Cinema Trindade : começou antes, mas foi com nove anos que me lembro melhor: num espaço de três semanas, estrearam na tela alta e comprida do Trindade dois filmes de que toda a gente falava, até a gente pequena como eu: “A Guerra das Estrelas” e “Encontros Imediatos do Terceiro Grau”. Não imaginam o que é ter nove anos, sentar na plateia, abrir melhor os olhos e ver passar por cima da cabeça uma nave que nunca, mas nunca mais acaba (acho que os americanos lhe chamam epifania). Só fechei a boca quando outra nave se afastou pelo céu estrelado, no genérico final de “Encontros Imediatos”. Já acordar, ainda não acordei.
Morava a quinhentos metros do Trindade, no último andar do prédio mais alto da cidade e, à sexta, a partir dos 13 anos, descia do prédio e da avenida até à sessão da meia-noite, para o templo e o tempo da minha educação exemplar.
Final Cut dos Pink Floyd :Têm álbuns melhores, com e sem Syd Barrett. Mas este vinil-história de guerra, dor e desmembramento familiar caía que nem mel na angústia açucarada dos estremecimentos adolescentes, em que o mundo parece que vai acabar a cada desgosto amoroso, cada nota negativa, cada discussão caseira, cada golo falhado. Cada.
Grutas de Altamira :Fui com os meus pais, era muito miúdo, mas lembro-me de não acreditar que houvesse gente tão antiga a fazer coisas daquelas nas paredes. Para quê? As imagens, essas, ficaram.
A Ofélia de Millais :Foi na primeira vez que fui a Londres, Tate Gallery. Fiquei impressionado com as cores do céu de metade dos quadros de Turner — era como se o mundo fosse acabar no minuto seguinte, e a desgraça fosse bela.
A Ofélia é outra história: se não se tem cuidado — sobretudo nas dores do crescimento -, fica-se apaixonado pela mulher do quadro, suspensa nas águas entre a vida e a morte, a murmurar segredos. São dois fantasmas que, uma vez surgidos, d’ entre les morts, não desaparecem: a ruiva Ofélia de Shakespeare/Millais/Lizzie Siddal e a loira Carlota de Ernest Lehman/Hitchcock/ Kim Novak.
Stalker de Tarkovsky: simplesmente, antes de o ver, não sabia que o cinema podia ser outra coisa. Era, e é.
Há três anos, revi-o com os meus alunos do curso de Guião. O fascínio continua.
Argentina — Holanda, final do Mundial de 78: já dava cabo dos joelhos, entre balizas de madeira, no recreio do Colégio das Escravas do Sagrado Coração de Jesus, em Carlos Malheiro Dias, a dois passos do Estádio das Antas (vade retro). A seguir, a partir do ciclo preparatório, a minha mãe teve a lucidez de me meter no ensino oficial, onde tanto havia meninas bem da Constituição como meninos mal do orfanato, ali, junto ao Augusto Gil.
Mas foi no final da primária, no televisor a preto e branco, de botões creme, do avô Santos que vi pela primeira vez o que era futebol. O nome que fixei foi Kempes, embora também andasse por lá um baixinho esquelético, no centro do campo holandês, que não era mau de todo. Às vezes vejo-o, mais gordo, nas bancadas de Camp Nou.
História sem Heróis de Greg: Muito antes de Tardi, Manara, Schuiten, Moebius, Prado, Bilal, ainda na inesquecível revista Tintin, onde aprendi três ou quatro coisinhas sobre a condição humana, foi com Greg e esta história que percebi: a BD também é para adultos.
Outono em Pequim de Boris Vian: não, não foram os grandes clássicos. Foi o louco, eclético, precoce, prolífico Vian. O prazer saltitante das palavras, o humor exaltado, entre a morbidez sarcástica e uma ternura quase juvenil, o gosto pelas falésias e ravinas da narrativa. Depois li A Espuma dos Dias e os policiais, mas com o Outono, foi tiro e queda.
Paris : Dizem que há dois tipos de pessoas: as que gostam de Londres e as que gostam de Paris ( e os que preferem New Orleans ou New Delhi?). Sempre fui mais Paris, desde a primeira vez, com quinze anos, eu e um amigo meu, sozinhos nas grandes avenidas. Regressei onze vezes desde então. Mas na primeira, recordo-me do que senti no último dia: “Não quero voltar. Fico aqui”.
Quando voltei, era como se tivesse crescido dez centímetros, feito Gulliver, e o mundo português tão pequeno…
Joy Division: apanharam como poucos a gótica melancolia da adolescência. Não convinha ouvir demasiado, muito menos perto de janelas abertas a grande altura, ou junto ao rio.
Um Eléctrico Chamado Desejo/ Há Lodo no Cais: descobrir Brando aos doze anos é perceber para que serve o sexo que temos, e o que temos de sexo.
Bruce Chatwin: ajudou-me a viajar para sítios que não ainda podia visitar. E escrevia tão bem…
Os Malditos de Visconti: incesto, ópera, nazismo, Ingrid Thulin, fratricídio e chamas por todo o lado. Visconti era o maior. Talvez ainda seja. Há algum filme mais perfeito do que Senso?
A Balada de Hill Street e Eu, Claudio: a chegada da televisão às ruas, no primeiro caso, à idade adulta, no segundo. No início dos teens, era uma descoberta todas as semanas.
A banheira de Mrs Brown: Antes que essas cabeças toldadas pela perversidade entrem em acção (the furious guys, not the beautiful girls), a Mrs Brown era uma descendente de saxões com noventa quilos, três filhos e um marido talhante com voz de trovão. Foi a primeira vez que estive fora de Portugal, sozinho, mais do que uma semana. Tinha dezassete anos e passei um mês em Chichester, a noventa quilómetros de Londres, sob o pretexto de um “curso avançado de inglês”. Foi avançado para mim, sobretudo as fugas para Brighton em estimulantes companhias.
Lembro-me como se fosse hoje, a última vez que me sentei na banheira de Mrs Brown a escrever uma carta para Portugal (ainda era o tempo em que se escreviam cartas), aos amigos que me aguardavam no Algarve:
“a Liberdade é isto”.

















História sem Heróis também está na minha lista. Uma daquelas histórias que sem antes nem depois ficam para sempre conosco. Ainda hoje tenho na memória a cara do pianista quando se fere na mão e protesta chorando pois a vida dele, fora daquela selva infernal (onde acaba por morrer penso), depende da saúde dos seus dedos. A masterpiece indeed.
Desculpem o atrevimento, mas sabem que o álbum “História sem Heróis” continua disponível para aquisição? É que fiquei com a ideia que não o têm e gostariam de matar saudades… Eu também conheci a história na revista Tintin e comprei na altura.
Um link é http://www.bdportugal.com/Comics/Shop/ix_Album.html
Cumprimentos
Paris e as luminhas, mais os Malditos (aquele casamento edipiano é monumental!) e Tarkovsky (como li o livro gostei muito do Solaris, mil vezes superior à moderna remise) parecem-me umas belas dumas maçãs.
Por razões de impacto inicial, o pós Barrett dos PF que mais me marcou foi o Dark Side e Atom Hearth Mother. Em 74, no meio de Angola, com erva às arrobas — acho que é fácil imaginar…
Pedro, que bela lista!
Estas suas memórias foram para mim como as cerejas, tal a quantidade de outras, minhas, que me trouxeram: a final de 1978, que vi também com o meu avô, os Joy Division, os episódios de Hill Street Blues (o que eu gostava da advogada … ), melhor só LA Law (creio que foi por essas mesmas alturas), a descoberta da luz única dos quadros de Turner, ss cartas e postais que se escreviam — e recebiam! — nas férias …
Young Peter, tu viveste isto tudo antes do 18 anos? E depois? Imagino que só tenhas feito coisas inconfessáveis! Grandessíssima lista.
Ah, fanático de listas como és, só pensas em ti, e esqueceste-te de passar a batata quente a outro defunto (ou defunta) do cemitério!!!
Adoro as listas que me fazem recordar…aos 9 ou 10 anos, confesso que tive uma certa dificuldade para compreender os tais Contatos Imediatos.Tudo aquilo ficou dias girando dentro da minha cabeça.E o máximo foi quando ganhei o tal brinquedo Genius, da Estrela.
Falando em Grutas, eu não era muito mais velha quando entrei na Gruta Azul, em Capri…eu me senti dentro de um conto de fadas. Aos doze anos a literatura era muito mais presente do que o cinema na minha vida.Acho que minha vida mais adulta começou somente aos 14 ou 15 anos…
As suas listas só me dão trabalho à ignorância!
há filme mais perfeito, sim — morte em veneza.
:-)