
Carole Bouquet, Cet Obscur Object du Désir
Sobre as artes em geral, e o cinema não escapa, como não escapam os romances, nem a pintura, há uma indústria da teoria que parasita as obras sem precisar delas. Faço-me de ingénuo e venho dizer-vos que, para mim, não há cinema, há filmes. E dentro dos filmes há cenas, plano, actores, um décor que nos esmaga, uma certa luz que nos arrebata. Depois, já menos ingénuo, confesso que não deixo, ainda assim, de ter uma teoria. Em boa verdade roubada a Truffaut e ao texto (os dele eram sempre bons) em que disse: “O cinema é fazer coisas belas a mulheres belas.” E é esta a teoria — a dele que faço minha.
Enumero algumas provas de indesmentível carácter científico:
a trémula e ingénua Lilian Gish do “Lírio Quebrado” de Griffith;
o calor torrencial da dança de Rita Hayworth na “Gilda” de Charles Vidor;
o amor obsceno e metafísico de Gene Tierney pelo fantasma de Manckiewicz;
o obscuro objecto do desejo que Buñuel descobriu em Carole Bouquet (ela tocou na minha mão e eu toquei na mão dela — for real);
a involuntária sexualidade de Marylin no “Pecado Mora ao Lado” de Billy Wilder. E paramos um bocadinho aqui, para ver se respiramos.

Marilyn, O Pecado Mora ao Lado
Parei, mas não acabei. Mais provas absolutamente científicas e indesmentíveis da “minha teoria”:
a luz intensa e mágica do olhar de Elizabeth Taylor em “Um Lugar ao Sol”;
os lancinantes pedidos de socorro de Natalie Wood em “Esplendor na Relva”;
os shorts brancos de Jean Seberg em “Bonjour Tristesse”.
Para levarem trabalho para casa, lmbro ainda: a Monica Vitti de Antonioni, a Fanny Ardant de Truffaut, a Anna Karina de Godard, a Liv Ullman de Bergman, a Loren de De Sica, a Nastassia Kinski de “Tess” e “Do Fundo do Coração”, a Grace Kelly da “Janela Indiscreta”. Todas as estrelas que os produtores amaram. O rosto, o corpo, os seios, as ancas de Ava Gardner, ponto final.

Ava Gardner, Mogambo

















Excelente texto! (uma ode, mesmo!)
Thanks Blonde!
Eu sempre faço uma prece de agradecimento a quem apresentou o protesto formal ao todopoderoso, que deixou de fazê-las assim, como apresentadas pelo Manuel. Ficou um pouco mais justo o mundo, embora menos interessante também. Ressalto, porém, a gritante ausência da Cardinale, Deneuve e da Bacall. Mas entre todas, “o rosto, o corpo, os seios, as ancas de Ava Gardner, ponto final” me parece muito bem dito.
Fico a esperar a teoria que inclui Newman e Brando, faz favor, Manuel.
Luciana, muito boas e excelentes coisas a câmara que tanto as amava fez à Cardinale, Deneuve e Bacall. E um dia falarei dos actores e das terríveis coisas que a câmara lhes terá feito.
Se a câmera lhes fez más coisas, sou grata, pois nem sei como andaria meu coração a bater se a eles tivesse feito bem…
Gostei desta sua tese, Manuel. Mas parece-me um bocadito datada nos exemplos. O filme mais recente que refere é, salvo erro, de 1982 (o do Coppolla). Não acredito que de então para cá não existam mulheres belas e que ninguém mais tenha feito cenas belas como as que irrefutavelmente suportam a sua tese. Decerto diferentes, mas igualmente belas. Fica o desafio…
Joana, resposta em dois tempos
Uno — só respondo ao seu desafio depois de responder ao meu sobre compositores e surdez!!! (como diria o Eça: tóclas!!!)
Due — Tem razão quando ao meu passadismo, e se me perguntar “poderá o Manel viver no cinema dos últimos 20 anos como viveu no cinema do passado?”, lá terei que responder: “Poder, podia, mas não era a mesma coisa.”
É imperioso fazer a devida justiça a esta senhora!
http://www.youtube.com/watch?v=fb1hVAwNquw
Não é lá por ter deixado cair o bâton que nos vamos esquecer dela…
E, mais modernas, mais modernas, sempre direi não ser pelos seus esquecimentos em matéria de lingerie que deixaremos de mencionar Sharon Stone…
http://www.youtube.com/watch?v=0iaLuIE_HMs
Não me enganei no link, não!… a cena é sobejamente conhecida, mas há outras…
Pode, entretanto, estar lançado o tema para mais uma listinha…
Erro imperdoável da minha parte no que se refere à Lana, também eu a esqueci!
Erro já “turneado”, cara Luciana.
A Lana bem que quis sorrir à vida, mas esta…
Mas er de muito carácter. Veja-se:
http://www.youtube.com/watch?v=8q7Z_cJGdnI
Vejo sempre que posso, gosto especialmente deste: Peyton Place.
a ava gardner tem (tinha) queixo rachado. voto contra.
Queixo rachado diz-se ser sinal de determinação e, agora fico sem-saber se devo mencionar o Kirk Douglas…
…kkkk…sim, Mr.Orcama, pode mencionar Kirk Douglas e uns tantos outros atores assim tão determinados :o)
Bravo, Manuel!!!!!
Esta aqui tb não poderia ficar de fora:
http://www.youtube.com/watch?v=_99e25pmd5c&feature=related
E este filme traz a versão mais moderna das divas:
http://www.youtube.com/watch?v=y_5_lzags3I&feature=related
Gosto muitos dos diretores italiano, embora seja fã incondicional de Truffaut :o)
Turmalina, eu aqui a guardar em silenciosa reserva meus amores pecaminosos por Anita, Marcello e pela decadência e tu os trazes assim, explícitos…
Me diz se o convite dela para que ele entre na água não é irrecusável…quando o chama pelo nome e com todas as letras…adoro esta cena!
Ah, Turmalina, não há dúvida que, em termos de convites e banhos, minha vida é ADV e PDV…
ADV e PDV?!…
Meninas de terras de Vera Cruz: aqui usam-se códigos e siglas, é verdade, mas todos têm de saber o que significam.
Quem não sabe é como quem não vê — e assim ficamos todos ceguinhos, o que é uma pena…
Perdoe-me, perdoe-me, são tantas as regras, não corar, não usar siglas…mas essas pareceram-me bem simples, não? antes e depois da doce vida…
Luciana, perdoe o lerdo que por vezes habita as minhas meninges…