O Cronenberg dos pequeninos

Gostava de partilhar a prenda da Amazon que me auto-ofertei, ontem degustada. Esta:


“The Box”, 2009, de Richard Kelly


Não é a Cameron, é o filme (há um limite para a dimensão das encomendas por via aérea).

Realizado por este senhor,  “The Box” é um pequeno conto de horror cujos melhores parágrafos são pontuados pelas divagações científicas que, juntamente com a crise do crescimento, fazem a base do cinema, estranho e muito pessoal, de Kelly.

 

Kelly foi a resposta possível, no limiar do milénio, às preocupações de Cronenberg quanto à fronteira entre tecnologia e carnalidade, quanto à dimensão visceral dos mistérios do cérebro e quanto aos limites do corpo humano. Se Cronenberg é um maluquinho da medicina, da neurologia, dos mecanismos virais, Kelly é um tolinho da física, da aeronáutica e da astronomia.Ambos são loucos por monstros supra-realistas, pela anormalidade feita corpo e consciência, pelos freaks deste mundo e do outro.

“Donnie Darko”, o melhor filme que vi nos anos 2000 (ao lado do “Elephant” de Gus van Sant) sobre o angst da adolescência, falava de coelhos gigantes que previam o futuro e viagens espacio-temporais com uma invulgar sapiência científica (Kelly foi ao ponto de criar e escrever uma “Philosophy of Time Travel”, carregada de termos como “Fourth Dimensional Construct” e “Tangent Universes”), ao som de “Mad World” dos Tears for Fears e de “The Killing Moon” dos Echo and the Bunnymen.

Quase arruinou a carreira depois da desastrosa recepção crítica ao delirante e divertidíssimo folhetim futurista “Southland Tales”, que foi mais retalhado do que o lombo de um bovino sul-americano, acabando numa versão dolorosamente truncada (que me apressei a comprar o ano passado numa edição francesa em Blu-Ray).

Este “The Box” é o reinício, e traz Kelly de volta a todas as possibilidades. Baseado em “Button, Button”, o conto de um jovem de 84 anos chamado Richard Matheson, autor de insignificâncias como o argumento de “The Incredible Shrinking Man” de Jack Arnold, a melhor adaptação de “The Fall of the House of Usher”, para Roger Corman, as histórias originais de alguns dos mais preciosos episódios de “The Twilight Zone”, a novela “I Am Legend” ou os guiões do subestimado “Somewhere in Time” de Jeannot Swarzc e do celebrado “Duel” de Spielberg, “The Box” tem um ponto de partida de uma simplicidade desarmante: um homem, Arlington Steward (Frank Langella, no topo da sua ameaça draculiana), recém-saído da unidade de queimados de um hospital da Virgínia onde fora dado como morto, visita uma familia (Diaz, James Marsden e um filho de treze anos), apresentando-lhes uma caixa de madeira com um botão vermelho gigante: se, nas 24 horas seguintes, o casal decidir carregar no botão, receberá um milhão de dólares — mas alguém que nunca conheceu morrerá nesse momento. Caso decida não carregar, nada acontecerá, e a caixa será devolvida a Arlington Steward para este a propor a um novo casal.

Richard Kelly regressa aqui à aeronáutica e à ciência das impossibilidades de que tanto gosta, com portais de espaço-tempo, viagens não tripuladas a Marte (a personagem de James Marsden é baseada no pai de Kelly, um dos engenheiros da Nasa responsáveis pelo Mars Viking Lander e autor da primeira câmara, incorporada na sonda Viking, a tirar fotos da superfície do planeta vermelho nos anos 70) ou as consequências imprevisíveis do electromagnetismo — e que outro filme norte-americano recente cita o existencialismo?

Sob a capa da ciência-ficção, “The Box” é um pequeno (grande) conto moral sobre o livre arbítrio, tema também central aos outros filmes de Kelly, estupor de apenas 34 anos (faz 35 este sábado. Parabéns).

Comentários a “O Cronenberg dos pequeninos” (4)

  1. Pedro Norton diz:

    Já me vais obrigar a mais despesas…

  2. teresa conceição diz:

    Esse ponto de partida faz lembrar “O Mandarim”, do Eça, não faz?

    Já o seguimento não parece ter nada a ver. Fiquei como o PN.

  3. António Eça diz:

    O ponto de partida, Teresa, é rigorosamente o Mandarim. E ia eu fazer um bonito com a «descoberta»… O seguimento, suponho, será um crime ou não — o que também está por trás do Mandarim, que é — tal como PMS diz sobre o filme — «um pequeno conto moral sobre o arbítrio», sobre a nossa única verdadeira liberdade.
    Adorei o Donnie Darko! A minha filha deu-mo e eu depois vi-o com o meu filho de 15 anos, bem agarrado a mim — a gostar mas apavorado. Acho que lhe fez bem.
    A mim fez.

  4. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Que nervos! Não viu ontem a entrevista com Teixeira dos Santos? Porque é que não escreve sobre aqueles filmes que todos temos em casa desde o tempo das cassetes beta? A música no coração, por exemplo.

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