António Gedeão
Queridos Mortos

           Foi por causa de um poema. Um sozinho. Quando o recito em voz alta, muito convicta, como quem conta uma história, extraio alguns sorrisos e perplexidades ( — que terá visto ela nisto?). Acho que nunca encontrei ninguém que o tivesse lido ou escutado, ou se lembrasse dele. Eu sei que é um poema curtinho e menor, comparado com os outros dele que tantas vezes se ouviram e foram cantados. Tantas vezes que se tornaram banais.

             Não foi por causa da edição da Poesia Completa, com desenhos de Júlio Pomar (que continua firme cá em casa no lugar de uma partitura de música). Gosto tanto desta edição, os desenhos que não foram feitos para estes poemas somam-lhes tanto. Conheci-o em edição prosaica e, na altura pré-adolescente em que descobri a escrita de António Gedeão, aquelas pontes poéticas entre ciência e vida comum abanaram-me. O segredo científico da lágrima era o cloreto de sódio, e assim se inutilizava o racismo; no íntimo do sonho estava a cisão do átomo, o radar, a geradora, o foguetão que desembarca na superfície lunar, liguei o poema ao Tintin, e ir dormir era a certeza de grandes aventuras sonhadas.

             Nunca soube nem fazia ideia, na altura em que li, de quem eram os Eles que não sabem nem sonham que o sonho comanda a vida da “Pedra Filosofal” de 1956. Nunca imaginei o poema como bandeira de luta para a geração reprimida, um tão aparentemente doce a dar força aos que se atormentavam com uma ditadura e guerra colonial intermináveis.  E durante a adolescência acabei por embirrar com as canções feitas para os poemas, com as rimas, com isto ou aquilo.

               Também demorei a saber que era Rómulo de Carvalho, cientista, professor, quem escrevia com outra assinatura. Chamou ao Homem um animal aflito e publicou o primeiro livro apenas aos 50 anos. E reencontrei-o nesta edição do ano da morte de António Gedeão, 1997, e reconciliei-me. Voltei a comover-me com os poemas que me tinham tocado aos 10 anos. E revi aquele, velho amigo, que tanto me surpreendeu naquele tempo.

António Gedeão, 1967

              É por causa deste texto que aqui convoco o poeta. O poema do poste revelou-me o que mais nenhum conseguiu: a descoberta científica dos locais secretos onde se escondem os dragões. E a cor verdadeira dos terríveis bichos: entre o ferro e a tinta verde, era uma cor muito difícil de fazer, porque fugia, rutilante-cintilante. Lembro-me de tentar desenhos elaborados das escamas e da cauda pontiaguda e sem fim. E de ter passado a olhar com um respeito muito alto para os postes.

              Não me safei: mais de uma vez distraí-me em busca de flores que não estavam lá e esbarrei no poste. E os embates comprovaram-me sempre a verdade do poema: o dragão escondido lançava-me fogo intenso na testa, antes de desaparecer, rutilante-cintilante.


                         Teresa  Conceição                                                                              

Comentários a “António Gedeão” (15)

  1. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Viu, Manuel Fonseca, como valeu a pena esperar acordado pelo Gedeão da Teresa?

  2. Teresa Conceição diz:

    Simpatia sua, Eugénia. Deve ser porque nunca teve um poste a ir ao seu encontro…

  3. Luciana diz:

    As coisas extraordinárias…realmente extraordinárias…e nada mais digo que vou em busca de operários, postes, dragões e versos que preciso conhecer!

    • Teresa Conceição diz:

      Luciana, espero que se divirta e emocione.

      Este meu querido morto viveu 90 anos, o alter-ego literário teve vida durante 40, com reflexões interessantes, muito cépticas e de ironia fina. Parece-me que tem sido muito esquecido por cá.
      É sempre bom conhecer um pouco dele.

  4. Joana Vasconcelos diz:

    Teresa, que boa escolha e que maravilhoso texto! Nunca, mas nunca mais vou olhar para um poste da mesma maneira! E, caso embata num (o que não é provável que deixe de acontecer…), não só tenho uma desculpa muito mais científica que a mera distracção, como o alto e escamoso motivo para a terrível dor que se segue a tornará muito mais suportável!

  5. Teresa Conceição diz:

    Joana, obrigada pelas palavras tão gentis.

    E é sempre bom munirmo-nos de todas as armas/desculpas contra postes-dragões escondidos…

  6. António Eça diz:

    Armas contra dragões?
    Não há. Desculpas sim…
    Gosto muito do Gedeão, acho que desde que ouvi falar dele. Em tempos de Zeca Afonso, no velho RCP do ‘Em Órbita’, que eu ouvia maravilhado sem perceber porque nem toda a gente partilhava do meu entusiasmo. Em 66/67 nada sabia de política — nem queria saber.
    E gosto cada vez mais dos seus desenhos, Teresa.

  7. Manuel S. Fonseca diz:

    Palpita-me que, em algum tempo, em algum lugar, há um poste entre o ferro e a rutilante tinta verde em que cintilam as tuas flores-escamas. Pode ser que seja dragão, arde sim, mas não queima e o Gedeão, se estiver a ver, há-de sorrir.

  8. Turmalina diz:

    Achei lindo o seu poste e mais linda a sua comunicação com o dragão que alí reside :o)

  9. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Teresa, já lho tinha dito: você escreve (e lê) muito bem. Mas este seu desenho, na verdade, é aquele pequeno poema melhorado.

    • teresa conceição diz:

      Gonçalo,
      assim deixa-me de rubor tão chamuscada que até parece que embati num dragão enfurecido!

      • Gonçalo Pistacchini Moita diz:

        Um dragão enfurecido é o António Eça. Não tenha medo que ele anda muito constipado, razão pela qual não poderá chamuscá-la. :)

  10. Orcama diz:

    Rutilante Teresa Conceição,
    Reverencio, p®ost®ado, este post postado em poste-poema-dragão
    em reconhecimento de António Gedeão.
    E, com deslumbre deixe que lhe peça…
    uma aguarela do draconiano António Eça.
    Ele reclama-se, bem sabemos, Portista
    mas Eugénia descobriu… tem alma de… Benfiquista!
    E faça-a assim de cor amarelada
    pele azul, escamada, fumaça avermelhada,
    pois amarelo é desespero
    por esta temporada sem esmero…
    Já o vermelho é cor de glória
    para que lhe fique de memória!
    E, muito dotada Teresa,
    disto tenha a certeza:
    esta é a paga com que fica
    pela sua ilustrada escrita.

  11. teresa conceição diz:

    So Dear Mister Orcama,
    sem artes para articular bela resposta,
    gosto das cores que tão bem reclama.
    E se nosso draconiano Eça não riposta
    tentarei um dia a vitoriosa aguarela em proposta…

  12. António Eça diz:

    O draconiano Eça riposta sim senhor!
    Mas qu’é lá isto?! Alma de lampião?!!!…
    Como é, Orcama? Largámos o gin e passámos directamente para o láudano, é?
    Qual Lewis Carrol, com Humptydumptyes às dúzias e Cheshires sorridentes em tudo que é esquina?…
    É?…
    Para seu governo todo o dragão é verde, mas não verde de tinta-laca barata do Sporting: antes um verde profundo de raiz de esmeralda, escamas a variar entre a malaquite e o ónix, e, dentro, no coração, um poderoso diamante azul.
    Não brinque.
    Teresa: é como eu digo, não vá em conversas da treta.

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