Lista de coisas que, como a maçã de Newton, me caíram com estrondo na cabeça

MAÇÃ ESCOLA
Gostava de dizer uma coisa bonita, mas a verdade é que fui para a escola porque já não aturavam em casa o disco riscado: quero ler sozinha, quero escrever sozinha e ninguém me arranja uma professora. Um horror de incompreensão. Não bastava que a minha mão não obedecesse ao meu desejo de fazer palavras e os desgraçados dos livros não se desvendassem diante dos meus olhos?! Aquilo de ler, mais que visto, dependia de outras coisas que não apenas a vontade.
Despacharam-me, então, para um colégio que me enfiou numa sala onde uma irmã, em preto todo asa de corvo, nos mandava cantar, sentadas em círculo, com gestos absurdos a acompanhar, ou fazer bodegadas com tinta que, depois de secas na corda, eram expostas na parede. Mãos nas cores primárias, por exemplo. Ou jogar lencinho da botica. E, porque o inferno era ali, dormir a sesta. Nem uma reles letra. Umazinha só palavra lida: a treta da hora do conto era contada. Parecia que queria os livros todos para ela. Odiei. Tudo. O corvo, o egoísmo de não ensinar o que sabia, a luz amarela escura agarrada às paredes cheias de sombras largas. Sequer percebia as miúdas que lá estavam, falavam à bebé, estavam felizes da vida e depois de almoço, dormiam vestidas e tudo. De um dia para o outro, do segundo para o terceiro dia, quando percebi que seria assim, sempre assim enquanto estivesse naquela sala, à mesma hora as mesmas actividades, a minha vida transformou-se numa desgraça de Dickens ainda que eu não soubesse quem era Dickens. Depois deste terceiro dia, à noite, chorava, sozinha, até adormecer. Como era dramática, pensei que estava perdida e que iria morrer ali, naquelas circunstâncias escabrosas. De verdade que pensei. Ao sexto dia cansei-me de pedir que me mudassem de sala, de chorar à noite e vomitar de manhã e resolvi que se morresse, ali é que não seria. Ao sétimo dia ninguém descansou. Não conto o que fiz, mas juro que ninguém pintou nem dormiu a sesta e não houve lá põe põe põe galinhita o ovo com o dedo espetado na palma da mão. Céus! Gente doida. Como destes colégios ninguém é expulso, os meus pais foram convidados a retirar-me.
A minha avó, ao contrário da minha mãe que acreditava numas teorias que informavam que a criança deveria ser criança e deixaria imediatamente de ter infância se aprendesse o grau zero académico, antes que os frágeis neurónios apodrecessem de maduros, comprou-me um quadro de ardósia que em toda a volta tinha o alfabeto em minúsculas, maiúsculas, os números e a numeração romana. Disse-me:
quer aprender, aprenda.
Aprendi a ler no Verão dos três anos, fiz quatro ao fim de Novembro com frases idiotas em maiúsculas que não eram nada daquilo que eu queria dizer ainda que fossem o que conseguia escrever. Em Dezembro fiz sozinha a lista para o menino Jesus e só rasguei um bocadinho o papel.
Ficava-me bem mentir, porém não tenho paciência: nunca aprendi aquilo das salas de aula e, ainda que as use, sei que não cheguei às minúsculas.

MAÇÃ DE LETRAS
Queria ler e escrever. Mas não sabia como. Tinha um quadro em ardósia com uma moldura  em madeira cheia de letras e números, lindamente pintadas e enfeitadas de passarinhos, borboletas, flores. A minha avó tinha-me rezado a sentença. Sabia muito bem que estava entregue aos bichos. À cadela, mais precisamente: Laika. Um dia, depois de muitos desesperados dias, pedi duas garrafas de Sumol vazias, à Liana. Laranja. Ananás.
Também sabia muito bem onde dizia o quê. Porque sabia ler muitas palavras, inclusive um extraordinário perigo danger danger, mesmo que não soubesse as letras tim tim por tim e mais os sons correspondentes e sem razão aparente para tal correspondência – continuo a saber algumas palavras sem saber o tim tim, são aquelas em que dou erros. Escrevi Sumol, laranja, ananás. Deu-me um trabalho quase exasperante. Levou-me imenso tempo. Ocupei o quadro inteiro. As letras eram todas maiúsculas, grandes, feias e de giz. Muito diferentes das outras em passarinhos, laços, patos, cheias de redondinhos e tracinhos mimosos. Mostrei. A minha avó disse:
— o A está de cabeça para baixo e o L para o lado errado.
Eu disse:
— um A é um A. Um L é um L.
A minha avó disse:
— ninguém se vai dar ao trabalho de virar o quadro, torcer a cabeça ou fazer o pino.
Depois deu-me a única colher de chá: que era mais fácil se eu escrevesse só da esquerda para a direita, com a mão direita, porque não esborratava e porque o mundo estava mais feito para a mão direita. Como as tesouras. Até aos cinco anos fui escrevendo com a esquerda e com a direita, e nos dois sentidos, e quando sozinha, com as letras em qualquer rotação até conseguir habituar-me a fazer tudo direitinho. Só a menina Laika, cadela astronáutica, é que compreendia as palavras como eu porque as via do espaço.
Esta alegria das letras escritas foi uma das maiores da minha vida. Foi mais, muito mais difícil do que a das letras lidas. Ainda é.

BEIJO DE MAÇÃ
Sempre gostei de namorar. Passear de mãos dadas, comer gelados e no fim fazer guerra de pauzinhos. Ter um rapaz em condições que, na praia, no mar, de água pelo peito, soubesse juntar as mãos dele e lhes desse o impulso certo quando eu pusesse o meu pé nelas para um belo mergulho ruidoso e quase afogado de tanto riso. Ou daqueles de pé, nos ombros, em tardes mais acrobatas. Um rapaz que me levasse o saco dos patins e ficasse a ver embevecido os lindos trambolhões. Não tivesse medo de sujar as mãos na corrente da bicicleta. Gravasse cassetes com músicas que achasse que eu gostaria de ouvir, com os mínimos números muito bem apontadinhos para o caso de eu gostar, não ter de andar em rewinds e forwards. Dissesse: acho que vais gostar deste livro. Quisesse ir ao cinema todos os sábados de Inverno, pusesse o braço por cima da cadeira e a mão mal tocasse o ombro. Não se importasse com o meu pavor de filmes de terror. E, muito importante, um rapaz que não me enervasse com aquilo dos beijos. Bom, beijos parecia-me bem, muito bem até, mas à chegada e à partida um beijinho inho inho nos lábios. Agradável, mas que não justificava, no entanto, o mistério da sobrecarga de pedidos despropositados de bis. Agora aquilo de enfiar a língua na boca de outra pessoa era tão impensável quanto arranjar uma razão para deixar que me fizessem a mesmíssima coisa: que nojo. Estava errrada errada errada! Lembro-me de ter pensado, completamente surpreendida: que bom que isto é.

Comentários a “Lista de coisas que, como a maçã de Newton, me caíram com estrondo na cabeça” (36)

  1. Joana Vasconcelos diz:

    Eugénia, que deliciosas e contundentes estas suas maçãs! Aposto que eram vermelhas, pelo menos a primeira, de justa ira, e a terceira, porque só podia ser. A segunda não me surpreenderia que fosse riscadinha!

    PS — Eu também escrevia com as duas mãos e em espelho! Aliás fazia tudo com as duas mãos sem me decidir (cortava, pintava, lavava os dentes, segurava a colher…). Depois fizeram-me testes e, pasme-se, fui obrigada a escrever apenas com a mão esquerda…

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Uma maioria de crianças são ambidestras, a lateralidade, creio, só se estabelece por volta dos seis anos. Não é? O efeito de espelho é menos comum.

      Estas coisas definidoras, maçãs, ficam-nos gravadas.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    E de Eugénia, V de Vasconcellos, EV pensávamos todos. Mas depois das 3 maçãs, E de Eugénia, VA de Vasconcellos, EVA de 3 maçãs ficámos a saber!!!
    (Gostei muito, mas isso não vem ao caso! Não estamos cá para elogios e mariquices, mas sim para a luta de classes de géneros!!!)

    • Joana Vasconcelos diz:

      MSF, please! Luta de classes? Soooo last century! Género? Gender é o que está a dar, sobretudo em contexto confrontacional.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Manuel Fonseca, Eva? Eva?! Acha bem tanta falsidade? Onde raio é que tentei algum Adão?

      • Manuel S. Fonseca diz:

        Ó enleante EVA não venha com esses meneios de serpente a acenar com as vermelhas (não fui eu disse, foi a outra Graça) três maças. Já deu cabo da sesta de uma creche, depois danger, danger e, por fim (digo eu) bracinho por cim da cadeira e no ombro mal me toquem… É ou não é a last temptation?!

        • Eugénia de Vasconcellos diz:

          Ma-nu-el Fon-se-ca!

          Não me descambe o post que eu me lembro muito bem do seu post, aquele, sim!, da sua temptation de cinema, mas de mãos nas pernas.

  3. António Eça diz:

    É.
    Coisa de mulher, sem dúvida.
    Estou tão supremamente mal-disposto com uma gripe de três dias (atingi o pico de 38,7 ontem) que nem desculpas peço. Pareço o vulcão ainda adormecido nos mares da Islândia.
    E toclas!
    (Agora a sério: gostei instantaneamente da 1º maçã. Eugénia, a geniosa ciança…)

  4. pedro marta santos diz:

    Sentem-se as fúrias todas, todas as hesitações, as pequenas alegrias, os triunfos e, até, a passagem de criança para menina. Gostei de ler.

  5. Turmalina diz:

    Eugénia…acho que minhas maças eram verdes…assim como o quadro que eu ganhei lá pelos 3 anos.Eu era metida à ler e escrever, desde cedo…e escrevia com qualquer mão, mas nunca escrevi em espelho (deve existir alguma explicação para isso tb).
    Sei que minha mãe tentou me levar prá escola quando eu tinha uns 4 anos, mas não deu certo… fui voltar somente aos 6 anos. E eu, que nunca dormi de dia, nem em bebê, era sempre convidada à me retirar do recinto da hora da habitual dormida coletiva. Aquilo me dava faniquito e eu acabava agitando os vizinhos.Não que eu fosse subversiva, eu tinha mesmo aversão a tudo o que fosse feito em coletividade.Era eu tb que agitava toda e qualquer fila.Essa minha fase foi terrível…para os outros…
    Sobre sua terceira maça…gostava de namorar, mas não tinha muita paciência para andar de mãos dadas, como também nunca fui fã de gelados.Eu gostava de passear…fosse caminhar na praia catando conchinhas ou mesmo uma visita ao zoológico.Ai…ai…ai.. hoje percebo como eles tinham paciência…Bem, e o beijo…sempre gostei de beijo de cinema :o)

  6. António Eça diz:

    1 — Tem toda a razão, Eugénia. Mas, com um alibi bestial à mão eu tinha de implicar com alguma coisa…
    2 — Anotarei os pedidos de melhoras, a ver se o termómetro se compadece.
    3 — Obrigadaaa!… Obrigadaaa… (vocalização de Amália e tranferência de género)
    4– Manuel Fonxeca: gripe d’águia só dá em águia — como é óbvio. A minha é atípica — como disse o médico (e só podia ser!)
    5 — Turmalina: fumaça de dragão é meu elemento natural — se não houver, definho…

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Compadeceu-se, o termómetro? A sua ruindade está melhorzinha?

      Ps: espero que as vocalizações venham acompanhadas do pôr de mãos..

  7. Turmalina diz:

    Ah, e tem mais…sua Eugénia criança me fez lembrar de uma outra menininha:
    http://www.youtube.com/watch?v=ZCQZvLPIiVo&feature=player_embedded

  8. Orcama diz:

    “Espero, pensou ele, que estejamos perdidos. Oh, percamo-nos rapidamente, porque é preciso, porque ela nunca há-de querer, nunca mais, que tenha sido de outra maneira… Meu Deus, como a boca de V. é inevitável e profunda, e sábia desde o primeiro choque… Oh, percamo-nos rápido, rápido…” in Colette, Le blé en herbe.

    Ps1. V, na história, é Vinca. Espero todavia que a recordação do gosto da sua primeira maçã realmente vermelha, precoce Eugénia de Vasconcellos, possa ser assim, como dizê-lo… de sabor a fruto recém-colhido, já que inolvidável não restam dúvidas que foi.

    Ps2. Este cemitério em noites de sábado é cá de uma animação… Seria lua-cheia?

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Caro Orcama,

      Esse excerto, que não conhecia, tem uma expressão muito bonita e incomum: nunca tinha ouvido de uma boca que fosse inevitável.

      Ps1: acho que toda a gente se lembra do primeiro beijo.
      Ps2: é sempre animado, não é cá de luas!

      • Orcama diz:

        Collete sabia o que dizia nos temas que escolhia para escrever… como esta deliciosa frase:
        “Quando ela levanta as pálpebras é como se ela tirasse todas as suas roupas.”…

        • Eugénia de Vasconcellos diz:

          Orcama, que mau.. Tenha consideração por nós, mulheres perfeitamente normais que quando levantamos as pálpebras é, provavelmente, porque estamos a esfregar os olhos de tanto sono!

  9. Maria João Cayenne diz:

    Eugénia, AAAAAADDDDDDDDOOOOOOORRRRRREEEEEEEEEEEEIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII. E vi-te. E vendo-te vi-me. Nem te passa pela cabeça a quantidade de imagens que foram desfilando pela minha cabeça, dos mesmos sítios, outros momentos, às vezes os mesmos.
    Tão bom!

  10. António Eça diz:

    A ruindade está igual, já a febre desceu um bocadinho.

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