João Cabral de Melo Neto (1920−1999) em foto da década de 60
Joaquim
Agora, penso em Joaquim, que não teve tempo de pensar em mim. Ou em você. De ser meu amigo. Ou seu. Porque andava tão obcecado por Lili que se matou.
O caso não é novo. Foi primeiro noticiado (ou proposto) por Drummond em seu célebre “Quadrilha”. E depois admiravelmente glosado num registro de solilóquio por João Cabral. Cabral, que talvez seja o mais espesso poeta das Américas no passado século. E quem o diz não somos nós. Autoridade não temos para tanto. Mas, entre outros, o poeta norte-americano Robert Creeley (1926−2005) ou o poeta e compositor brasileiro Vinícius de Moraes (1913−1980) — este último quase sua antítese, tanto na vida quanto na obra: derramada, sentimental.
E o antisentimentalismo de Cabral pode, por vezes, ser saborosamente engenhoso. E seguir na contramão do temperamento carnavalescamente sentimental dos brasileiros. Uma espécie de antídoto lúcido. Uma reserva de consciência, como, antes dele só se vai encontrar em prosadores. Prosadores da estirpe de um Machado de Assis, de um Euclydes da Cunha, de um João Guimarães Rosa, cujas sombras estendem-se por todo o universo de língua portuguesa e muito além.
Há um bolero extremamente popular entre boêmios cuja letra começa justamente assim: “Sentimental eu sou,/ Eu sou demais […]” Cabral é a antítese disto. É o poeta da anti-música. Mas que dela extrai uma música própria e exigente. Especialmente pela destreza com que joga com as rimas toantes, um de seus dons mais ressaltados. E, no entanto, é impossível abstrair-se de toda uma atmosfera. Do ar que se respira à volta. Tão barroco, tão sentimental, tão derramado. E, se há um momento em que Cabral deixa a guarda cair, é nessa glosa do “Quadrilha” de Drummond, que se chama os “Três Mal Amados” (pois contem também os “depoimentos” de João e Raimundo). Porém no qual, de longe, a fala mais bela é a de Joaquim, o suicida.
Abaixo o transcrevo o poema de Drummond e o excerto de Joaquim nos “Três Mal Amados” de Cabral:
Quadrilha
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
[Carlos Drummond de Andrade]
[Extraído de Alguma Poesia, Editora do Autor, Rio, p. 26]
Joaquim:
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
[João Cabral de Melo Neto]
[As falas do personagem Joaquim foram extraídas do poema “Os Três Mal-Amados”, constante do livro “João Cabral de Melo Neto — Obras Completas”, Editora Nova Aguilar S.A. — Rio de Janeiro, 1994, pág.59.]
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Que bonita lembrança e jogo de textos, Ruy.
Esta quadrilha é muito conhecida e citada por aqui.
Eu é que não conhecia este Joaquim do João Cabral de Melo Neto, e gostei muito.
Eu pecador me confesso e arrependo-me. Eu pecador me confesso e penitencio-me. Vou voltar a ler os poetas brasileiros, Murilo, Drummond, Mello Neto. Em Luanda, terá sido em 70, comprei uma Nova Antologia da Poesia Brasileira (organizada por Fernando Ferreira de Loanda, poeta também e auto-representado) que levava para todo o lado. Tinha estes e Gullar, Ayala, Ledo Ivo, Darcy Damasceno, Bueno de Rivera e não tinha Vinicius, nem os joyceanos manos Campos. Tenho de reencontrar o objecto.
Então e a minha Adélia Prado? Dá-lhe sopa?! Veja lá bem o que faz que não lhe perdoaria tal desfeita..
eugênia, não há desfeita. gosto de adélia. e não pouco. aliás, conheço-a pessoalmente, muito de passagem. mas ainda não sei se ela fica. como lispector ficou na prosa. há uma mineira discípula dela em q ponho fichas. garota ainda, inédita em livro: mariana botelho. // ivo, damasceno e rivera são, com o perdão da palavra, um saco, manuel. dos “campos brothers”, augusto parece ser o mais interessante. como tradutor, então, não tem igual. aliás, o outro consorciado a eles e ao concretismo, décio pignatari, foi meu professor e co-frequentador da choparia cristal, onde tomamos boas cervejas, no bairro das perdizes, em são paulo, vão-se uns dez anos. gullar é irregular, mas há boa poesia em alguns de seus livros. há poetas do modernismo q só agora começam a ser valorizados e, de fato, lidos, gente ainda da geração de drummond: dante milano, rui ribeiro couto e joaquim cardozo. p. ex. gosto desse trio. e mto especialmente de cardozo. recentemente suas ‘obras completas’ foram editadas pela nova aguilar. mário faustino morreu muito jovem, na década de 60′, mas é um poeta interessante. manoel de barros, o matogrossense, de muito destaque na mídia, decalca bastante de guimarães rosa… sem o mesmo fôlego, mas há coisas graciosas. da tchurma mais “nova” q anda aí dos 50 pra diante: paulo leminski [já falecido], júlio castañon guimarães, armando freitas filho, duda machado, nelson ascher [com notável trabalho de tradução também], age de carvalho [um dos mais estranhos], claudia roquette-pinto, carlito azevedo. // e dos novíssimos: virna teixeira [excelente tradutora], diego vinhas, renato mazzini e essa jovem promessa: mariana botelho. // olá, teresa, não sabia q a “quadrilha” era tão conhecida por aí. drummond prossegue sendo uma referência, embora em seus últimos livros o fôlego já encurte. cabral é absolutamente fascinante do começo ao fim. aliás, teresa, que belos textos os seus: ‘o catorze’; ‘o sapateiro da rainha’; ‘juan rulfo’; e suas notícias e fotos de cabo verde. by the way, há uma grande colônia de caboverdianos aqui em fortaleza. muitos são estudantes universitários. mas há também uma feira de confecções e produtos do gênero que conta com uma considerável participação de mulheres comerciantes caboverdianas. há dois vôos semanais ligando praia a fortaleza — nossa cidade virou meio q porta de entrada de cabo verde no brasil. houve uma feira do livro de cabo verde ano passado. e este ano a bienal de dança do ceará, um evento importante nessa área, aconteceu em praia e no mindelo. li algo da geração da revista claridade q me despertou interesse // last but not least, sou um leitor compulsivo de helder. e, de momento, ao que parece não há um único poeta brasileiro tão forte quanto ele.