Uma escrita miudinha

Talvez ninguém queira entrar num quarto escuro se souber que está em Jerusalém. Mas é num quarto escuro que estão, e pela primeira vez podem ser vistas publicamente, as 46 páginas manuscritas por Albert Einstein para expor a sua teoria da relatividade, que hoje é tão nossa por muito pouco que, diga-se a verdade, a compreendamos, e por outro tanto que, nos gestos quotidianos, sobranceiros a ignoremos. A menos que comecemos a beijar-nos e a fazer outras carinhosas coisas a uma velocidade superior à da luz e, nesse caso, comecem na nossa apaixonada mente, a surgir dúvidas quanto a, do ponto de vista da amada boca, estarmos em absoluto repouso ou em relativo movimento. (Isto está tudo errado, já sei, sem uma palavra que seja sobre a forma como os campos gravitacionais, e são tão fortes os de dois amantes, afectam o tempo e o espaço, mas é sabida, neste blog, a minha tendência para a leviandade e fraco humor).
Para que conste, e por causa de um paper intitulado “Sobre a Electrodinâmica dos Corpos em Movimento”, faz exactamente hoje 115 anos que aquela icónica e wharoliana cabeça com língua de Mick Jaeger publicou a sua “especial teoria da relatividade”.  O que me impressiona, nas fotos que vi, é a impecável e rigorosa organização da escrita de Einstein. Alinhadinha, miúda e segura, apoiada em esboços e desenhos a roçar o perfeccionismo, o que assegura aos manuscritos um valor estético de que Einstein era particularmente orgulhoso.

Comentários a “Uma escrita miudinha” (4)

  1. Luciana diz:

    Quedei, de repente, a imaginar um beijo que fosse a uma velocidade superior à da luz;não sei se farei outra coisa no restinho do domingo a não ser brincar com essa idéia…

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Peço desculpa pela lembrança. A coisa, de frenética, é assustadora. Julgo que só mesmo Einstein poderia estar interessado.

  3. Pedro Norton diz:

    A amada boca tem ponto de vista? está aqui está a fumar.

  4. pedro marta santos diz:

    Nessa letra miudinha inscreve-se a terceira revolução do pensamento humano moderno depois de Newton e Darwin. Quando chegará a quarta?

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