O português é defunto

Dali: criança geopolítica observa o nascimento do Homem Novo.

O português é defunto e saudosista. Ou, para ser justo, até porque já confessei e confirmo: eu sou defunto e saudosista. Pelo passado, pelo admirável passado, somos capazes de fazer mais do que promete a força humana. Eu também. Recusamo-nos – recuso-me – a ser apóstolo das novas gerações. Quase tudo o que interessa é o passado e os seus pobres diabos. Na literatura como na pintura. No futebol, como (hèlas!) no amor. Na ciência como na tecnologia.
Se este post fosse um quizz, impunha-se agora a pergunta: verdadeiro ou falso?
Afinal somos também, com mais ou menos mérito, os gloriosos e loucos herdeiros do poeta que cantou a mudança.  Em catorze versos, Camões quis preparar-nos para um mundo tão composto de mudança – “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” – que bem nos avisou estar, a mudança de cada dia, tão mudada que “não se muda já como soía”.
Só que o mundo já não cabe num soneto. Ou cabe?! Sugiro uma primeira e modesta experiência: saiam à rua e comprem um jornal. Não digo o “Público”, talvez nem o “Expresso”. Mas, por exemplo, o “New York Times”. Numa só semana, o “NYTimes” soma mais informação do que a que seria possível a um europeu recolher durante toda a sua vida se vivesse no século XVIII. Pura e comprovada estatística.
Dizem, e para que não seja só a cabeça de Camões a rolar, que a língua inglesa actual incorpora 5 (cinco) vezes mais palavras do que as utilizadas por Shakespeare. O facto não restaura o velho e decrépito império. A verdade é – linda estatística! – que a China, nos próximos anos, vai transformar-se no país do mundo com mais falantes de língua inglesa. God save the Queen.
Mas há mais: a velocidade. A velocidade da mudança. Continuei, displicente e distraído, a ver as estatísticas. Pediram segredo mas, aturdido, conto na mesma. Entre o seu musical arranque e a obtenção de um auditório de 50 milhões de ouvintes, a rádio teve a paciência de esperar 38 anos. A televisão, muito mais messalina, acomodou idêntica promiscuidade em 13. A internet, abrindo a banda, consumou os 50 milhões em quatro breves anos.
Hoje, na televisão, Medina Restelo Carrreira pediu melhor escola lamentando que a dialogante nova ministra tivesse implodido a avaliação dos professores. Só que a mudança já avaliou a própria escola. Se aceitarmos a hipótese – outra vez o raio da estatística! – de que os 10 empregos que vão ter maior procura no ano que vem ainda nem sequer existiam há 5 ou 6 anos, teremos de concluir que professores e escolas deveriam estar a formar alunos para empregos que ainda não existem e para dominar tecnologias por inventar. Parafraseando o que disse Einstein, justificando a resistência in illo tempore à sua teoria da relatividade, devíamos era estar a prepará-los para problemas que ainda nem sabemos formular.
Com um futuro destes, tão veloz e suicida, nem vale a pena ter passado. Verdadeiro ou falso? Já não sei se respondo por mim, mas anda-me o passado a pedir mais um bocadinho de futuro.

Comentários a “O português é defunto” (4)

  1. António Eça diz:

    O que eu gosto disto, hombre!
    Nós, os apocalípticos integrados, somos os cronistas do instantâneo, do que quando se escreveu já não era bem assim — ainda que tal facto não tenha consequências de maior para a leitura do Tempo que vai fazendo.
    Como estamos sempre no presente, e todo o presente teve os seus passados, talvez a questão não seja tanto se vale a pena ter um passado, conhecer um passado — mas antes se tal passado é rico em sinais de desminagem.
    Eu acho possível que sim.
    Sou um optimsita radical.

  2. Turmalina diz:

    Teorias da conspiração à parte, sinto que a língua escrita como conhecemos, seja ela inglês, português ou chinês, está perdendo espaço para outras formas de comunicação, aonde o mínimo é mais.
    Outro dia faleceu José Mindlin, o maior amante de livros que eu já conheci. Numa entrevista recente ele lamentava que os novos escritores não possuíam mais rascunhos que pudessem ser rasurados.Porque os rascunhos nos mostravam a idéia inicial e a segunda idéie Mindlin considerava interessante o exercício de tentar descobrir porque o autor mudou de idéia.Já com os novos editores modernos a tecla Delete acaba com este questionamento.
    E lendo seu texto vejo, sem querer fazer renascer os cavaleiros do apocalipse, que o nosso passado talvez esteja mesmo em perigo.Vejo nos jovens de hoje, totalmente abduzidos pela tecnologia, que o que vale é a informação atual, de forma rápida e resumida.Eu aprendi que o passado é importante para que não repitamos os mesmos erros, sempre.Mas a história, cíclica, nos mostra que mesmo assim eles são repetidos.
    Do jeito que as coisas vão, daqui à pouco só restarão as lembranças pessoais, devidamente encarceradas em cada um de nós.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Muchas gracias, Anthony e Turmalina. E eu acho, Turmalina, que a paixão de Mindlin pelo livro tem de ser celebrada aqui no Gente Morta. Ando a ler ás histórias dele…

  4. Turmalina diz:

    Dê-me um tempo que conto sobre sua paixão caso ninguém mais se inspire em fazê-lo :o)

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