Então, deixando-o, fugiram todos
Albrecht Dürer, Cabeça de São Marcos

Albrecht Dürer, Cabeça de São Marcos

A frase, lapidar e pouco abonatória para os discípulos de Cristo, aos quais se refere, surge-nos no Evangelho de Marcos, no relato da prisão daquele, após o beijo de Judas (Mc, 14, 50).

De Marcos, cuja festa litúrgica se celebra hoje, 25 de Abril, data provável da sua morte, sabe-se pouco: o seu nome próprio, João (Marcos seria apelido), e o da sua mãe, Maria, bem como o seu parentesco com Barnabé (eram primos). A casa da sua família seria um dos locais onde a primitiva comunidade cristã se reunia (Act, 12, 12). Terá começado por acompanhar Paulo e Barnabé nas suas viagens missionárias, tendo chegado a estar preso com o primeiro, em Roma (Act, 13, 5–13; 15, 37–39 e Col, 4, 10). Mas a sua ligação mais estreita e duradoura terá sido a Pedro que o refere, muito afectuosamente, como “meu filho”, numa das suas cartas (1Pe, 5, 13).  

O seu Evangelho é o mais curto e o mais antigo dos quatro sinópticos. Terá sido escrito entre os anos 50 e 70 e é fortemente inspirado pelos ensinamentos e pregações de Pedro, protagonista e testemunha privilegiada dos eventos que relata. De longe o menos elaborado do ponto de vista doutrinal (o que, durante largo tempo, o votou a um certo desinteresse dos estudiosos), o Evangelho de Marcos vale pela sua riqueza narrativa.

Marcos é, sobretudo, um contador de histórias, que enriquece com detalhes e pormenores episódios que nos surgem em Mateus, Lucas ou João de forma muito mais concisa e sóbria. É o único que contabiliza o número de porcos (dois mil) que formavam a vara que, atacada pelo espírito Legião se lançou ao lago, o número de vezes (duas) que o galo cantou, como previsto (Mc, 5, 12 e 14, 72). Apenas Marcos revela que Cristo era carpinteiro, relata a parábola da semente lançada à terra e o enigmático episódio do jovem que seguia Jesus embrulhado apenas num lençol (e que conseguiu escapar, nú é certo, deixando o lençol nas mãos dos que o haviam tentado prender) e que nos dá nota da preocupação das mulheres, a caminho do sepulcro, ante o peso da pedra que o fechava e que não julgavam ter força para remover (Mc 6, 3; 4, 26–29; 14, 51–52, 16, 3).  

Marcos mostra-nos um Cristo profundamente humano, com atitudes contraditórias e às vezes desconcertantes – ora é acessível, ora distante, ora acolhe, ora repele, tanto pede segredo sobre a sua identidade e os seus feitos, como manda apregoar os mesmos (Mc 8, 1–3; 4, 38–39; 10, 16; 8, 12–13; 1, 44; 5, 19; 13, 22). O que, a nós, crentes, mesmo sabendo-o verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, não deixa de causar alguma estranheza. Não custa imaginar o dificilmente compreensível que seria para os que então o seguiam de perto.  

É no retrato que nos faz chegar dos discípulos, que a Igreja venera como Santos, que o realismo de Marcos atinge o seu ponto alto. Crítico, por vezes implacável, Marcos é, acima de tudo, verdadeiro, no que nos revela das suas limitações e fraquezas, das suas hesitações e falhas. Do que neles era tocantemente igual a nós. Quem nunca hesitou diante do sentido de algumas parábolas e não sentiu o desânimo de Pedro diante da exigência e da radicalidade do compromisso que lhe era exigido, quem nunca teve vontade, pelos mais diversos motivos e das mais variadas maneiras, de deixar Cristo e a sua Igreja entregues ao seu destino e fugir (Mc 4, 10–12; 8, 31–33; 14, 50), que atire a primeira pedra …

Por tudo isto, o Evangelho de Marcos é aquele em que mais nos podemos rever. O que tem tanto de embaraçoso e constrangedor, como de estimulante, pois renova em nós a certeza de que é de mulheres e homens comuns que se fazem os melhores santos.

Comentários a “Então, deixando-o, fugiram todos” (4)

  1. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Desconhecia este 25 de Abril, Joana. Merci.

  2. Teresa Conceição diz:

    Os santos precisam de quem os aproxime e humanize. Obrigada por este retrato, Joana.

  3. pedro marta santos diz:

    Joana, já viu a série “Passion”, sobre os últimos dias de Cristo, agora a correr às segundas na Fox Next? Vale a pena, acho que ia gostar.

  4. Joana Vasconcelos diz:

    Eugénia e Teresa, obrigada.

    Pedro, não vi mas vou ver se vejo. Thks!

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