melhor ler juntos do que viver feliz sozinho

Uns dizem que o livro isola – lê-se em silêncio e solidão. Outros, que o livro aproxima idealmente – leio só, mas na companhia de personagens que têm a espessura duma folha de papel.
Tudo mentiras: a leitura ideal é esta, a dos leitores que se fundem. Quem lê o quê, o que lês de mim, o que, letra a letra, em ti leio?

  

O autor das ilustrações? Fez (ou faz) capas para a New Yorker e tem comics publicados pela Penguin Books. Lorenzo Mattoti, italiano a viver em Paris, é um prestigiado autor de fumetti. Gosta de livros, como o provam as suas ilustrações, aguarelas, pinturas e o cartaz que o convidaram para fazer em Cannes.

Comentários a “melhor ler juntos do que viver feliz sozinho” (28)

  1. Luciana diz:

    Caro Manuel, me dá seu autógrafo? Com mira certeira você toca nos assuntos que tocam minha imaginação. Adoro a cena de Up! em que o casal, cada um em sua poltrona, cada um com seu livro, encontram-se tão unidos…É muito melhor ler junto, não tenho dúvida, mas quando não é possível ler com alguém aterrorizo meus amigos lendo via telefone…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Luciana, ler ao telefone parece-me uma rica ideia. Viu La Lectrice? É um velho filme francês (1988) que me faz sonhar dois sonhos. Num pagam-me, e eu honestamente ganho a vida a ler para velhos e ricos senhores e senhoras. Noutro, leêm para mim: não sei quem lê, nem sei se pago.

  2. Turmalina diz:

    Fiquei aqui fazendo uma retrospectiva e descobri que nunca vivenciei uma cena em que eu estivesse lendo um livro e ao meu lado outra pessoa estivesse lendo outro, ou até o mesmo livro , simultaneamente.Não faz parte da minha memória afetiva.Minhas amigas, amigos e meus namorados não gostavam muito de ler. Nem na faculdade, que era de Comunicação, encontrei pessoas para compartilhar a leitura de um livro assim.Talvez porque seja algo muito íntimo.Minha mãe sempre leu muito, mas nunca lemos juntas.Lemos cada uma no seu tempo e espaço para depois discutirmos depois.
    Sempre li sozinha e o que eu compartilhava eram as dores, as dúvidas, a loucura e os amores de personagens, fossem eles principais ou secundários.Participei de saraus, somente de poesias.E também de leituras de roteiros em conjunto. Mas livros, nunca. Tanto que, para mim, a primeira imagem do seu post é utópica.
    Deve ser mesmo algo ideal essa fusão à que se refere.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Turmalina, a minha experiência é exactamente oposta da sua. Desde que me lembro que associo a casa dos meus Pais longas tardes ou serões, sobretudo de Inverno, com lareira acesa, música suave, um belo bule de chá bem quente … e toda a gente a ler, tranquilamente… Com as minhas filhas há muito que faço o mesmo. Ao serão e desde que começaram a ler, o trato é basicamente o seguinte: quem não quer ler vai britanica ou gemanicamente, tanto faz, dormir às 9.30 … Quem quer ler, pode ficar mais um (bom) bocado, a fazer-me companhia enquanto leio … Talvez por isso, achei uma delícia a primeira imagem!

      • Joana Vasconcelos diz:

        Turmalina, completamente a despropósito deste post — sorry Manuel pelo à vontade — mas a propósito do post de há dias sobre José Mindlin e seus livros, que adorei mas que na altura não consegui comentar … e já que a apanho por aqui, aproveito para lhe perguntar, assumindo que leu os dois livros que Mindlin considerava “especiais”, qual me recomendaria para começar. De Guimarães Rosa nunca li nada, de Machado de Assis apenas o D. Casmurro, de que gostei, apesar da dissecação e da exegese a que sempre são submetidos (e a que dificilmente sobrevivem) os livros estudados nas aulas de português do liceu …

        • Eugénia de Vasconcellos diz:

          Joana, completamente a despropósito deste post — sorry, Manuel e Turmalina, pelo à vontade: sem sombra de dúvida, de Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas, extraordinário humor logo a partir do título, e uma deriva à Tristam Shandy dos trópicos, mas em melhor. E, de Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas, impressivo.

  3. ana diz:

    Há tempos disseram-me: “gostava de gostar de ler os livros que tu lês, para te ficar a conhecer melhor.”

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Ana, perdoe a curiosidade que não é mórbida: e ficaram?

  5. António Eça diz:

    Dois no mesmo livro? Gosto muito das ilustrações mas não imagino o acontecimento — muito sinceramente. Agora duas, três pessoas a ler em simultaneo é coisa normal nestas paragens.
    O som do silêncio activo.

  6. ana diz:

    Sim, começou pelas “aventuras do João sem medo” (faço notar que o homem em questão nem o 6º de escolaridade tem), o 2º foi “A cidade e as Serras”. Ainda acho prematuro dar-lhe a conhecer a minha escritora de eleição: Maria Velho da Costa. Dei-lhe o livro de um dos meus poetas preferidos (Pedro Tamen) e disse-me poemas não ser ler. Lê-me tu. Gosta, pasme-se de Manuel Gusmão. Ou gosta que eu lhe leia Manuel Gusmão?

  7. Pedro Norton diz:

    Adoro livros lidos a quatro mãos, ou quatro olhos é como queiram. Isto, é claro, dependendo dos olhos. Mas também gosto de leituras feitas pelos olhos dos outros. agora verdadeiramente a despropósito: Manuel, Turmalina, Joana, Eugénia: viram o filme Central do Brasil?

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Só vi, nas minhas andanças profissionais, trailers e afins. Não me parece que a evocação seja a despropósito, a abertura, que vi, com a Fernanda Montenegro a escrever cartas a pessoal que, não sabendo escrever, as dita, é muito bonita. E o miúdo do filme pareceu-me fantástico. Vou arranjar DVD para ver.

      • Joana Vasconcelos diz:

        Não, só conheço o trailer de que fala o MSF. Não sei exactamente porquê, já o vi várias vezes. Encanta-me aquela cena. E faz-me sempre lembrar, a propósito de despropósitos, uma outra, d’A Morgadinha, em que Madalena, montada na jumenta, lê a vários aldeões as cartas que estes acabaram de receber e não conseguem decifrar…

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Sim, vi o filme. Aliás, revi-o há poucos dias.

    • Turmalina diz:

      Faz um tempo que assisti Central do Brasil e já está é na hora de revê-lo. E são poucos os filmes que revejo. Mas este acho maravilhoso e retrata, entre diversas realidades, uma que me deixa incomodada e até mesmo revoltada, que é ao analfabetismo.O Brasil é um país capaz e ao meu ver só o que falta é vontade política.
      Outro dia descobri que muitos filmes brasileiros não chegam à Portugal, tanto que estou para enviar para uma amiga “Os desafinados” e “Fica comigo esta noite”.
      Mas falando especificamente do Central do Brasil, ele foi um filme que realmente me emocionou e aí não foi pela questão do analfabetismo.

    • teresa conceição diz:

      Eu vi o filme inteirinho e gostaria muito de o rever.

      • Eugénia de Vasconcellos diz:

        Teresa, comprei-o na Fnac, na minha última ida a Lisboa, num pack de promoção, junto com outro muito gostado, o Carandiru, do Hector Babenco. Valem ambos muito a sessão dupla.

  8. pedro marta santos diz:

    Magnífico ilustrador e ilustrações.

  9. teresa conceição diz:

    As ilustrações são lindas.
    E, como quaisquer boas ilustrações, não são literais, claro. O desenho pode criar o que não existe, ou o que só existe em desejo.

    O abraço dos leitores é simbólico, tanto no aconchego de casa como no lago gelado. É a festa da leitura e da comunhão desse prazer. Não é preciso ler abraçado para haver partilha.

    Por isso podiam ilustrar os serões de leitura da Joana. Talvez até alguns momentos de Central do Brasil ou da Morgadinha dos Canaviais, que também a Joana tão bem lembrou: eu me entrego em seus braços enquanto me lê as palavras queridas.

    Obrigada, Manel, por estes desenhos.

  10. Luciana diz:

    Manuel, uma dúvida um pouco tola, o título do post faz menção à canção Tomara, do amável Vinícius?

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Luciana, claro que sim. À canção que adoravelmente Marilia Medalha interpreta no álbum em que Vinicius e Toquinho a foram buscar.

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