RAÇA

Dizem-me que James Spader é excelente numa série de televisão chamada “Boston Legal”. Nunca a vi mas sei agora que também por lá andam o velho Capitão Kirk e outros extraterrestres de nota. Do James Spader, lembro-me de uns “teenage flics” que fez nos anos 80, um “Less then Zero” que não sei porquê mas que me ficou na memória (na altura tinha-me impressionado o livro e estava lá também o espástico, Robert Downey Jr.) e claro está o filme de que fala o Diogo aqui.

Decidi por isso, ir vê-lo ao vivo em “RACE”. A peça, a última de David Mamet, debruça-se sobre o tema preferido do autor, ou seja, a identidade no labirinto ético (embora esteja inteiramente de acordo, não sou eu que o diz, mas o PMS), e está lá para ser vista no Ethel Barrymore Theatre em NYC.

RACE segue alguns dias da vida de três advogados, dois negros e um branco, que, um rico e bem sucedido homem branco acusado de ter violado uma rapariga negra, contrata para sua defesa. À medida que os três advogados e o acusado, se vão envolvendo no caso, os preconceitos e estereótipos de cada um vão-se revelando e ao espectador é-lhe servida, numa sucessão de diálogos rápidos e incisivos à boa maneira de Mamet, uma teia labiríntica onde o elemento racial vai tomando cada vez maior peso na forma como cada um se posiciona em relação ao outro. Spader é o advogado objectivo e implacável, sem ilusões sobre o verdadeiro propósito da sua profissão e que inicialmente encara a raça dos seus sujeitos como mais uma variável com a qual jogar ao jogo dos espelhos (…There are no facts of the case. Just two fictions…). David Alan Grier é o advogado negro que nutre por todos os outros “niggers out there” uma enorme desconfiança e que se revela um realista obsessivo, face às pretensões de isenção de Spader. Richard Thomas é o homem branco desejoso de fazer o que é justo, imerso em complexos de culpa e que não chega nunca a compreender o peso da sua própria raça nem da sua condição, na situação delicada em que se encontra. Kerry Washington é a verdadeira heroína desta farsa Mametiana, que se remete voluntariamente ao papel secundário de jovem advogada recruta, mas que é afinal quem, no seu pragmatismo de iniciada, lê o que há a ler nas entrelinhas da realidade e que a todos suplanta à queda do pano.

Mamet afirmou sobre a peça que “the theme is race and the lies we tell each other on the subject.” RACE não foi particularmente bem recebida pela exigente crítica de NY, mas eu gostei. Achei RACE uma irónica e bem construída sátira sobre a forma como somos meros veículos dos nossos preconceitos, da nossa educação e sim, da nossa própria raça. Talvez tenha gostado ainda mais porque não vou ao teatro tanto quanto devia, e porque esta é, e será sempre, a mais intensa forma de viver, na segunda pessoa e escondido no anonimato do público, as emoções puras da vida dos outros.

PS: Confesso que neste caso em particular, e a determinada altura, tive alguma dificuldade em perceber se estava de facto a ver teatro, televisão ou cinema. Curiosamente, o próprio genérico publicitário que encontrei, não ajuda muito a fazer essa mesma distinção.

Comentários a “RAÇA” (2)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Vasco, o Boston Legal é obrigatório. Uma delícia de diálogos, de guiões soberbamente escritos e filmados com a agilidade das melhores séries americanas. O James Spader e o William Shatner criam uma dupla masculina, de amizade british que é às vezes americana, imperdível.
    A Race tem, pelo que dizes, e pelo perfume do trailer, muito bom ar. Um ar mamet que é dos mais respiráveis.

  2. José Navarro de Andrade diz:

    promete.

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