O fim do folhetim: preview

Se um dia destes for na rua e alguém me perguntar, “Diga lá porque é que gosta do seu blog?”, já tenho algumas boas razões para dar como resposta. Porque tem um cemitério de queridos mortos, é a primeira. Porque as autoras são muito lindas e ainda mais talentosas, porque os autores são mais educados e cavalheiros do que um aristocrata do século XIX, porque há posts do Brasil, de Boston, de Milão, de Cabo Verde, da Sardenha, da Guiné, de Hong Kong. Gosto muito porque os leitores podem fazer tudo, comentar, corrigir os autores, até escrever posts por vezes. E gosto ainda mais porque a confiança é tão grande que às vezes um post se converte num chat e fica ali uma multidão em conversas de meia-noite, o que inclui saudosas College Reunions.
Estas originalidades, e devo estar a esquecer-me de outras, não fazendo mal nenhum porque a seguir já me corrigem, tiveram durante as últimas dez semanas a companhia de um folhetim. Começou com o episódio “O Caçador do Tempo” da Eugénia e teve no passado sábado, escrito pelo Pedro N, o décimo, com o sugestivo título “Agora e na Hora da Nossa Morte”. Digam lá quantos blogs é que têm um folhetim colectivo, ah?
Pois bem, o folhetim vai acabar. Cabe-me a mim juntar as pontas, o que farei esta noite, antes das 8 para não estragarmos o negócio às televisões. Recordo que o folhetim tem seguido o périplo de Francisco Xavier, um homem que perdeu a sua identidade. Francisco, nome que o protagonista sabe não ser o seu, é ou foi casado com Catarina, de quem terá tido 2 filhos, e na busca obsessiva do nome parece ter descoberto que talvez não seja filho dos seus putativos pais. O melhor amigo de Francisco é Sandeep, embora não saibamos onde e como se conheceram e o que forjou a devoção que um ao outro dedicam. O périplo de Francisco na busca de si mesmo situa-o, no primeiro episódio, na Índia, fazendo-o seguir depois para a Grécia e para Nova Iorque. Sabemos que viveu em Lisboa e há referências subreptícias a eventual passagem dele por Angola e pela cidade de Malange.
Em Nova Iorque e durante um jantar com uma linda loira, Francisco acaba de levar um tiro. Jaz no chão, exangue mas ainda quente. Há batalhas no céu por ele. O carro de Sandeep travou agora mesmo, a fundo, à porta do restaurante. Vai começar o último capítulo, avisando-se as almas sensíveis de que a linguagem é chã e o que se vai ver não é nada bonito. Então, até já e não digam que não avisei.

Comentários a “O fim do folhetim: preview” (7)

  1. Eugénia de Vasconcellos diz:

    E eu que ia mesmo agorinha, descansada, escaldar as amêndoas para lhes tirar a pele.. Já estou cheia de curiosidade — não aprendi nada com a mulher do Barba Azul.

  2. Luciana diz:

    No aguardo, cheia de expectativa e, se me permite Eugênia continuar-lhe a idéia, solenemente desprezando o aviso de que a curiosidade matou o gato (afinal nada se diz de curiosidade e borboletas, logo…)

  3. Joana Vasconcelos diz:

    LIIINDO! E eu que andava tão consumida ante a perspectiva de passar o domingo de Páscoa, de portátil às costas, desligada e desblogada à beira-Távora, a calcorrinhar altos cerros, a escalar escarpas de granito, quem sabe, e em desespero, a trepar a castanheiros, oliveiras ou carvalhos, em busca de um vago sinal de rede que me permitisse ler o ansiado último episódio do folhetim!

  4. António Eça diz:

    À beira-Távora, Joana? Junto à foz, passei várias férias numa quinta com um nome esdrúxulo: quinta do Panascal de Baixo. Conhece?

    • Joana Vasconcelos diz:

      Conheço, pois, e também sei o que é o panasco que lhe dá o nome.

      É um sítio lindo e a Fonseca tem uns belos tawny, vintage e LBV.

      A minha zona é mais para cima, para lá de Tabuaço, para lá de Távora, mas antes da barragem de Vilar.

  5. António Eça diz:

    Uma coisa linda e de grandes memórias. Antes do enchimento da barragem o Távora era baixo e a ponte da estrada para o Pinhão bem alta. Pois eu estive pendurado por uma corda, dessa ponte, com três miúdos a segurarem a corda a partir de cima.
    Gerou-se grande crise quando percebemos que nem eu conseguia subir nem eles me conseguiam puxar. Tudo isto para ver se os ninhos das pombas, nos buracos da ponte, tinham filhotes…
    Felizmente passou um taxista fortalhaço que me tirou do aperto.
    A da Tawny é o Panascal de Cima, não?
    No meu tempo pertencia a um agricultor local, achoe eu.

  6. Turmalina diz:

    Que admirável prólogo, Manuel!
    Este folhetim é mesmo único e chego a ficar triste com a proximidade do seu fim…

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