
Das pontes que sobrevoam o Sena, a Alexandre III é a minha favorita. Não admira: beirão e camponês, com duas décadas de trópicos, para mim tudo o que brilha é ouro.
Não foi em Paris, foi em Lisboa que, há 2 anos, soube o que acontecera. Não tive a mínima dúvida: à lenda dos 107 metros de comprimento desta ponte dourada que homenageia o czar de que herdou o nome, acabava de se acrescentar o mistério e a certeza da morte de uma princesa africana.
Katoucha Niane, nascida em Conacry, brilhou, a ébano, seda e prata, nos desfiles de moda dos anos 80. E mesmo eu, que sou resolutamente um rapaz sem virtudes, arrogo-me a capacidade e a imodéstia de lhe admirar a beleza. Katoucha tinha uma beleza prodigiosa. Real. Foi a musa inspiradora de Yves Saint-Laurent. Desaparecida no primeiro dia de Fevereiro, o seu corpo lindo e longilíneo apareceu a flutuar nas águas do Sena, no que deveria ter sido, não fora ser o ano bissexto, o último dia desse mês cinzento e frio.
A que propósito vem a lembrança desse dia já esquecido e gélido? Há um patético na ocorrência que toca a minha, e julgo que a vossa, masculinidade. Katoucha – essa mulher deslumbrante que aos 9 anos fora vítima de excisão – vivia sozinha num barco de luxo, ancorado num cais junto à ponte que, à noite, é iluminada por 14 candelabros de bronze. Terá, por acidente, caído ao leito gelado do rio que dá a Paris margem esquerda e margem direita. Não havia ninguém com ela, ninguém no rio, ninguém na ponte Alexandre III.
A solidão de Katoucha é o clamoroso anúncio do fracasso de todos os homens. Além de bela, era uma mulher inteligente, com personalidade forte. E deitava-se sozinha, num barco sumptuoso, em cima da palpitante cama de água que é o Sena.
Quero crer que vivemos um tempo de arrefecimento afectivo global. Em Paris, milhões de homens atarefados em jogos improváveis e, como diria o cronista Nelson Rodrigues se fosse vivo, “ela ali, erecta, numa solidão de Joana d’Arc”. Cabe-nos a todos, homens, uma fatia de culpa pela solidão que afogou esta mulher.
Katoucha habitava sobre as águas, ela que nem sabia nadar.


















Continue assim, senhor engenheiro. Os seus posts estão imbatíveis.
esqueci-me de lhe dar o número do meu telefone. Agora culpa não tenho, não posso acudir a todas.
Se a solidão de Katoucha é anúncio do fracasso de todos os homens, seus posts aqui têm vindo senão anistiá-los, pelo menos garantir duas ou três horas de sol no pátio interno. Não posso mais disfarçar, ando a rondar este blog mais de uma vez ao dia na esperança de coisas novas a deleitar-me. E sempre há. Ai de mim!
Borboleta, bater as asas, esvoaçar, pousar e voltar a voar é da sua condição. Se quer que a ordem do mundo seja a ordem do mundo, terá — ai de si — de continuar a ser assim. Nós agradecemos.
Young master Peter, you know that the force is only with you!!!
JNA, eu sei, sabemos todos: já fizeste mais do que prometia a força humana.
Bravo, Manuel, belíssima homenagem.