Em 1899, Joseph Conrad, estimado marido, arrancava com The heart of darkness, ao seu jeito de pedra na água, o jeito dele, a traçar o caminho mais curto entre a superfície clara e o fundo escuro: The Nellie, a cruising yawl, swung to her anchor without a flutter of the sails, and was at rest. The flood had made, the wind was nearly calm, and being bound down the river, the only thing for it was to come to and wait for the turn of the tide. Eu não era nascida. Porém, diante disto, pensei logo em nascer. Não pude, no entanto, por absoluta falta de ainda desinventados pai e mãe.
Em 1951, Graham Greene, estimado marido, arrancava com The end of the affair, ao seu jeito exacto, o jeito dele, de osso limpo: A story has no beginning or end; arbitrarily one chooses that moment of experience from which to look back or from which to look ahead. Eu não era nascida. Pensei, por ser absolutamente impossível impensá-lo: gostava tanto de ir comprar a primeira edição.. Mas qual o quê?! Tive de conformar-me ao estado de incriada. Que nervos!
Em 1944, Dylan Thomas, marido apenas de Caitlin McNamara — tão mau marido, tão muito amado, tão bom amor mal amado dos dois que ela terá dito no hospital, quando ele já moribundo: Is the bloody man dead yet? -, começou a escrever Under Milk Wood. Entregou a versão final, 9 anos depois, à BBC que, em 1954, e pela voz de Richard Burton, me fez pensar seriamente em nascer, desse por onde desse! Não consegui: apesar do meu pai já ter idade para ser pai, a verdade é que a minha mãe tinha, e teria ainda por bastante tempo, idade para ser mãe só de bonecas. Não fez mal. O YouTube guardou para mim. Passa-se tudo nos primeiros 30 segundos. Assim é mais fácil acompanhar: To begin at the beginning: It is spring, moonless night in the small town, starless and bible-black, the cobblestreets silent and the hunched, courters’-and-rabbits’ wood limping invisible down to the sloeblack, slow, black, crowblack, fishingboatbobbing sea.
















Eugénia, mais do que os fantásticos começos, o que me deliciou mesmo neste seu texto foi a ideia de uma criatura ávida e impaciente, a querer a toda a força nascer para, de imediato, devorar estes e outros livros, e a ser sistematicamente confrontada com a enervante falta dos mais básicos pressupostos … problema insuperável ao pé do qual a iliteracia dos primeiros anos (no seu caso três, no máximo, suponho?) seria coisa de pouca monta …
Queria saber ler sozinha, quando quisesse, os livros que tinha de pedir que me lessem quando fosse possível. Um horror a falta de autonomia leitora. Durou pouco.
Excelente. Que começo! Era de bakelite,de um castanho profundo.
“Era de bakelite, de um castanho profundo”, Maria? Fiquei toda em branco.
O rádio Eugénia.
Perdoe.A hora era tardia e a imagem ultrapassou a escrita.
Sabe o que eu ouvi saindo de outro talvez bakelite, mas não de um castanho profundo, escondido debaixo das mantas, onde já estava a lanterna também de pilhas e o livro? “O retrato de Ricardina”, noite após noite, de segunda a sexta, a segurar nas pálpebras para não adormecer. Faziam alterações ao livro, os danados, e eu em suspenso, sabendo tudo do lido sem nada saber do por ouvir.