O sapateiro da rainha

                  Não sei se me lembrei dele por causa da colecção de heróis que tem desfilado neste cemitério. Ou por ter passado há pouco pela pousada de Estremoz. O certo é que passei lá outras vezes e não me veio à lembrança. Mas desta vez encontrei o caderno onde o desenhei. E os esboços devolveram-me do século passado a cena daquela tarde quente de verão: duas raparigas a escutar um velho numa penumbra fresca de oficina.             

              Os riscos grossos de lápis de cera mostram sapatos, um gato a dormir, o banquinho com raízes, o mapa de linhas de quase cem anos que conduzem aos olhos dele. O rosto lembrava o de Borges (terão todos os cegos alguma semelhança?), e a voz suave formava tiradas de escritor, ele que pouco teria escrito na vida além das contas da sapataria.    

              Contava coisas do tempo em que se fazia testamento quando se ía a Lisboa. Em idade moça ninguém corria mais do que ele. Atravessou o século XX  “como um relógio que nunca precisou de corda”. Sei que disse assim, registei frases soltas enquanto lhe captava os movimentos. A ele que sem ver nos olhava com agrado e agradecimento por ouvintes tão atentas. Nunca quis ser operado ao ouvido por recusar uma anestesia “ali, mesmo ao pé do pensamento”. Não era a minha tarefa, mas irresistível fixar o que dizia — palavras muito usadas pareciam roupa nova.        

          O arranjo era este: a minha amiga escrevia, eu ilustrava (que alívio, nunca gostei de escrever. Quem me dera conseguir falar do mundo só por desenhos. Se tivesse continuado a tracejar talvez tivesse ganho mão). Bem, para aquela revista éramos a equipa com a proposta perfeita: escrever sobre as pousadas portuguesas através da voz e ilustração de uma figura da terra, de alguma forma ligada à história do edifício. Cruzar o herói-da-vila com o castelo-herói. 

         Ela, a minha amiga, agarra o mundo e escreve-o com imagens fortes e poéticas que as minhas aguarelas não alcançam. Essa arte da escrita aqueles homens não podiam conhecer. Nem precisavam. O sapateiro Joaquim e os filhos que lhe herdaram o negócio arregalaram os olhos e os sorrisos perante a bela morena que lhes entrou na loja a pedir uma entrevista. A minha amiga acrescentava à juventude e à simpatia efusivas a aura de estrela televisiva. E eu podia ficar na sombra como sempre gostei, calada e com o caderninho das cores.

          E aquela tarde escorreu encantada em lápis de cera e gatos preguiçosos e contos de homem antigo. Admirava-se de não ser preto, por ter sido criado a sopinhas de café. Mal começara a mexer e já fazia sapatinhos para bonecas. Calçou Estremoz inteira durante noventa anos. O castelo da Rainha Santa era a casa mais bonita e ele, respeitador, nunca lá tinha posto os pés. Como fazer a ligação entre o sapateiro e a pousada? Foi ele que a encontrou, linha contínua a saltar idades: se tivesse nascido no tempo da Rainha, tinha-lhe feito uns sapatos.

Comentários a “O sapateiro da rainha” (18)

  1. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Teresa, Teresa, Teresa! Não sei nada dessa revista, ou da parceria, mas se diz, eu acredito em cada um dos méritos da sua amiga. Porém, com este seu post tão bonito, nem é preciso que apontem os seus.

    • teresa conceição diz:

      Que querida, Eugénia.

      A revista fechou, ainda no século passado. Era para um nicho muito nicho.

      Só fizemos duas histórias destas. Não voltei a publicar desenhos em revistas. E ela, se escreveu, foi muito pouco. Não eram as nossas profissões. Era uma maneira de estarmos juntas, e gostámos muito desses dias.

  2. Turmalina diz:

    Que delícia de memória, daquelas que trocamos em aconchegantes conversas acompanhadas de uma fumegante xícara de chá.E eu tenho certa predileção por aquarelas, talvez seja o efeito da água que mais me atrai. E sapatos de boneca são mesmo um mimo.Adorável!

    • teresa conceição diz:

      Pois é mesmo uma memória para trocar, Turmalina.
      Porque além das pessoas que conhecemos a fazer este trabalho, tem também a memória do tanto tempo que tinhamos para dedicar ao que nos rodeava. Ainda sem filhotes, ela, ainda sem sobrinhos, eu, sobrava um fim de semana inteiro para conversar e desenhar. E comprar sapatos!

  3. pedro marta santos diz:

    E que bonitos desenhos…

  4. Pedro Norton diz:

    Teresa: os desenhos são lindos. E essa história de não querer ser operado aos ouvidos por causa do pensamento, que bem o entendo! Se eu fosse a confiar em médicos já tinham sido os dois. E, sim. Eu sei que a EV dirá que mal não poderia ter feito ao meu pensamento.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Já viu, Teresa, como o PN sabe que eu tenho sempre razão? Bem. Teria feito muito bem porque a sua audição teria ficado como o seu pensamento: em Lobo Mau mode. Não leu aquela parte..
      – e porque é que não quer ser operado aos ouvidos?
      – para não ter de comer os médicos por conhecerem os meus pensamentos!

      • teresa conceição diz:

        Não li, Eugénia, mas leram-me. Deve, aliás, ter tido origem, nessa idade tenra, a minha decisão de não enveredar pela medicina. Julgaria, talvez, que assim daria menos hipóteses a lobos maus…

  5. António Eça diz:

    Os seus desenhos/pinturas são o máximo, Teresa.

  6. Joana Vasconcelos diz:

    Teresa, gostei de tudo. Mas sobretudo do primeiro dos seus desenhos. Levou-me até Estremoz, uma terra que me encanta sempre …

  7. teresa conceição diz:

    Muito obrigada por palavras tão gentis.

    Assim até fico com vontade de contar sobre o outro herói anónimo que conhecemos :)

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Teresa, conta já a outra história, para vermos mais desenhos.
      Ah, e podemos pedir para nós? O do gato e tartaruaga (é, não é), penúltimo no post, eu queria muito. Dá-me lá se faz favor! (Vê bem que estou a pedir com bons modos).

      • Eugénia de Vasconcellos diz:

        Está a pedir com sonsos modos, Manuel Fonseca, que as filas não se cortam e eu pedi há montes de posts atrás!

  8. teresa conceição diz:

    Contarei, Manel, quando voltar a casa. Agora estou afincadamente a trabalhar.

    Quanto aos desenhos, os que aqui mostro são quase todos recortes de ilustração maior.

    Se se contentar com um desenho pequenino, posso repetir a preguiça de um gato
    e somar-lhe uma tartaruga, se assim quiser manter a encomenda :)

    (porque se aumentar a aguarela ali de cima não encontrará nada parecido)

  9. Eugénia de Vasconcellos diz:

    E se aceita encomendas para depois da publicação do post sobre seu outro herói anónimo, junto ao meu pedido uma luminosa biblioteca de A Bela e Monstro, que abra para um pequenino jardim florido. Se o monstro viesse já desencantado, dava-me imenso jeito.

  10. teresa conceição diz:

    O que me pede, Eugénia, seria lindo, se eu fosse capaz.

    É todo um romance. Ou comédia de enganos, se a tentar em aguarelas.
    É coisa para não sair dos tijolos até ao fim do ano, só em tentativas. Depois o comprar dos livros, o plantar das sementes, o contratar do jardineiro, já para não falar do desencantador, e tá a ver que a encomenda se arrasta.

    Eu parágrafos curtos ainda vá. Os furões são espertos, pedem só um bocadinho e eu distraída.
    Ainda bem que reparou, terei de repor a legalidade nas negociações desenhadas.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Pronto, vá, um cantinho inho inho da biblioteca, o resto fica subentendido. Ou a Teresa explicita em legenda muito linda igual à que fez para o sapateiro.

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