O exacto instante


Repare no senhor mais baixo, de fato escuro e camisa branca, o único sem chapéu nem laço, que ao meio da foto se encosta à ombreira da porta. Observe que na mão direita tem um revólver e que o polegar já afaga o cão da arma enquanto o indicador se estende pronto para o gatilho. Perscrutando a foto, deverá notar que também na mão esquerda deste senhor se pendura o vulto doutro revólver.
Mais: todos os homens à esquerda desta figura estão armados, uns expectantes, como aquele que tem o pé direito apoiado no degrau e se curva para a frente para melhor vigiar o fundo da rua; outros desafiantes, como o último homem à direita da imagem, que cruza as mãos sobre a arma.
A cena passa-se no dia 31 de Março de 1933, no sereno do fim da tarde. Baltasar Brum, assim se chama a personagem central, chamou a imprensa à porta de sua casa e está prestes a cometer um acto único na história do seu país e, talvez, do século.
Estamos em Montevideo e desde manhã que o Presidente Gabriel Terra, comandante em chefe das forças armadas e policiais, suspendeu o governo constitucional, mandou a polícia impedir que a Assembleia Nacional reunisse, assinou ordens de prisão para os principais membros da oposição, ordenou a censura total aos periódicos e enviou a tropa cercar a capital. Há 30 anos que o Uruguay era uma plácida democracia constitucional.
Baltasar Brum faz parte da pequena elite política do país, primeiro como Ministro dos Negócios Estrangeiros, onde grangeou fama de pró-americano e depois, entre 1919 e 1923, como o eleito 23º Presidente da República. Durante todo o dia, Brum esperou por uma insurreição popular, uma manifestação de desagrado nas ruas, uma qualquer incontinência que travasse o golpe de Terra. Nada. Ao fundo da rua assome já a cavalaria policial que o vem prender.
É para lá que todos olham nesta fotografia, à excepção dos dois senhores que se viram para Brum na expectativa de uma reacção. Logo a seguir ao instante aqui registado, Baltasar Brum dirige-se para o meio da rua, grita “Viva la libertad! Viva Battle!” e desfecha o revólver na sua própria têmpora.
José Battle y Ordonez, figura maior do Partido Colorado de Baltasar Brum
É extraordinário que havendo diversas máquinas fotográficas e pelo menos uma de filmar presenciando e aguardando a cena, nenhuma tenha retido o momento exacto do gesto simbólico de protesto perpetrado por Baltasar Brum. Nem sequer há imagens do seu corpo prostrado na calçada logo a seguir aos tiros que em si próprio desferiu.

Comentários a “O exacto instante” (8)

  1. Vasco Grilo diz:

    Zé, estupendo texto. Gosto muito destes episódios perdidos, que se bem que intensos e dramáticos, não deixam de se perder completamente nas brumas da história.

    Achei piada ao facto de, por te veres tanto dentro da imagem, acabas (inconscientemente ou não) por descrever os homens à direita da foto como estando à esquerda e vice-versa. Pergunto-me se não os vias mesmo assim, sendo que tu és na realidade o homem sem arma, que (á esquerda, para nós meros observadores) se inclina para Brum para lhe dizer que a partida está perdida e que só lhe resta mesmo sair de cena com um B®um!

  2. José Navarro de Andrade diz:

    Touché! Estudei e hesitei a frase antes de a publicar e acho que: “os homens à esquerda desta figura”, ou seja a orientação é a partir da personagem. Depois: “o último homem à direita da imagem”, agora é visto de fora. Pareceu-me bem assim; estarei certo?

    • Turmalina diz:

      Também compreendi a sua posição enquanto à esquerda da foto, dentro da cena.
      Só me confundi com o homem de branco, fiquei procurando a arma e imaginando que talvez você a tivesse visto onde não vi. Cheguei a clicar na foto para ver se via melhor.Mas é um bomm exercício…
      Depois entendi de que direita falava.
      Esta foto já é impressionante simplesmente pelo fato de ter sobrevivido ao dia em que os periódicos foram censurados no país.Gosto muito deste tipo de post!

  3. Vasco Grilo diz:

    Está bem assim. Eu é que interpretei o ultimo homem à direita da imagem (seguindo ainda a figura e não a foto) como o de branco, mas vejo que de facto não tem arma.
    Uma verdadeira “out of body experience” esta.…..
    abraço

  4. Eugénia de Vasconcellos diz:

    A minha ignorância não sabia nada disto. Mas gostou de saber.

  5. Joana Vasconcelos diz:

    Que extraordinária história! E que curiosa imagem… Com tantas armas, tão resolutamente empunhadas, o que teria acontecido se Brum não tivesse feito o que fez?

  6. pedro marta santos diz:

    De como as imagens apenas fixam um momento sem passado nem futuro, apenas um vago presente, prenhe de todas as possibilidades, o oposto da alma captada, temida pelos indígenas da Papua Nova-Guiné. Belo post.

  7. Turmalina diz:

    Não tenho nenhum parentesco com indígenas da Papua Nova-Guiné e uma dos minhas habilidades é fotografar.Mesmo assim não gosto da minha imagem congelada, da minha alma captada.

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