Lista de coisas que, como a maçã de Newton, me caíram com estrondo na cabeça

Crime no Expresso do Oriente Devia ter uns 13 anos. Apanhei-o em casa dos meus avós. Como sempre, a minha provisão de livros acabara-se, ainda as férias iam a meio. Porque foi o primeiro dos muitos policiais que li e que continuo a ler. Gosto, quando são bem (i.e., lealmente) construídos, de ir recolhendo e relacionando os factos e os indícios. Acerto quase sempre. Este fez-me, para além do mais, perceber que a justiça não é, não pode ser, cega. E que deve olhar, muito e bem, para o caso.      

Lentes de contacto Míope desde os 10 anos, comecei a usá-las com 14. Eram de vidro, pequeninas. E nem sempre confortáveis. Mudaram a minha vida. Passei a acertar bem no centro do trampolim: os meus mortais tornaram-se mais altos e bem rolados, consegui o inatingível mortal e meio. Deixei de me perder na praia, ao sair do mar. Liberta dos malditos óculos, passei a ver-me com outros olhos. E, sobretudo por causa disso, os outros também. Grande e inesperada descoberta.            

Uma prova de striptease Tinha 16 anos. Estava de férias, em Espanha, ao ritmo das competições dos velejadores da família. Era a noite da regata grande, que durava até de madrugada. Rapaziada no mar, mulheres, crianças e adolescentes em terra. No hotel. Nada de tapas, copos, bares. Uma seca. Descobri que havia um concurso qualquer a começar. Inscrevi-me. Cantei e resolvi charadas. Era tudo muito mau, mas eu estava a divertir-me. Foi então que o animador anunciou a prova final: um strip! Boa! A minha mãe e as minhas tias gesticulavam, frenéticas, a mandar-me sair do palco. Fora de questão. Tal como exibir mais um centímetro que fosse do que quer que fosse. Tinha era de arranjar uma saída airosa. E depressinha. Lembrei-me da Rita Hayworth a tirar a luva, de ter lido que alguém dissera ser uma das hottest scenes ever. Sure, só que eu nem era a Rita, nem estava de luvas. As espanholas, literalistas, haviam terminado a respectiva prestação bastante descompostas. Chegou a minha vez. Avancei. Pus um ar adequadamente sensual. Movendo-me ao ritmo da música, desapertei, lentamente, o lenço vermelho que trazia amarrado à cintura. Exibi-o. Fi-lo girar. Finalizei, estilosa, atirando-o para a assistência. A claque portuguesa aplaudiu, aliviada. O júri deu-me a vitória, por unanimidade. Descobri, nesse dia, qual a melhor parte do meu corpo.                

New York. Tinha 17 anos e passara boa parte das férias de Verão a estudar para o exame de admissão à Católica. Feito este, fui surpreendida pelos meus pais com uma semana em NY. Apaixonei-me, de imediato e para sempre, por aquela cidade. Gostei de absolutamente tudo o que vi, visitei, descobri e aprendi. E, sobretudo, do movimento, da animação, da diversidade, da sensação de liberdade e de live and let live que se sentia por todo o lado. Não imaginava que existisse um sítio assim. Tal como o PMS em Paris, não me queria vir embora.         

Uma Semana num Convento. Da ordem em cujos colégios andei e com a qual mantenho ainda os mais ternos laços. Por simpático convite da superiora americana, ao saber da minha ida a NY. Habituada às convencionais freiras da minha infância, não estava de todo preparada para o que fui encontrar. A superiora, que andaria perto dos 70, era tricampeã da maratona de NY, na sua categoria. Corria todos os dias, ao fim da tarde, de fato de treino e headphones. Havia muitas freiras novas. Que de dia usavam um hábito escuro, impecável, e à noite o trocavam por jeans. Davam aulas das mais diversas matérias, sabiam de teologia à séria, tinham projectos académicos ambiciosos e também hobbies. Viviam com simplicidade e exigência, mas, sobretudo, viviam neste mundo. Lembro-me da missa comunitária com que, muito cedo, começavam o dia. Das fabulosas fotografias do Grand Canyon, que uma delas percorrera nesse Verão, num trabalho de pesquisa. De observar fascinada como duas outras, gémeas idênticas, de cabelo encaracolado, aplicavam gel para o alisar, antes de colocar os véus. De assistirmos ao debate entre Geraldine Ferraro, a primeira mulher candidata a vice-presidente dos EUA (democrata, católica, pro-choice) e George Bush (pai). De as questionar sobre vocação, expectativas, realização e das surpreendentes respostas. Tudo era diferente, tudo fazia sentido. Soube então, sei ainda, que o futuro da Igreja está num maior, muito, muito maior protagonismo de mulheres como estas e como tantas outras que fui conhecendo, também por cá.               

Comentários a “Lista de coisas que, como a maçã de Newton, me caíram com estrondo na cabeça” (23)

  1. Anita visita os mortos diz:

    Joana, que gosto é visitar-te aqui e descobrir os antecedentes da amiga que hoje és. Que dizer? Rita Hayworth, morta comme il fault neste blog, cuida-te!

    • Joana Vasconcelos diz:

      Liiiindo! O que eu me ri com este teu pseudónimo! Só tu! Quanto à falecida Rita Hayworth, a sorte dela (e, porque não dizê-lo, a minha) é não existirem imagens da delirante cena do lencinho vermelho. Tivesse sido hoje e já estariam all over you tube! De modos que a diva não tem por que temer a concorrência… Quanto a ti, vai aparecendo e dando uso ao belo nome!

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Gostei muito da sua surpreendente (muito surpreendente) lista. Que, confesso, me obriga a fazer 3 (três certinhas) observações:
    1. Uma declaração de solidariedade quanto aos devastadores efeitos da miopia;
    2.Uma pergunta singela que é a de saber se no convento aceitam rapazes? E seria uma tal Leo House na 23rd St. pertinho da 8th avenue? Se eu já fui freira? Juro que não.
    3. Sabe que o Gente Morta é muito lido, não sabe, Joana? Então não se esqueça, aos próximos eventos sociais para que está intimada, de levar o lencinho vermelho (esqueça lá as luvas!).

    • Joana Vasconcelos diz:

      Manuel Surprised? Fonseca, gosto mesmo de que tenha gostado.

      O convento ficava fora de Manhattan. Podia ir-se by bus, mas o que eu gostava mesmo era de ir de barco, de manhã bem cedo … era uma visão única, a névoa sobre o rio e, depois, o fabuloso skyline a aproximar-se, cada vez maior…

      O lencinho vermelho está há muito arrumado e assim permanecerá. Usei-o naquele dia em claro estado de necessidade. Correu bem, mas confesso que na altura foi um belo dum frisson…

  3. Orcama diz:

    Se forem também luvas vermelhas, porque não?

    • Joana Vasconcelos diz:

      Francamente, insensível Padrinho! A atirar lenha para a fogueira!Não me diga que não leu nas entrelinhas do meu relato a aflição de uma teenager em apuros!

      • Orcama diz:

        Nada disso, susceptível afilhada. Isso foi há alguns anos — os wonderful teen — e só lhe pode ter fortalecido a auto-confiança. Assim, quer o lencinho, até as luvas, desde que vermelhas — a cor da sua estimação — são perfeitamente compagináveis com evento que Manuel “Social” Fonseca refere de modo intimatório…

        • Joana Vasconcelos diz:

          Orcama, aquilo era um concurso! Por isso, contra todo o bom-senso e a prudência não saí daquele palco, porque queria ganhar! Não fiquei nada com a ideia de que o Manuel esteja a preparar um concurso …Até porque teria que contratar um animador cromo, arranjar umas concorrentes espanholas e, sobretudo, convencer-me a mim, so much older and wiser, a inscrever-me, tropeçando segunda vez na mesma pedra …

  4. António Eça diz:

    Do strip ao convento, hein, Joana?…
    Bonito!
    Miopia é fogo — fiquei a saber, que não tenho.
    Aproveito para dizer que a única cidade do mundo que me disse fica cá foi a Lua. Nem Paris, que adoro, nem Londres, nem Amsterdam — só a Lua. Roma aproximou-se-me do ouvido mas só suspirou…
    Estou mesmo a vê-la a comer a cabeça àquelas espanholas pirérrimas.
    Excelente lista.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Olá António, ainda bem que gostou. As espanholas eram exactamente como diz. Toda a cena era, aliás surreal: a sala estava cheia de famílias que pareciam ter saído daquela série Verano Azul, o animador era um perfeito cromo, as provas do concurso delirantes … O hotel até que não era mau de todo. Porque o que nos levava para aquelas bandas eram as regatas, o critério principal de escolha era proximidade do clube naútico. Devo mesmo dizer que em anos e anos disto, nem foi dos piores. Em todo o caso serviu-me de emenda: nunca mais participei em concursos destes…

  5. Turmalina diz:

    Que delícia de lista, Joana. Em cada uma me encontro um pouquinho…
    Dos palcos na tenra idade não tenho boas lembranças desde que tropecei e torci o tornozelo ensaiando a polca para a apresentação de final de ano. Já na faculdade participei de um grupo de teatro, até o dia em que numa cena que descrevia o movimento hippie, meu partner em cena foi fazer graça com uma goma de mascar e acabou por colá-la nas minhas madeixas tão lisas e loiras, ornadas com margaridas de jardim. O resultado de tamanha graça foi que tive que cortar uma madeixa inteirinha, quase que desde a raiz. Daí em diante passei a frequentar somente os backstages. E muito cá entre nós, a única vez que fiz uma graça do tipo strip, escorreguei e caí sentada. Minha bunda (é asssim que a chamamos por aqui) ficou roxa por 3 dias.
    By the way…eu, as freiras e os conventos nunca tivemos muitas afinidades.
    Um pouco mais velha, aos 21 anos, passei um mês em N.Y., na verdade mais especificamente Manhattan.Posso dizer que conheci a maça desde o cabo até o caroço.…and all by myself.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Olá Turmalina, que bom que gostou! Adorei o relato das suas peripécias no palco! E que maravilha deve ter sido esse seu mês de maçã!

      PS — Dica de mãe de família numerosa, em versão girls only: a goma de mascar (aqui diz-se pastilha elástica) presa no cabelo tira-se facilmente com azeite. Fica tudo besuntado, eu sei, mas o azeite dissolve-a de imediato, depois é só passar um pente para tirar os fragmentos a que fica reduzida e lavar a cabewça normalmente. Tenho muita, muita prática disto, acredite …

  6. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Joana,

    acho que a rapaziada vai fazer um abaixo assinado ao Joe Cocker para que ele reescreva a letra de You can leave your hat on e, por uma vez, fazem bem, não fala lá de lenços vermelhos..

    Gostei muito.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Eugénia, mas que ideia mais perigosa!

      O que seria transformar o you can leave your hat on em you can leave the red scarf on … mandando fora tudo o resto … quando justamente a minha estratégia foi manter tudo o resto on, excepto o dispensável e adequadamente vermelho lenço!

      Já enterrou o morto? Tenho estado à espreita!

      • Eugénia de Vasconcellos diz:

        De lenço vermelho, sim, Joana Basinger, nem que lhe chame pareo e seja no Tahiti que os inventou!

        Está enterrado.

        • Joana Vasconcelos diz:

          Com o pareo ainda me safava, que aquilo é grande e abrangente … o problema é que o lenço vermelho da história era um daqueles tabaqueiros americanos, que eu tinha de váras cores, trazidos pela minha mãe que ia várias vezes em trabalho a NY! Muito mais pequeno que o hat! Um grande problema, pois!

  7. António Eça diz:

    Bem…, parece-me que o espectáculo está a ganhar forma.

  8. pedro marta santos diz:

    Escolhas de uma grande serenidade, sempre. Até o lenço vermelho. Consta que o Pedro Norton vai levar um ao jantar…

  9. António Eça diz:

    Acho que o MSF anda à procura duma ‘capeline’ a condizer„,

  10. António Eça diz:

    Nããã!… De Arsénio Lobão, de cartola e tudo.
    Como observador da ONU.

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