Sempre quis ser bombeiro, desde pequenino “tinha um gosto medonho”. Desde pequenino foi pedreiro: “Com 8 anos já ajudei a fazer a primeira igreja da Penha em Guimarães!“ Mas a gente tanto persegue os sonhos que os agarra. Aos 18 conseguiu. Era o nº 14 na escala. Quando tocava a fogo, largava o ofício de pedreiro e ía como uma flecha. O Catorze não tinha medo de nada.
“A nossa vida de bombeiro é um romance: abandonar o trabalho e ter o gosto de ser o primeiro a chegar. Apanhar o primeiro carro era a primeira glória. Trazia as pessoas às costas para as salvar”.
O incêndio na Pousada? Ainda era mosteiro. Teria sido vela acesa? O que é aquilo ali na encosta? Tocou a incêndio às duas da manhã. Dessa vez ficou tão queimado que ninguém o conhecia — “mas o queimar era uma ofensa menorzinha”. Tinha noites de não ir à cama. Nunca alevantou um tostão do seguro, tinha luvas mas não as levava para os fogos. “O nosso ofício era morte ou gloria”.
Fura-vidas, atravessou a segunda guerra a ganhar dinheiro com os pregos. Serralheiro, ferreiro, feirante, teve trabalhos vários. Mas bombeiro foi a vida inteira. Enquanto lho permitiram. 58 anos contados e medalhados, quadro honorário dos Voluntários de Guimarães. Os pais não o puseram na escola, mas acha que ser analfabeto nunca lhe prejudicou a vida: ninguém o enganava nas contas. Só não chegou foi a comandante dos bombeiros.
Quando o escutaram a minha amiga e o meu caderno, tinha noventa anos. “Tenho saudades de ser um homem feliz com as mulheres. Só estou arrependido de estar velho”.


















Mais uma adorável aquarela de histórias…eu admiro muito a profissão de bombeiro.
Poxa, Turmalina! Até parece que tem vocação. Foi mais rápida do que um bombeiro a chegar aqui:)
Mas tem razão. Vida de bombeiro é fogo.
…acho que estava verdadeiramente conectada…rsss.…
Teresa, até dá vontade de fazer coisas que digam da própria vida é “uma vida bonita” para merecer um desenho que a conte bonita assim.
Oh! que coisa tão bonita de dizer. Faz-me corar como se fosse receber uma medalha num baile dos bombeiros.
Já estava na cama. De repente tocaram os alarmes todos de “há fogo no blog, há fogo no blog”. Vim a correr — não fui o primeiro a chegar! — vejo este lindo fogo todo a alastrar e gosto tanto que, juro, não ajudo a apagar.
Obrigada Manel. E não se preocupe, neste fogo todos os anjinhos ajudam.
E eu vou apagar fogos para o Porto, amanhã cedo. Espero que não toque mais nenhum alarme esta noite!
Que relato bonito,este.
Sabe,o meu avô paterno era veterinário,mas eu,quando pequena,preferia dizer (e era verdade)que ele era chefe dos bombeiros.
Você surpreende sempre, Teresa.
Este seu desenho/história tem — para mim — um encanto extra: a actual pousada de Santa Maria da Costa conheci-a eu ainda propriedade da família Leite de Castro, do meu querido e já falecido amigo Afonso. Quando lá estive, numa das últimas vezes (algures em 70) ele mostrou-me ao pormenor uma parte do convento que tinha ardido num grande incêndio. Havia montes de azulejos, também.
Vai-se a ver e o seu bombeiro combateu ali…
Quer dizer: combateu mesmo!
Fantástico!
António,
a ideia que naquela altura eu e minha amiga propusemos à revista, para as páginas de lazer, era encontrar heróis anónimos que tivessem alguma relação com a pousada histórica da sua cidade
(e assim surgiram o bombeiro de Guimarães e o sapateiro de Estremoz)
Em aguarela de uma página, eu tentava condensar essa ligação.
Utilizava elementos da pousada para desenhar os fios cruzados: estes anjinhos figuram nos azulejos da casa. (Suponho é que não estavam a apagar fogos quando foram pintados da primeira vez)
Que bela ideia, Teresa, e o resultado é brilhante!
Absolutamente de acordo. E foram logo começar por duas Pousadas de que tanto gosto … Que pena este projecto não ter continuado …
Que querida, Joana.
E os textos eram tão giros (e eu que nem fiquei com cópias da revista, que acabou)
Vou já contar à minha amiga que gostaram da ideia.
As nossas vidas já estão difíceis para um projecto como este, mas tinha graça voltar a fazer
a proposta a outra revista…
A de Terras de Bouro também é incrível, Joana e Teresa, não sei se conhecem.
Conheci só de passagem, há alguns anos, não pernoitei. E fiquei cheia de pena, porque é linda e muito bem recuperada. Hei-de voltar.
Mas agora, António vou para o Algarve, não para uma pousada.
E levo um Rodolfo comigo…taran taran.
Aiiie!…
Olá Teresa,
Não é muito meu costume fazê-lo, não tem a ver comigo, nem com o meu feitio, mas como isto não é uma bancada de psicanálise cibernética, nem me interessa fazer esse exercício sobre mim próprio… Engraçado como as palavras nos desviam do que pretendemos, quando lhes perdemos o controlo e a mão. Sabe bem isso.
Aliás, e retomando o fio, ao contacto que me traz aqui… só para dizer que aprecio a tua escrita, agrada-me de onde ela vem, os rumos que toma, e a forma como te assenta, na voz, e mesmo nesta forma de papel virtual.
Sou jornalista também, sigo a tua carreira há algum tempo. Mesmo sem nos termos nunca cruzado por aí, acho que de facto, és boa naquilo que fazes. E é sempre bom, quando alguém é realmente bom.
Um abraço,
Pedro Cativelos