
Para os anti-americanos primários vai ser um festim. Sem ofensa, como vão já compreender.
Aqui há tempos, um grupo de paleontólogos da Universidade do Oregon descobriu os mais antigos vestígios de presença humana já encontrados na América. Em relação ao que se sabia, estes “novos” sinais fazem recuar 1.200 anos o relógio da actividade humana no continente em que, não sabendo para onde ia, não sabendo onde estava e já mal sabendo donde vinha, Colombo tropeçou. Ou seja, os nova-iorquinos, o pessoal de Washington e San Francisco, Obama e Ms. Clinton, sabem agora que há 12.300 anos tinham já uns patuscos tios americanos.
Infelizmente, a herança que receberam, perene embora, não é a mais palatável, não se presumindo que as partilhas venham a desencadear disputas coléricas e fratricidas. Não sou de me pôr a adivinhar, mas cheira-me que ninguém vai querer meter a mão neste património.
Ainda não falei, vou falar: o que os cientistas encontraram foi tão só o esforçado resultado da defecação desses antepassados yankees. Encontraram, pois, excrementos.
Os coprólitos – assim se chama em linguagem de gente aos excrementos fossilizados – foram laboriosa e laboratorialmente analisados, provando-se (sic) serem genuínos. Ao ADN humano aparecem associados uns remanescents genéticos de coiotes e lobos, deduzindo os paleontólogos que, das duas uma, ou esses americanos primitivos tinham feito deles um ululante repasto ou os dissolutos animais decidiram intervir no curso da História, alvejando com uma realíssima mijinha a idiossincrática retro-manifestação dos mais antigos habitantes do Oregon.
Está claro, a esta perfumada herança genética os anti-americanos primários (mesmo alguns secundários) vão chamar um figo. Dirão que a coisa – em particular “aquela coisa” – afinal não começou com Bush e que os antecedentes já vêm de longe. Dirão que a política “neo-con” foi bem adubada por estes “pais fundadores” ou que o cheiro que ressuma da ocupação americana do Iraque é, afinal, milenar.
Sem renegar a minha babada admiração pela América (o que lutei pelas primeiras jeans e pela primordial coca-cola), mesmo eu tenho de reconhecer que aquele resquício dos tempos é inestético e mal-cheiroso e, sobretudo, que o mais humilde gesto humano – que nada, hoje, parece impelir-nos a travar – pode no futuro, por ominosa denúncia genética e datação a radiocarbono, ganhar dura notoriedade que envergonhe os nossos vindouros.
Sejamos humildes e façamos, no nosso dia-a-dia, o que temos a fazer. Com a consciência, porém, de que o resultado não escapará ao apertado crivo dos nossos tetranetos. Olfacto incluído.
















Genial, Manuel Antropólogo Fonseca !!!
Como bem pode imaginar, estima Turmalina, atendendo à matéria em causa não tenho muito por onde gabar-me. Obrigado pela simpática compreensão.
Gostei das suas considerações. Adorei a figura de Colombo, que não sabia absolutamente nada. Também do cheiro milenar que vemos ressurgir na invasão do Iraque.E que nossos tetranetos não precisem mais se ocupar com coprólitos.