Foi uma óptima ideia do MSF. Que o JNA já tivera e há muito acalentava, mas in pectore. Extraordinários começos de belos livros. Gostei muito dos textos e dos inícios que escolheram. Apesar de um e outro terem incluído dois dos meus absolutamente preferidos — Pride and Prejudice (Jane Austen) e Rebecca (Daphne du Maurier).
Que fique, pois, bem claro que os começos que se seguem acrescem a estes dois, que estão muito bem onde estão, mas que é como se estivessem também aqui.
A story has no beginning or end: arbitrarily one chooses that moment of experience from which to look back or from which to look ahead (The End of the Affair, Graham Greene). Gosto muito deste surpreendente começo, e muitíssimo do que se lhe segue. One of my favorite books, ever.
Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself (Mrs Dalloway, Virginia Woolf). Excelente a tranquila simplicidade deste princípio, que de modo algum nos prepara para a fabulosa intensidade do que vem depois.
No era el hombre más honesto ni el más piadoso, pero era un hombre valiente (El Capitán Alatriste, Arturo Pérez-Reverte). É assim, na voz do fiel, sensato e também valente Iñigo de Balboa, seu escudeiro, que começa a primeira das fantásticas histórias do capitão Alatriste. Foi aqui também que começou o meu encanto com as mesmas, que ainda hoje se mantém.
Naquele lugar a guerra tinha morto a estrada (Terra Sonâmbula, Mia Couto). Gosto dos começos do Mia Couto. Porque me tocam profundamente, como este, ou porque me apanham de surpresa. Difícil, sempre, é parar.
The first Wednesday in any month was a Perfectly Awful Day – a day to be awaited with dread, endured with courage and forgotten with haste (Daddy-Long Legs, Judy Webster). É o delicioso início de um delicioso livro que me acompanha desde os treze ou catorze anos. Não o empresto: comprei um para as minhas filhas. Não é esta a única parte que fixei. Mas é certamente a que mais utilizo. Quantas vezes, de véspera, antes de adormecer, ou no próprio dia, quando toca o maldito despertador, me ocorre que, pelos mais variados motivos, lá vem um Perfectly Awful Day. E posso garantir que me basta lembrar este trecho e recitar mentalmente a receita da extraordinária Judy para a coisa parecer logo menos negra…
Meu avô foi o padre Rufino da Conceição, licenciado em Teologia, autor de uma devota «Vida de Santa Filomena» e prior da Amendoeirinha. Meu pai, afilhado de Nossa Senhora da Assunção, chamava-se Rufino da Assunção Raposo – e vivia em Évora com minha avó, Filomena Raposo, por alcunha «a Repolhuda», doceira na Rua do Lagar dos Dízimos” (A Relíquia, Eça de Queiroz). Não é o meu Eça preferido, mas é absolutamente irresistível. Logo desde este princípio.
Termino com o belíssimo começo de uma das mais adoráveis histórias para crianças que conheço. Certamente a que mais vezes li às minhas filhas. E das primeiras que elas quiseram ler, sozinhas. Sei-a quase de cor:
Era uma vez uma casa branca nas dunas, voltada para o mar. Tinha uma porta, sete janelas e uma varanda de madeira pintada de verde. Em roda da casa havia um jardim de areia onde cresciam lírios brancos e uma planta que dava flores brancas, amarelas e roxas (A Menina do Mar, Sophia de Mello Breyner Andresen).
Sempre achei, ainda hoje acho, que um dia vou ter uma casa assim. Tal e qual. Só as flores é que em vez de amarelas e roxas serão vermelhas. E talvez também cor-de-rosa.


















Tem toda a razão, Joana, esta coisa de como as histórias começam tem tudo que se lhe diga.
Nas suas escolhas encontrei três coincidências veneráveis: o Alatriste, que o meu irmão Zé Maria me está constantemente a sugerir — aliás, tudo do Pérez-Revert -, e que eu talvez ainda não tenha lido por coeva resistência a sugestões (um péssimo hábito, reconheço); depois vem a minha querida Relíquia, o meu primeiro Eça desvirginante, que continuo a adorar com uma fé de autêntico cristão-novo (detestava ter de enganar um pateta como D. Manuel I); finalmente, a coincidência das coincidências, A Menina do Mar.
Acontece que essa casa com uma porta e sete janelas, a partir da qual Sophia ergueu o universo ribeirinho da sua protagonista, existe de facto. Ainda. É hoje um edifício muito descaraterizado por obras de vário teor, e fica na ponta sul da Esplanada da Granja. A Sophia alugava essa casa para férias nos finais dos anos quarenta. Já em 50 o meu pai alugou-a e lá viveu até eu ter quatro anos. E eu nasci lá, no primeiro andar, no dia 30 de Setembro de 1952.
É esta a coincidência…
António, que fantásticas estas suas coincidências! Sobretudo a última! Que máximo ter nascido naquela casa que aparece naquele livro… Isso faz de si um bocadinho o rapaz que passeava na praia… É lindo!
Faça o que o seu irmão diz. Leia os livros do Capitão Alatriste. São uma delícia, as aventuras, o ambiente da Madrid dos Filipes, os comentários, sobretudo os comentários, do narrador, as figuras que se cruzam com o herói e o seu ao longo dos vários livros … Lope di Vega, Francisco de Quevedo, … Depois diga-me se gostou.
Sabe que a Relíquia é dos Eças preferidos da minha mãe? Suponho que por ser de outra geração e ter sido ainda exposta a muito daquele horror de beatice… Foi com ela que li o começo … Lembro-me de fazermos isso com os primeiros Eças que li. Eu era muito miúda. Começávamos juntas, a minha mãe mostrava-me passagens mais divertidas, para me motivar, suspeito. Lembro-me de fazer isso com a Cidade e as Serras, e as cenas do D. Galeão e do peixe no elevador e da outra que do decote para baixo não se sabia de que cor era. E com a Ilustre Casa (o fidalgo de chinelos trabalhando também é um excelente começo …). O problema é que depois embalava e era uma dificuldade para lhe tirar o livro. Com a Relíquia foi um horror …
Joana: Lendo esta magnífica colheita de frases debutantes, ocorreu-me uma ideia: tudo o que vem a seguir num livro já está inscrito no início, como se toda a história coubesse nestas poucas linhas. Será este o segredo dos começos fulgurantes?
Acredito que seja. Por alguma razão qualquer um de nós três escolheu começos fulgurantes de livros de que gosta/gostou muito. E isso parece-me muito nítido em todos os exemplos que demos. Mesmo naqueles que aparentemente parecem não ter que ver com o que se segue (Mrs. Dalloway e End of the Affair) afinal têm e não parece que pudessem ser diferentes.
Hoje, durante o dia, ocupada com outras coisas, enquanto pensava nos começos que iria escolher, dei por mim a pensar se haveria algum livro de cujo começo me lembrasse e de que não tivesse gostado. Creio que o único caso que me ocorreu — o entediante Menina e Moça — confirma a sua ideia: lembro-me da frase, não por ter gostado de coisa alguma nela ou no livro, mas de tanto ter sido matraqueada com a mesma nas aulas de 11º ano …
E sabe, Joana, até tenho um conto onde essa casa conta pequenos segredos da minha vida ali, as peripécias do meu pai — que era mais zuca que nós todos juntos — e algumas descobertas do Mundo que ia surgindo misterioso à minha frente. E começa com o personagem a reclamar que, tal como a Menina do Mar, também ele tinha nascido numa casa com uma porta e sete jenelas…
Curiosamente eu acho que a Relíquia é mais do que uma sátira social, aquele voo nocturno com o Topsius soa-me hoje a coisa bem mais séria — apesar de sumptuosamente camuflada.
Serei fã do Eça até morrer.
Deixo-lhe (em tradução…) uma adivinha sobre a melhor literatura juvenil de todos os tempos:
«Il était une fois un gamin d’environ quatorze ans, grand, dégingandé, avec des cheveux blonds comme de la filasse. Il n’etait pas bon à grand’chose. Dormir e manger étaient ses acccupations favorites; il aimait aussi à jouer de mauvais tours.»
Uma pista óbvia: é Nobel…
António, não me diga que esse conto, como o texto do milhafre com a asa consertada, consta do famigerado livro de Lisboa vs Porto, que não há maneira de conseguir encontrar (lousy a distribuição dessa sua editora…). Existe alguma fotografia da casa na net, de que me possa colocar aqui um link? Fiquei curiosa depois de tudo o que me disse ontem, embora suspeite que a imagem que sempre prevalecerá é a que há decadas criei para mim …
Quanto ao Eça, that makes two of us. Ontem, por causa do post, fiquei até às quinhentas agarrada à Relíquia, a reler bocados… Não aquela de que fala (vou ver …), mas outras, que me deliciam. E nem imagina as vezes em que, no meio de certos labores académicos mais densos e árduos eu lembro — melhor diria me sinto como — o Topsius e o seu (dele) erudito avô e do Tratado em oito volumes sobre a Expressão Fisionómica dos Lagartos …
Selma Lagerlöf, of course! Li as aventuras do adorável Nils in illo tempore. Não o tenho, porque acho que o livro era de um dos meus tios, estava em casa dos meus avós. Vou já resolver isso. A minha filha Joana, das três a mais endiabrada, vai adorar… Que bela lembrança! Thks!
Você sabe tudo, Joana. Suponho que a fisionomia dos lagartos descortina-a nos seus alunos sportinguistas, não?…
Da casa: não tenho nenhuma foto, nem antiga, porque hoje não justificaria. A história onde ela aparece não é desse livro — que pode encomendar no site da G&P (com desconto, presumo eu) — mas sim dum livro chamado ‘Contos Acrónicos’, que suponho esgotado. Mas eu tenho a história em arquivo e posso mandar-lha que esta não é G&P — logo não está sob a alçada satanista do MSF. Tem um mail mostrável?
António, não o sabia tão rancoroso … uma semana depois e ainda a remoer … Confesso que não esperava isso de si … Que mau perder!
E acha que eu sei ou posso sequer saber a filiação clubística dos meus alunos? Ou eles das minhas simpatias? O que seria! Lá se me iriam a seriedade, a gravidade e a isenção …
O Manuel nunca me irá perdoar esta confissão, mas a titi Patrocínio conheço-a d´A Relíquia, como todos, mas também das conversas antigas dos meus avós do Campo, pois que era tia dos meus avós maternos, mais precisamente da minha quarta-avó, tendo mesmo uma irmã da minha quinta-avó vindo a substituí-la, por ocasião da sua morte, junto do seu marido, entretanto viúvo, nas delícias do casamento. O assunto é, portanto, constrangedor, até porque, segundo consta dessas familiares conversas, os relatos do avô do António Eça não foram, neste caso, assim muito exagerados. Fique ao menos a certeza de que, independentemente do que maldosamente possa alguém vir a dizer, a sua religiosidade não resultava do facto de fumar coisas esquisitas.
Gonçalo, mas que ignorância a sua! Credo!
Então a Titi não andava sempre pedrada de incenso?! Aquilo era só visões dantescas!
Pudera…
António, isto poderá até parecer desculpa a la Bill do Patrocínio Clinton, mas o facto é que, mesmo admitindo que estivesse pedrada de incenso, a senhora não fumava.
Gonçalo Cristóvão e António Benedito, isto está a começar a descambar perigosamente … olhem lá o respeitinho pela Senhora Dona Titi que se de facto inalava — e tudo leva a crer que o fazia — se atinha ao cânon das substâncias lícitas … Nada de censurável, portanto, seus ímpios!
Joana…que adorável lista.Sou também fã do Eça e ainda pretendo ler o Mia.Eu já disse que quando estiver por aí terei de perder-me por algumas horas numa livraria. Fim de caso é um dos meus filmes favoritos. Vou ler o livro, juntamente com o Leitor, que já está na minha lista.Fiquei encantanda com A Menina do Mar..esse eu não conhecia.E Dona Titi me parece mesmo uma senhora acima de qualquer suspeita…rss…
Olá Turmalina! Fico contente por ter gostado!
Estava eu a pensar em si e no seu filho e em como lhes fazer chegar a Menina do Mar e … milagre de São Google, encontrei uma versão integral disponível na net (http://www.minerva.uevora.pt/web1/desafios/Menina_do_Mar.pdf). Espero que gostem … :)
Obrigada, querida!!!
Joana Maria! Não me diga que não reconhece um lagarto à distância!
É assim como um dragão, mas em pequenino, sem asas ou hálito fosfórico (tem-se visto, aliás, os jogadores do FCP andam todos intoxicados com o bafo uns dos outros…) O tratador anda a exagerar no enxofre, é o que é!
Da Titi: ela não fumava, é certo. Mas inalava, como bem lembra a Joana — que só não faz ideia se o incenso pedra ou não porque nunca esteve uma vida toda a inalá-lo com persistência.
Ou seja: não há prova científica que a Titi não andasse permanentemente pedrada…