Erros meus, má fortuna, lailailai, ó drama..

Era suposto que escolhesse uma fotografia, ou pintura, desenho, a publicasse, e convidasse todos os ilustres mortos deste cemitério, e os rapazes também, a escrever uma short story a partir dela. Pensei, mal — o que, diga-se de passagem, é uma grandessíssima especialidade minha -, que teria de, por ser a proponente, juntar-lhe logo a história. Assim tipo, ai escolheste, então, vá, dá o o exemplo. Enfim, é como tudo: os erros corrigem-se.

Venho, agora, sim, propôr-vos uma fotografia do meu querido e irritante Boris Savelev , um russo de quando ser ucraniano era ser russo por ser soviético, de 1948, portanto. Querido Boris Savelev porque objectivamente faz nosso aquilo que nos é estranho e que o seu rigoroso olho capturou. Irritante Boris Savelev porque tem o hábito de contradizer aquilo que nós, não ele, vemos quando olhamos para aquilo que ele quis que víssemos. Boris Savelev acha por bem dizer-se, creio que pelo seu passado cheio de engenharia aeroespacial, um fotógrafo da luz e da forma, filho angular de outro construtivista. E as pessoas que o gostam, teimam em humanizar-lhe as imagens. A verdade é só uma, quer ele queira, quer não, as fotografias dele, até a das grades empilhadas e sombra, Container, de 1987, sendo de luz e forma, são de uma narrativa, por vezes, impactante. Deixo-vos uma das minhas preferidas para que, ao longo do mês de Maio, vos pretexte.

Comentários a “Erros meus, má fortuna, lailailai, ó drama..” (29)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Ó Eugénia, a santinha anda a uma velocidade que não há quem a agarre. Estava muito bem a escolha lá em baixo, com o seu conto, e a foto do japonês. Agora, deixo à sua soberaníssima decisão. Ou então a Joana Vasconcelos, sua fraterna companheira de floresta, que venha aqui e decida: a short story faz-se com a fotografia da floresta do japonês ou com esta, acima, do comboio suburbano?

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Manuel Fonseca, não me embarace.. já fiz o mea culpa.

    Esqueça-se a prodigiosa série de Yoshihiko Ueda, Quinault, à qual aquela fotografia pertence, e fiquemo-nos em acordo com as regras, lindo princípio organizador de tudo, com o comboio suburbano do tio Boris.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Ó, ó, isso é que era doce. Vai ter de ouvi-las. Agora só se salva se vierem em seu auxílio a Joana e o PN, (e neste não se fie muito, que ainda há pouco, deixou a Valentina a rabiar…)

      • Eugénia de Vasconcellos diz:

        O PN é o meu knight in shining armour desde as ameaças do PMS, nos tempos do Senhor Noite. Portanto não me venha cá envenenar contra ele por causa do que fez ou deixou de fazer à Valentina — isso é lá com ela.

        E a Joana também não precisa de provar nada, tem sido uma irrepreensível sister in arms.

  3. Joana Vasconcelos diz:

    DURA LEX, SED LEX
    Não costumo argumentar assim, mas desta vez tem mesmo de ser.

    De acordo com as regras definidas, é à Eugénia que cabe lançar o primeiro dos desafios em matéria de short stories com que nos vamos ter que haver ao longo dos próximos meses.

    Se o tema é uma foto, uma estrofe de um poema ou um jingle publicitário, se o desafio vem, ou não acompanhado já da história, se antes de começar a decorrer o prazo a imaginosa e criativa desafiante decide mudar de rumo e trocar-nos as voltas, após uma noite de sonho (com a história) e de pesadelo (com a perspectiva de escrever sobre aquele belíssimo tronco, para o qual só apetece ficar a olhar, horas e horas) — tudo isto cabe na noção de desafio, latamente considerado, como é próprio de mortos esclarecidos e de vastos horizontes que somos.
    Por tudo o que antecede, direi apenas que É À EUGÉNIA QUE CABE DECIDIR QUAL DAS FOTOS SERÁ O TEMA DO DESAFIO DE MAIO.

    Pela parte que me toca, gostei muitíssimo das duas fotos e acho que qualquer uma delas dará origem a fantásticas short variations sobre o tema. Só não proponho, salomonicamente, que fiquemos com ambas, à escolha, porque isso prejudicaria a unidade do tema que se pretende. Porque é mesmo o que dá vontade.

    EUGÉNIA, DECIDA, POIS.

  4. Turmalina diz:

    Oops…acho que acabei me empolgando com a primeira foto…rsss.…

  5. António Eça diz:

    Ruborizei!…
    O meu ‘toclas!’ faz sucesso!…
    Embora seja apenas uma testemunha activa, e talvez por isso mesmo, acho que a Eugénia deve impor o tio dela que é caucasiano, construtivista e chato.
    A razão é simples e a Joana Maria já a apresentou: o tronco é para olhar — mais nada.
    Ó Orcama: o comboio de Malange?! Muito ‘soit disant’, não?…
    É que em Fevereiro de 1975 fiz Luanda-Malange num combio de refugiados onde era o único branco, sentado no lavatório do «enorme» WC — que dividia com um casal e duas galinhas. A viagem de 200 Km demorou 14 horas, e eu converti-me a Deus e ao Demónio, alternativamente, um boa meia-dúzia de vezes.

  6. António Eça diz:

    Nunca maçará, Eugénia, sou um palrador compulsivo.
    Joana, lá ruborizei outra vez…

    • Joana Vasconcelos diz:

      Este extraordinário blog está de todo hoje: lá em cima um dragão verde, prestes a ser enterrado, aqui mais um que camaleonicamente, passa de azul a vermelho …

  7. Manuel S. Fonseca diz:

    Boa Joana. António foste muito bem caçado!!! Toclas

  8. António Eça diz:

    Engano puro e estapafúrdio!
    Só ruborizo em salmão.
    Quando estou constibado (cobo hoje, é só desgraças…) é tibo rosa-velho, bem, um bouco idoso.
    Nunca verbelho — de doença incurável…

  9. Orcama diz:

    Meu caro António Eça,
    Esses já eram outros tempos. Refiro-me a estes:
    http://www.youtube.com/watch?v=-EePRFjdZn4
    Ainda voltarei ao tema. Agora já começa a haver lá comboios com ar condicionado…
    E, inocentemente lhe proponho:
    Sente-se lá à mesa e conte-nos, escrevendo, essa sua estória do kamakouve (comboio ronceiro) de Malange.
    Para aperitivo, sirvo-lhe esta:
    Amiga minha, professora primária, teve a sua primeira colocação em Malange. Um dos seus alunos chamava-se Passageiro Baptista… Intrigada, quando encontrou a mãe dele procurou indagar a razão do estranho onomástico. Sorridente, mostrando os alvos dentes brancos, roçando placidamente um no outro os pés descalços, foi contando:
    –Foi no comboio de Malange… viajava um senhor… se chamava Baptista…
    –E…
    –Não, nunca lhe tinha visto. Nunca mais lhe vi também.
    –E depois? Inquiria a minha ainda teenager amiga.
    –Quando a criança nasceu, não podia ficar sem nome de pai…

  10. António Eça diz:

    Genial, Orcama.
    Também não sabia que se chamava ‘kamakouve’ — mas o nome parece-me bem.
    Claro que posso contar essa história, mas não tenho imagem para isso — o que é uma pena. Só tenho fotos como tropa, o que é um bocado narcisista (o que também não é coisa que me apoquente muito…).
    Mas a minha história é um bocadinho tensa…

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