Manuel Fonseca, conte tudo tudinho!

De Eugénia, dita Rainha da Sardenha, Serva das Servas de Deus, da Bondade e Modéstia, ao Caríssimo Irmão em Cristo, e Bloga, Pedro Marta Santos, Ilustre Rei de todos os Cinéfilos, habitantes das terras brumosas do Reino da Cinefilândia, Servo dos Servos do Argumento que, oferecendo como veículo as palavras de Sua pena, cede a Excelsa voz ao silêncio das imaginações.
Mostrastes, e indubitavelmente o vimos, que sois bom Rei das terras da Cinefilândia pois incontáveis vezes defendestes Vossos súbditos do mal contra eles arremedado — permiti que, à laia de menor exemplo, a Vossa humildade contemple o generoso bom serviço que prestastes a Dom M. Noite Shyamalan, cavaleiro -, e por Vossa corajosa defesa, por Vosso reconhecimento da grandeza de outrém, conquistastes a eterna dívida deles e dos que os seguem que, assim, Vos são e serão leais e aos Vossos pés depositam a espada dos serviços que heis-de, por merecimento, haver.  Destes, intrépido, valoroso e sem proveito próprio, o que para Vós colhestes em sabedoria após fotogramada reflexão e por isso deve a Sardenha responder sem delongas ao que a Vossa modéstia suplica, usando de desnecessária reverência no tom ao dirigir-se-nos, a nós que somos em Majestade iguais a Vós, ainda que em virtude não mais que o último dos Vossos discípulos. Todavia, antes, e porque o primeiro magistério da Sardenha obriga à verdade que só nos mitos infantis se revela, cabe-nos confirmar a pura linhagem, idoneidade, toda e cada uma das proezas, e o que por pudor ocultastes: o devotado fervor amoroso e conjugal consumado na cabana de ouro, na praia, daquele que entre os Grandes é Máximo, o Fantasma. Atendo, então, ao que podendo ordenar, pedis.

Esta seria a altura ideal para falar da minha Murasaki Shikibu, ou do meu Churchill, do Jung, mesmo da Sei Shonagon, ou de tantos tão superiores outros, vá, da Jo March, não fora, apesar da genuína admiração, o facto de, infelizmente, não serem os meus mais internos heróis.
O meu grande herói é D. Vito Corleone. Gosto de tudo dele e não tenho, ó desgosto, umazinha só das qualidades que nele superabundam e a mim tanto faltam. Gosto-o criança muda e subestimada, gosto-o fechado no quarto, de quarentena, a cantar para ter tudo o que já tinha perdido, gosto-o diligente de mercearia e ali babá de levar para a mulher aconchegar a casa, um tapete persa grande demais. Gosto-o por tão familiar. E por ser salomónico, proporcional e sem excessos. Mas mais que tudo, gosto que as circunstâncias que o determinam, determinem a excelência porque não se pode determinar aquilo que não se é.

O meu vilão parece divertido. Mas é um monstro. E é perigoso: é infantil, egoísta, indisciplinado, insuportável. Sabotador. Exaspera-me. Cansa-me. É pior do que Penélope à noite: desfaz, tenta desfazer, tudo. É o Calvin. O que me vale é que o meu Hobbes não é só o meu lindo Cão. É a, inaceitável para século XXI, Anita.

Comentários a “Manuel Fonseca, conte tudo tudinho!” (31)

  1. Joana Vasconcelos diz:

    Eugénia, coitada, coitada da Jo March … foi shortlisted mas ficou fora do meu nice side e pelos vistos não teve melhor sorte consigo …

    Agora vou ler melhor o seu texto e já volto mais logo

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Confesso que, por causa da Anita, e logo a Anita em pleno Dia da Mulher, estava à espera que me cortassem a cabeça.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Mas, Eugénia, tem alguma dúvida de que a sua Anita - e por isso uso expressão sua — entrou e segue deslargada pelo séc. XXI?

      Já aqui lhe disse, ela é completa, sabe e faz de tudo, sem complexos e com a atitude correcta que é basicamente a de que a vida é dela e ninguém tem nada a ver com isso. Fios de ovos caseiros logo pela manhã? Escalar montanhas ou montar a cavalo à tarde? Actriz de teatro amanhã ou depois? Baby-sitter quando precisar de ganhar uns euritos? Velejadora? Organizadora da mais fantástica das destas de anos, no próprio dia (o meu livro preferido …). You name it…

      Acho mesmo que a sua Anita vai ter um séc. XXI em cheio, liberta finalmente da opressora virtude de domestic goddess tanto quanto da libertadora mantra de que “mulher doméstica é mulher domesticada” …

      • Eugénia de Vasconcellos diz:

        Joana, já lhe disseram que é a aliada que toda a gente quer ter?

      • Turmalina diz:

        Mas muitos homens ainda não perceberam as mudanças.Outro dia mesmo uma amiga queixou-se que teve de escutar do marido: — Mulher minha não trabalha! Isto porque ela foi, feliz, contar-lhe sobre uma oportunidade de trabalho na área em que se formou. Ficou indignada mas calou-se, talvez por já estar domesticada demais…

        • Eugénia de Vasconcellos diz:

          Ao contrário do que é fácil apontar quando se adentra um discurso extremado, há muitas razões, tanto boas quanto más, para a domesticidade feminina. Mesmo que culturalmente nos choquem.

          Quantas criadas/ empregadas domésticas/ assistentes pessoais tem a sua amiga? O marido dela sabe que o trabalho doméstico não é feito pelas fadas madrinhas da Princesa Aurora?

          • Turmalina diz:

            O pior, Eugénia, é que ela tem duas empregadas/assistentes…e ainda mora ao lado da sogra.

            • Eugénia de Vasconcellos diz:

              Antes assim, o meu preconceito fez-me pensar que para esse marido, o trabalho doméstico não seria considerado trabalho.

              • Turmalina diz:

                Eu entendi…e é assim mesmo. Muitos não consideram o trabalho doméstico.Para estes, seria bom que trocassem de lugar com a mulher uma única semana, tendo de limpar, lavar, passar, cozinhar, fazer as compras da casa,guardar essas mesmas compras, cuidar das as crianças como se deve e ainda dar atenção à esposa. Ah, ele ainda irá trabalhar “fora”?Melhor ainda :o)
                E no caso do marido que citei é um pouco diferente.Ela quando engravidou do primeiro filho e casou, fez a opção por não voltar ao trabalho.Mas não por causa do casamento e sim porque queria dar toda a atenção ao filho. Depois veio uma filha.E agora que as crianças cresceram, ela quer voltar a trabalhar.É uma questão de foro íntimo, hoje ela sente a necessidade de trabalhar na área de marketing outra vez, de criar.E o marido simplesmente disse que não deixa.E não existe a mínima chance de diálogo e estamos em pleno séc.XXI.

  3. maria araujo diz:

    Esperei pacientemente pelas suas escolhas.
    No meu imaginário achava que a Jo March seria escolhida.Algumas semelhanças,excluindo os sapatos de verniz.
    Eu tenho um herói.Há muito tempo.Desvaira-me a vida.Cometo pecados,embrulho-me em incertezas e ‚perigosamente,só encontro abrigo nos vendavais.Heathcliff de seu nome.

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Ms Vasconcel(l)os, I mean, Her Majesty, e quer que eu conte o quê agora que já me roubou o mais majestático dos mafiosos? Quer mesmo que lhe conte dos meus heróis e vilãos? Vai ver, em maldades, a feminina lista que lhe vou arranjar. Não vou postar hoje que é Dia das Meninas e a Joana se zangava e me chegava a roupa ao pêlo. E amanhã também não que é luto da luta. Daqui a 4 ou 5 dias que eu sou tão importante como o PMS e também gosto de entradas de vedette. Para não falar do PN que se baldou ao morto…

    • Joana Vasconcelos diz:

      As desculpas que este homem arranja!

      Manuel Slippery Fonseca, eu até acho que seria, como dizer, simbólico? emblemático? paradigmático? (aquele policresta do PMS bloqueou-me …) findar este dia em que se listam as torpezas e iniquidades que às mulheres continuam a ser inflingidas por esse mundo fora com uma lista de vilãs bem competentes - desde que a respectiva ruindade se exercesse exclusivamente sobre os homens (como, aliás, suspeito que seria seu critério …) Por mim pode começar já …

      • Manuel S. Fonseca diz:

        Nã, nã, nã! Nada será publicado sem prévia consulta aos meus advogados.
        Mas há uma óbvia falha lógica no seu argumento, e cito — “desde que a respectiva ruindade se exercesse exclusivamente sobre os homens”. Ruindade exercida sobre um homem virtuoso é, e a Joana e amigas Bacantes sabem, ruindade exercida sobre a polis.

        • Eugénia de Vasconcellos diz:

          Não esqueça, Santo Polis Fonseca, que a ruindade atempada pode ser formativa, se oculta a semente da bondade profunda.

        • Joana Vasconcelos diz:

          Mas Manuel Solicitor-Dependent Fonseca, a ideia de listar vilãs em resposta ao simpático desafio da EV foi sua!

          Cabe-lhe, pois, demonstrar à saciedade e caso a caso a vileza de todas e de cada uma, desde logo se e em que termos exerceu maldade sobre homem virtuoso (é suposto demonstrar também em que consiste a alegada virtude do mesmo, só para que possamos apreender o decerto isento critério em que se baseou …). Ora veja só em que trabalhos se meteu … e sozinho.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Quero pois quero! Hoje. Com ou sem Vito. Com ou sem femininas feras. Ou vai armar-se em dissidente?

  5. pedro marta santos diz:

    Proclamadíssima Magnificência, a vossos pés me vergo, deselegante por breves e mui terrenos momentos partilhar Sua onomástica realeza. Se do império cinéfilo me rogo soez súbdito, ganho muda reverência face à policresta plenitude do véu poético que lançais sobre montes mediterrânicos e vales interneticos.

  6. pedro marta santos diz:

    A sua lembrança do Vito Andolini de Corleone, criança e jovem adulto, quando a violência era ainda sinónimo de sobrevivência, foi muito pertinente: who knows why evil lurks in the hearts of men?

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Eu acho que a resposta está todinha completa na sua frase, PMS: o evil não lurks, vem com o chip de série de “quando a violência ainda era sinónimo de sobrevivência”.

  7. Arsénio Lobão diz:

    Eu já me sinto todo policrestinho só de vos ler…

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Sabe quem é policresto, Arsénio Lobão? Acabo de o descobri mesmo agorinha na newsletter que recebi da G&P: é o autor de “O Romance Ilegal do Sr. Rodolfo” — o raio do livro tem uma capa tão linda que apetece logo abrir para ler. Vou comprá-lo e lê-lo assim que sair e fazer-lhe um post, afinal, entre as qualidades que ainda lhe desconheço, tem uma já provada: é do bisneto do meu rico marido. Ó céus, tão nova e já bisavó!

      • Joana Vasconcelos diz:

        Permita-me Eugénia que faça meu esse seu comentário - tirando a parte da bisavó, claro, e também a promessa pública de post — facto que o tornará, muito apropriada, conquanto que parcialmente policresto

        Arsénio Bento, registo o embirrativo, quase persecutório, contraste entre a implicância de há dias com o meu precludir e a pronta gracinha a propósito do policresto

  8. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Joana, claro, as minhas palavras são suas.

  9. Turmalina diz:

    Voltando ao seu post, sendo o homem um ser policresto fica dificíl atribuir-lhe o bem ou o mal. Adorei a escolha de Vito.

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