folhetim 7– Little Church Around the Corner

Os grandes edifícios humanos são todos sobre um crime. Os arranha-céus são sobre o crime dos que caíram das suas vigas, dos que se atiraram das suas janelas, dos que dão um tiro nos cornos cá em baixo porque as gravatas lá em cima cancelaram as hipotecas. As pontes são sobre o crime das mãos a cheirar a maços de cem dólares, das mulheres que bateram com o corpo na água, até aí tão graciosa, depois de o distenderem em câmara lenta durante um segundo, o segundo em que recapitulam a vida miserável que os pais ou o marido lhes ofereceram antes de se deixarem cair na escuridão do rio. As catedrais são sobre o crime de crucificar o único homem que acreditou em nós, Senhor, antes de queimarem com tochas os pecados que nos aquecem vivos e um minuto depois de molharem as testas dos recém-nascidos para que não vivam mortos.


Francisco Xavier, este, o vosso, sabia desses crimes. Também conhecia outras trivialidades: que o sexo é a única forma de adiar a morte e que o amor é a única forma de lhe escapar, pelo menos até à hora em Que, Senhor.

Há uma semana que andava escondido em aviões, dissimulado nos hotéis, desaparecido pelas cidades-tifo da América, um mês depois dos labirintos de Atenas que cheiravam todos a mar mitra ou a mel mofo, das bibliotecas aquáticas de Vaitheeswaram, das ravinas ortodoxas e dos círculos hindus, das igrejas e dos templos, dos mistagogos e dos bramanes, dos bispos e dos babalorixás, dos diáconos, presbíteros, clérigos, padres e homens-bata com mais sangue no tecido e nas mãos, rais te partam, Senhor, que os anos passam e só me deixas o sal na boca, a poeira das viagens sem epílogo, os dedos gretados, os pés em sombra por saber cada vez menos e depois me levas tudo, mulher, pais que não são mas amava como se fossem, o gosto pela comida, o olfacto dos líquidos, a beleza indiferente das flores, a preguiça que vem com o que alguns chamam de felicidade — palavra que aprendi a odiar sem uma onça de cinismo e como nenhum outro som inciso à face da Terra -, o vazio exacto do fantasma que me atravessa a cabeça como vara de aço dentada, cinco vezes ao dia, cinco vezes a mesma dor de corno por andar mais perdido do que na madrugada do início, oito anos antes, quando percebi que o nome aos pulos no fim dos lábios não era meu, e que o nome verdadeiro estava perdido na gaveta das meias de um bêbado grotescamente invisível, de feitos lendários, apelido ubíquo e juízo mais aleatório do que um magistrado de calças coçadas e dentes comidos pelo gin com medo de trovões e apreço por cachopas sem idade para votar no partido que o fez deslizar na sua própria merda para o cadeirão de um tribunal da escória mais pura e sul-americana. Senhor.


Saiu da Morgan, a olhar um momento para o novo fim de linha, a linha que tinha traçado mentalmente e conferido em demasiados guardanapos do “Smalls”, até perceber que Sandeep já não aparecia e o dono do estaminé, um esboço de beatnick com barbas miríficas e hálito tão desagradável como os neo-cons, o ter posto delicadamente dali para fora.


O fim da linha era agora uma frase, que retirara, na tradução inglesa, de um dos sete salmos penitenciais do Livro das Horas de Catarina de Cleves, o salmo 131, que sabia chamar-se, comummente, De Profundis:


My soul waiteth for the Lord more than they that watch for the morning: I say, more than they that watch for the morning.


Esmagou a frase e as mais vívidas encarnações do Senhor nela guardadas, e atirou-as para o lixo.

Resolveu caminhar um pouco: para um homem perdido, havia poucas cidades melhores do que Nova Iorque. Desceu a Madison sem reparar nos publicitários brancos, apressados, com 5O Cent a sair-lhes dos i-phones, nas mulheres negras e orientais, mestres em nada-fazer, de Mizrahi nos pés, botox nas têmporas e vinho branco australiano nas veias enquanto os cães lhes tapam discretamente os joelhos, única prova da sua verdadeira idade geológica, nas crianças de mil cores e rostos, ora de acúcar, ora apimentados, como um anúncio da Diesel com duas vassouradas sebentas de realidade social, quando percebeu que já tinha percorrido sete quarteirões, da East 36th à East 29th Street.


Olhou em frente: “Little Church Around the Corner”, dizia o letreiro, estranhamente epicurista, junto à igrejazinha.


“Outra não…”. Mas tinha-se levantado às 04h30, o sol, indiferente às parvoíces terrenas, estava preste a recolher-se entre a Pennsylvania Station e o Garden, a perna esquerda ainda lhe doía da pancada que deu na banheira armadilhada do Chelsea Hotel, e resolveu entrar: pelo letreiro, faltavam quinze minutos para o encerramento.


Apesar do nome, a “Little Church Around the Corner” tinha mais ídolos, referências, capelinhas e homenagens do que o Giants Stadium: mosaicos venezianos do arcanjo Gabriel, chancelas revivalistas do gótico vitoriano, parapeitos com pelicanos a amamentarem as suas crias, púlpitos de bronze, painéis flamengos do século XVI revestindo as paredes do confessionário, um columbário para as cinzas dos paroquianos, um ícone, de Vladislav Andrejev, representando a Anastasis, vitrais sobre a igualdade racial, uma janela a figurar o actor Edwin Booth (irmão de um senhor de má fama chamado John Wilkes Booth ) encenando uma cena de “Hamlet”, uma capela a José de Arimateia, uma estatueta da Igreja Episcopal ao Bom Pastor, medalhões com referências à folha de palmeira dos persas, à flor de lótus dos egípcios, ao jarro de água dos islâmicos, à “cruz de fylfot” dos budistas (também celebrizada por “suástica”), à árvore da vida dos hindus, ao golfinho dos romanos e à nuvem celestial dos chineses — tudo aquilo era agora para Francisco, para este Francisco, um bricabraque de “recuerdos” espirituais.


Na igreja deserta de almas para acudir, só um pequenino vitral, no canto oeste, lhe chamou a atenção. Originalmente desenhado para uma igreja belga do século XIV, depois destruída nas Guerras Napoleónicas, mostrava Sainte-Foi, a cristã virgem da Aquitânia, perseguida e torturada até à morte pelos romanos ao recusar os rituais pagãos.

Na simplicidade do desenho, quase se podia sentir a graça da menina.

Já dera meia-volta para sair quando, ao fundo do seu olhar, reparou na capela junto ao baptistério.

Atravessou o septo, aproximou-se e entrou.

Ao lado do pequeno altar, uma réplica de “A Virgem e o Menino”, de Botticelli.

Pára, olhando para o quadro. Fixa-se por um momento na face da Virgem Maria: de uma estarrecedora serenidade, não parece o rosto de uma rapariga de quinze anos, a idade em que Maria teve o Menino. Olha-a bem, inclinada sobre a criança, que parece dizer qualquer coisa à mãe, e sente que aquele rosto tranquilo lhe é profundamente familiar, como se pertencesse à única passageira de uma barca que navega dentro de si há dezenas de anos, o rosto nas fotografias que Catarina recebera de Malange.

Ouve um sussurro.

Olha em volta, ilibando o susto pelo cansaço. Volta a ouvir, e percebe que o sussurro vem do quadro.

Aproxima-se mais, quase tocando a tela com a maçã do rosto: perante um quadro, deixa de tentar ver para tentar ouvir, quando repara que o sussurro vem do Menino.

Encosta o ouvido à boca rosa da criança, deixando assim a sua face a par com a face da Virgem Maria, quase se tocando, pele em pele, na mais primorosa das transubstanciações.

E consegue ouvir:


“Diz-lhe que estás viva, e que o teu nome é o nome dele”

 


Comentários a “7– Little Church Around the Corner” (11)

  1. Joana Vasconcelos diz:

    O episódio 7 — o número dos números – teria que ser diferente. Foi.

    Fantástico, Pedro, este seu texto, que me arrastou, ensonada e sem largar o primeiro dos muitos cafés de hoje, pelo turbilhão na cabeça do Francisco e pelas ruas da NY que eu adoro até este fascinante sítio que existe mesmo (!!!) e que da próxima, que espero muito breve, vez, não deixarei mesmo escapar!

    Só mais uma coisa … sabe se o Menino falou em português ou em inglês?

    Agora vou. Até mais logo.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Peter Faulkner, quando dizes: ” que o sexo é a única forma de adiar a morte e que o amor é a única forma de lhe escapar” percebo o sexo, mas esclarece-me, o amor é a única forma de escapar ao quê? Ao sexo, bem entendido?!
    Grande avanço (caramba, desceste a Madison quase toda) e quite amazing writing, com twist perverso: a referência à idade da Virgem é, descabelado ateu, a tua maneira de dizeres que Deus gosta delas novinhas.

  3. Turmalina diz:

    Li e depois reli este texto em voz alta.Confesso que alguns textos me emocionam, aonde o conteúdo não importa tanto, mas sim a beleza de juntar e separar palavras de forma magistral, construindo imagens tão nítidas.E em cada frase vi muito de cada um de nós.Admiro quem parece brincar com as palavras.Se um dia eu conseguir escrever um quinto do que você e a Eugênia escrevem, já me darei por satisfeita.E se não der não tem problema também, porque espero poder continuar lendo-os por muitos e muitos anos. Não que outros aqui não escrevam bem, mas é que vocês possuem uma forma diferente de fazê-lo.

  4. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Pedro. Fantástico.

  5. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Gostei do seu texto, PMS.

  6. Pasma, mal e mal escrevo minha reverência que deveria ser silenciosa…

  7. pedro marta santos diz:

    Muito obrigado pelos vossos comentários, Joana, Manuel, Gonçalo e Eugénia. Turmalina, as suas palavras dão-me ânimo para tentar conseguir um dia o que diz que agora alcanço. Agradeço-lhe imenso. A reverência é minha, borboletasnosolhos, pela sua visita e simpatia.
    Manuel Selznick Fonseca: peço-te que, quando chegar a altura de apreciares aquilo que nós cá sabemos, sejas implacável como bem preciso.

  8. Vasco Grilo diz:

    O mistério torna-se ainda mais denso. Um belo sarilhos estamos aqui a armar ao pobre FX.
    Belíssimo avanço Pedro!

  9. pedro marta santos diz:

    Thanks, soulful italian drifter.

  10. pedro marta santos diz:

    Thanks, you soulful italian drifter.

Comentar