto às catedrais, são mesmo deslumbrantes, gosto dos vitrais em forma de mandalas de Notre Dame. E tem ainda os arcos e os gárgulas.
Que venham mais listas!
Orcama e Turmalina, that’s the spirit, já fizeram a vossa lista, mas podem fazer ainda mais.
Luciana, ficamos à espera de saber das suas “descobertas”.
Excelentíssima lista, senhor doutor. Vou rebuscar mentalmente a pré-virgindade.
I — Manuel, não sei se gosto deste desafio. Acho as regras muito limitativas. Muitas das coisas que descobri, sobretudo antes dos 18 anos e que na altura me marcaram foram-me mostradas/transmitidas pelos meus pais, avós, tios, tias … É o que dá ser-se a absoluta primogénita (filha, neta, sobrinha) … Tenho grande dificuldade em distinguir (ou em lembrar-me sequer) do modo como as coisas me vieram parar à cabeça. Antecipo grandes dificuldades… mas que coisa!
II — Gostei muito da sua lista. A Lucy (in the sky with diamonds) acompanha-me desde que me lembro: nascemos ambas na mesma semana, com escassos dias de intervalo, e os meus pais adora(va)m os Beatles… E, como me revi, míope as well, nos seus problemas com os autocarros: eu não os perdia, entrava, resoluta e esperando ter a sorte de ser o pretendido … a grande revelação era por alturas do Marquês de Pombal, quando o 36 seguia para a Baixa e o 38 subia a Braancamp .… Muitas aulas de ginástica (no Ginásio Clube) perdi eu …
Joana, claro que sim que é um bom desafio. Naquela altura não havia câmaras em lado nenhum, nem escutas. O que o pai e a mãe nos disseram ao ouvido não conta. E é tão bom plasticinar o passado. E que bom sabê-la míope como eu. Claro, eu rapaz tímido incapaz de dar casa e fazer um autocarro que não fosse o meu, a Joana, menina, pior do que a wonderland Alice, a achar que todos os coelhos são para parar e lhe fazerem vénia. Boys and girls é o que é.
Gostei muito da ideia da lista, da sua lista, Manuel Fonseca, e das histórias, ou história, que deixa que se espreitem nela.