Os dias da Rádio

É um hábito velho de trinta anos isto de dever à rádio a melhor música que ouço. Começou logo no início dos 80´s com o Rock em Stock do Luís Filipe Barros e o Rolls Rock e depois o Som da Frente do António Sérgio. Tive a sorte de, a partir dos 14 anos, me terem poupado a aulas à tarde e de ter tempo de sobra naqueles tempos de teenager para não perder um minuto de Rock em Stock, entre as 4 e as 6 da tarde, de segunda a sexta. E à noite, sempre que podia, entregava-me de corpo e alma à liturgia dos sons de António Sérgio. Rara era então a semana em que não surgia um novo culto no meu imaginário musical, que depois alimentava com trocas de informações (só mesmo de informações, porque os discos ou não chegavam ou só chegavam cá com atrasos consideráveis) com um ou outro amigo que comigo partilhava os mesmos rituais de ouvinte fiel. Havia também o distinto Morrison Hotel (do Rui Morrison, que depois trocou a rádio pela representação) e, já na segunda metade da década, o elegante Sete Mares da Sílvia Alves e a maravilhosa Ilha dos Encantos de Amílcar Fidelis que me acompanhou em tantas horas de preparação para os exames universitários (o que andarão a fazer, ela e ele, com a sua voz sedutora e o seu bom gosto musical?). Com excepção do Rock em Stock, com um pé no mainstream, e do Morrison Hotel, que pescava em águas mais clássicas, eram todos muito originais, alternativos e indie, sem concessões de espécie alguma a play lists e com um orgulho quase arrogante nas diferenças que apregoavam.

Mais tarde, embora os meus hábitos de ouvinte se confinassem cada vez mais aos momentos de trânsito passados no carro, não deixei de acompanhar o fenómeno XFM nos anos 90 – a primeira rádio totalmente dedicada a sons alternativos — e a portuense Voxx já neste século, que deu nas vistas, ainda, pelos seus jingles autopromocionais (“uma rádio amarela num país cinzento”, “emissora caótica portuguesa”, “uma imensa minoria”, “sou pecador e tu vais-me tramar, não vais Deus?”, etc.).

Hoje em dia, rendo-me incondicionalmente à Radar, que emite na frequência 97.8  (apenas em Lisboa e arredores, embora alguns programas estejam disponíveis em podcast no Blog Radar aqui), um exemplo de uma rádio de excelência concebida por Luís Montez (o mesmo da XFM) e feita praticamente sem publicidade (e a pouca que existe, dirigida aos mercados culturais). A música reina e, uma vez mais, longe dos tops, das play lists e do ruído mediático da grande indústria. António Sérgio, claro, esteve lá até morrer e lá continuam uns quantos seguidores seus (incluindo a viúva Ana Cristina Ferrão) com a mesma vontade de divulgar as promessas emergentes e os já consagrados que se mantêm inventivos. Há espaço também para o passado, através da recuperação de temas e bandas que deixaram marcas para as gerações que se seguiram. E há muita informação sobre aquilo que ouvimos, em rubricas como o “Álbum de Família” de Tiago Castro (onde, todas as semanas, um álbum “histórico” é dissecado tema a tema durante uma hora e meia) e o “Lado A” de Nuno Galopim (no qual se vai buscar ao velho baú das recordações um single quase esquecido) e em programas como “Discos Voadores” (de Nuno Galopim também) e “Vidro Azul” (de Ricardo Mariano). Temos ainda o prazer de ouvir as excelentes entrevistas de Inês Menezes a gente do mundo da cultura no “Fala com Ela” e a voz charmosa de Joana Bernardo no “Bairro do Amor”. E os democráticos “Hora do Bolo” e “Repeat”, onde os próprios ouvintes (obviamente após uma selecção criteriosa) podem apresentar as suas preferências musicais, no primeiro caso durante uma hora e no segundo através do tema que andam a ouvir em “repeat”.

Mas chega de palavreado e vamos mas é ouvir uma amostra da Radar. Como esta que ouvi ontem, a do fabuloso Birthday que os islandeses Sugarcubes gravaram em 1988. Para os menos atentos: a voz feminina que ouvem é mesmo de Bjork, então com pouco mais de vinte anos e ainda longe de se transformar na grande diva da pop que é actualmente.

  

Comentários a “Os dias da Rádio” (2)

  1. Vasco Grilo diz:

    Já me tinha esquecido de uma serie de programas de rádio que referes. Fantástico.
    Perdi o rasto dos bons programas de radio em Portugal apartir de 92. Mas concordo que o Som da Frente continua a ser para mim o melhor programa de radio de todos os tempos. Talvez porque tinha 15 anos. Talvez porque o António Sérgio andava mesmo à frente.

  2. teresa conceição diz:

    Nem era possível não reconhecer a Bjork, mesmo muito distraída. É uma voz distintiva. Como a do António Sérgio. Destacam-se e reconhecem-se entre milhares.

    Que bom ter convocado aqui estas recordações radiofónicas, Diogo. Acompanharam e distinguem gerações.
    Agora rádio é só mesmo no carro, e vou variando muito. A Radar conheço mais à noite, do Fala com Ela.
    Vou passar a prestar atenção noutros horários.

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