
Meinrad Craighead, Cântico dos Cânticos, 1966
Basta uma só memória tua para me contrair inteiro.
Respiro o ar, já na barriga revoltado,
E logo se me enche o peito, comovido.
Cai-me a cabeça para trás, um pouco.
O pescoço, levemente contorcido,
Transporta-me para um e outro lado.
Então, de olhos fechados, para te ver,
Procuro inspirar-te, devagar…
E estando consumado o respirar
Expiro deleitado por te ter.
Violentas são as horas da paixão!
Contrariamente ao hábito tranquilo
De um atarefamento quieto de surpresas,
Violentas são as horas da paixão…
Durante as quais ando eu, qual Salomão,
Pulando sobre montes e outeiros,
Espreitando a minha amada p´las janelas
E introduzindo-me na sala do festim,
De onde saio a correr, para lá de mim,
Saltando como o veado, ou as gazelas,
Por sobre todo o monte dos balseiros,
Feliz, sob o olhar da minha amada.
Pois só o afastamento me revela quem tu és:
A cor do teu cabelo,
O tamanho dos teus pés…
E logo de novo o desejo de em ti perder-me outra vez.
Tu trazes-me em desordem que não quis
Para um mundo onde posso ser feliz.
E é por isso, meu amor, que ando cansado:
É por isso, meu amor – por ser amado!
* Escrevo este post, com a devida autorização da minha mulher, acedendo a um pedido da Joana Vasconcelos feito, ali em baixo, num recomeço do Manuel S. (de Salomão) Fonseca.
















Fantástico, Gonçalo! Arrebatado e arrebatador, este seu poema tornou este blog ainda mais extraordinário. Muito obrigada — a si e à dona do mesmo — por o terem partilhado. Comigo e com todos os muitos que o vão desfrutar, encantados.
Que lindo Gonçalo. E aqui não temos nada de éguas atreladas à carros.
E mais lindo ainda é o princípio: ” Basta uma só memória sua para me contrair inteiro”.
Agradeço também à Sra Moita por permitir este compartilhar.