Lindos livros, 2

Está na prateleira. Na sexta do décimo segundo módulo da estante do escritório. Encostado ao gordíssimo “Dictionnaire des Mythes Litéraires”, o “The Dictionary of Imaginary Places” é um elegante álbum de 21 por 30 cm, da autoria de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi.
Em 454 páginas este Dicionário inventaria lugares imaginários, cidades, reinos, ilhas, continentes com que os escritores povoaram a literatura mundial.
Todos? Quase.
Face à vastidão da escolha, Mangel e Guadalupi decidiram eliminar aqueles lugares que a exaltada inspiração dos ficcionistas situou em inefáveis espaços celestiais ou nos mais nefandos e enxofrados infernos.
Sem céu, sem inferno, de Hermafrodita a Laputa, a ilha voadora, o Dicionário faz apenas o elenco dos lugares imaginários que se situam algures no planeta Terra, onde julgamos ilusoriamente habitar. Nem por isso o acesso é evidente: mesmo para o mais impenitente e diligente viajante, fica já o aviso de que não é com o primeiro low-cost que lá vai chegar.
Por honra da firma, acrescento que foram igualmente excluídos lugares como o Yoknapatawpha de Faulkner ou a Balbec de Proust. São, segundo Manguel e Guadalupi, lugares reais camuflados.
O que podemos então encontrar neste guia? Palavras, mapas e desenhos que mostram castelos, campos e montanhas, habitados pelos cavaleiros do Rei Artur, as terras e lugares onde Gulliver foi minúsculo ou gigante, que nos revelam Atlantis ou Shangri-la, descrevendo-lhes a geografia, a história, os insólitos habitantes. Dois anos de trabalho, milhares de lugares visitados de que sobraram, na versão final expandida que guardo religiosamente, mais de mil e duzentas entradas apresentadas com rigor e graça, com austero enciclopedismo ou com apelo quase sensual. Basta lembrar a descrição de Frivola, ilha do Pacífico governada por “Sua Alteza Toda a Elegância”, onde os frutos se desfazem na boca como espuma, as árvores se dobram graciosas ao mais ligeiro sopro e o suave assobio das mulheres faz nascer o centeio nos prados.
Ou recordar Capillaria, país submarino situado no oceano que separa a Noruega dos Estados Unidos, de gigantescas mulheres louras, caras angélicas, corpos de seda, pele alabastrina. Capillaria é uma terra sem homens, mas inundada de “bullpops”, criaturinhas na forma de órgãos sexuais masculinos que as pulposas habitantes devoram com particular apetite, não só por os acharem uma delicacy, mas também por acreditarem piamente que o seu consumo é inquestionável ajuda à capacidade de reprodução da loira e feminina raça. (Tentado embora, temo ainda não ser este o bom momento para, bullpop, me oferecer às presumíveis, porventura irreversíveis, delícias de Capillaria).
Para que tenham uma ideia mais precisa do livro, deixem-me dizer onde começa e acaba a peregrinação dos autores que, espero, vos inspire agora périplos inconfessáveis. O “Dicionário dos Lugares Imaginários” começa em Abaton (do grego a, não; baino, eu vou), uma cidade cuja localização é permanentemente móvel, o que a torna quase inacessível (garanto que não há mesmo GPS que vos valha). Alguns viajantes, diga-se, já a viram surgir, delicada e efémera, na linha do horizonte. Os testemunhos dão conta de altíssimos muros e poderosas torres de luz azul ou branca, embora no único vislumbre que dela tive (é verdade), me tenha surgido intensa e deliciosamente vermelha. Essa fulgurante e brevíssima visão causa a alguns viajantes arrebatado êxtase, a outros funda e inultrapassável tristeza. Tão incurável uma como outra, diga-se.
Termina, o adorável dicionário, em Where-Nobody-Talks (Où-On-Ne-Parle-Pas), o país que Jean Marie Gustave Le Clézio localizou no interior da nossa própria voz. Os habitantes são mudos, mas dizem maravilhosas coisas uns aos outros por palavras inaudíveis. O país, as estradas, os telhados, os automóveis estão cobertos por uma espessa e invisível neve que tudo abafa.
Silencioso embora, este nosso Cemitério de Gente Morta não consta das entradas. Apavora-me a ideia de que não se trate, afinal, de um lugar imaginário. Resta-nos fugir daqui a sete pés. De viagem, obviamente. A Figlefia, terra de exilados sensualistas de Limanora que se converteram numa raça promíscua e debochada. Raptam e escravizam mulheres das outras ilhas do arquipélago Riallaro. Quem sou eu para os censurar.

Comentários a “Lindos livros, 2” (12)

  1. Turmalina diz:

    Esse é um livro que se encaixaria bem em qualquer prateleira da estante aqui de casa, que não é lá muito grande, mas que sempre tem espaço para favoritos.Eu conservo em casa poucos dos livros que já li, acho que algo em torno de 200 títulos. Os demais tenho por hábito passar adiante.Porque num país aonde não existe o hábito de investir em leitura as bibliotecas vivem ávidas por doações.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Ó querida Turmalina, está a chamar-me um Scrooge da livralhada? rsss. Sabe que mais: sou mesmo. Não largo um e fico furioso quando me desaparecem livros: olhos de lado para os amigos e telefono aos últimos que passaram lá por casa a ameaçá-los.

  3. pedro marta santos diz:

    Suponho que este não dá para emprestar… Tenho que começar a arrumar carros, para ver se acedo a estas delícias.

  4. pedro marta santos diz:

    Tenho um para devolver, a propósito.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Pedro, se julgas que me esqueci e que estou com sorrisinho a ler esta tua displicência, estás muito bem enganado? Empresto-te o Imaginary quando me devolveres o outro e me assinares um autógrafo num livro de que um destes dias falarei.

  5. Luciana diz:

    Dificilmente poderia habitar Où-On-Ne-Parle-Pas, já que parece que tomei água de chocalho na mais tenra infância. Mas poderia viver, por anos e anos, com alegria, nas páginas dos livros ora de propriedade do sr. Manuel (rsrsrs) ou, valhamedeus, vagando por este blog, de post em post, perdida nas suas (dele: Manuel) elegantes e encantadoras palavras…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Luciana, já fui visitar a sua rede de blogues e vi pelas exuberantes fotos que dificilmente será de estar sentada, caladinha e virada para a frente, como me diziam os meus professores da escola primária. Ainda bem, good for you.

  6. Ruy Vasconcelos diz:

    na literatura brasileira há ‘tubiacanga’, do conto ’ a nova califórnia’, de lima barreto (1881−1922), possivelmente o mais talentoso ficcionista do pré-modernismo depois de machado de assis. mas ainda pouco conhecido fora do brasil. nessa pequena cidade provinciana, a população, dissimuladamente, começa a desenterrar seus mortos [atenção é tudo gente morta!] por julgar que pode com suas ossadas obter ouro mediante a fórmula de um alquimista charlatão. o conto pode ser lido na íntegra aqui:

    http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.br/conteudo/LimaBarreto/ANovaCalifornia.htm

  7. António Eça diz:

    In Xanadu did Kubla Khan
    A stately pleasure-dome decree:
    Where Alph the sacred river, ran
    Through caverns measureless to man
    Down to a sunless sea.
    So twice five miles of fertile ground
    With walls and towers were girdled round:
    And there were gardens bright with sinuous rills,
    Where blossomed many an incense-bearing tree;
    And here were forests ancient as the hills,
    Enfolding sunny spots of greenery.

    A vision in a dream — a fragment, de Samuel Taylor Coleridge

  8. Eugénia de Vasconcellos diz:

    “Onde os frutos se desfazem na boca como espuma, as árvores se dobram graciosas ao mais ligeiro sopro e o suave assobio das mulheres faz nascer o centeio nos prados.”

    Brincou com o som s e parece, de facto, que o vento leve se ouve até entre o crescimento do centeio. Gostei disso.

  9. Manuel S. Fonseca diz:

    Eugénia, gosto mesmo de aliterações. Sou incapaz de as pensar. Se, como diz, andei perto de fazer uma, foi por feliz distracção. Vénia à sua tão gentil observação.

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