Nova Iorque, pela manhã. Lá fora muita luz e uma brisa suave, um pouco quente e húmida. Francisco acordou sobressaltado e dorido, e perdeu pouco tempo a admirar os raios de sol que se reflectiam múltiplas vezes nos vidros daqueles edifícios. Nem mesmo depois de uma semana em que Manhattan não vira o céu azul. Ao gin, conhecia-lhe perfeitamente todos os efeitos e sintomas remanescentes de uma noite sentado ao bar. Há anos que, a exemplo da bem sucedida centenária rainha Mãe, elegera a genebra como seu principal conservante. Aqueles vodkas perfumados da noite anterior, tantos e tão variados, esses, embora saborosos, tinham-no deixado frágil. Precisava de qualquer coisa para comer, para se recompor. Pelo menos da fraqueza geral e das mãos que tremiam, porque para aquilo que se passara na igreja, não conhecia paliativo algum.
Sentado ao balcão, enquanto deselegantemente saciava o seu apetite com uma comida pouco elegante, sentiu alguém a aproximar-se.
— O papa devia decretar que Deus não existe.
— Excuse me?
— Sim, era o que era preciso; que o papa decretasse que Deus não existe e que tudo não passa de imaginações e congeminações nossas. Ao menos assim é bem possível que os quadros deixassem de nos sussurrar coisas. — Nisto solta uma valente gargalhada, senta-se ao seu lado e aperta-lhe o ombro. — Come on old chap, don’t tell me you can’t remember anything from last night?
Harry era um britânico com um aspecto de se situar um pouco para lá da meia-idade, mas bem antes da terceira. Era um herdeiro e antigo fazendeiro no Zimbabwe, que tinha transferido as suas operações para Moçambique, mas que já não mais se interessava por aquelas andanças, agora que os árabes e os chineses se infiltravam cada vez mais nos destinos africanos. Estava em Nova Iorque para finalizar a transferência dos seus negócios, algo de monta. O dinheiro bastava-lhe já e queria agora dedicar-se exclusivamente à filantropia. Ainda assim, como o próprio afirmava, embora educado com as maneiras dos ingleses, a terra africana ainda lhe concedia a rudeza e a simplicidade no trato que o caracterizavam.
— Nem mesmo do pianista gordo? Os meus parabéns, não se lembra mesmo de nada; mas garanto-lhe que se portou como um verdadeiro gentleman e terá de voltar à Vodka Room, para apreciar devidamente aquelas maravilhosas concoctions que eles preparam. Ah!, — exclama, estendendo o braço em direcção à entrada, — aí vem a minha filha, que também conheceu ontem à noite. Catherine, parece que temos aqui um caso de amnésia auto-induzida bem sucedido. Formidável, não é? Quem diria, depois daquelas horas de conversa desenvolta!
“Catherine. Como é que não me lembro desta mulher. Não pode ser.” Catherine era assombrosamente parecida com Catarina. Loira, em vez de morena, mais sólida e rígida, como alguém que tem de lidar todos os dias com seres muito maiores e mais fortes do que ela. Ainda assim, aquele vestido caía-lhe na perfeição.
— Temos de ir agora pai — disse, pousando a mão no seu antebraço. Depois, virando-se para Francisco, — é a nossa última reunião, mas logo temos uma festa a que não me apetece nada ir. Se o meu pai acordar em tratar de fazer sala, leva-me a jantar para nos dedicarmos ao seu mistério?
Francisco anuiu, algo envergonhado. Que lhes teria contado na noite anterior? É certo que falou da igreja e da “Virgem e do Menino”, mas e o resto? A Grécia? A Índia? E o telefonema? E porque quereria ela ir jantar com ele; terá despertado assim tanto interesse? E a coincidência de ela ser igual a Catarina. Francisco pouco entendia daquilo que se estava a passar com ele. Inseguro e nebuloso. Traído e traidor; perdido. E no entanto excitado — excitado como um adolescente que descobriu a sua nova vocação, mas que ainda não se apercebeu de que cedo se vai cansar dela.
Nada daquilo fazia sentido, mas ainda assim não queria perder a oportunidade que Catherine lhe oferecera. O telefone, esse desligara-o. Os filhos? Mais tarde. Há tempo. O resto do mundo? Gira. E o dia passou-o a escrevinhar coisas num bloco, entre cafés, livrarias e mais uma visita à Pierpont Morgan. Estranhamente estava absorto em pensamentos vazios e arrogantemente evitava que algo daquilo que até ali se tinha passado lhe viesse à mente.
À noite, embora melhor vestido, não deixava de se aparentar com um hipotético Hemingway, vestido à civil, num fim-de-semana de licença após a libertação de Paris. E estranhamente, sentia-se um pouco hemingway. Nem ele sabia o que isso era, mas era a sua máscara cobarde. Catherine estava deslumbrante, tendo quebrado a formalidade da sua indumentária institucional com a naturalidade de alguém que é um operacional e não um teórico de gabinete — “Vamos?”
— Então, as paredes falam-lhe? Já ouvi dizer que são boas ouvintes, mas falar — troçou, enquanto se preparava para provar o vinho que lhes tinham trazido.
— Foi um quadro, ainda assim, foi a minha primeira vez, também… Quem sabe, é possível que não fosse eu o destinatário daquela mensagem. Certamente que era para uma mulher.
— Os pensamentos abertos de uma, talvez? Talvez da sua mulher? Oportunidade única.
— Ex-mulher.
— Ai sim? Mas olhe que as paredes, ou os quadros, não falam a qualquer um.
— E porquê a mim?
— Antes disso, fale-me de si, que ontem à noite não esteve completamente coerente. Quem é…
— Eu? — interrompeu — agora sou um viajante perdido.
Francisco começou então a contar-lhe, selectivamente, a sua viagem, partindo dali de Nova Iorque para trás. Catherine ia acenando quando os pedaços soltos que ele tinha embargadamente revelado na noite interior encontravam o seu lugar na narrativa. Francisco continuava surpreendido pelo interesse de Catherine, mas estava mais interessado no seu interesse por Catherine. Um interesse muito primário. E claro, sempre que possível, embelezava os acontecimentos, tentando não discorrer sobre os estados de alma que até da sua mente tentava afastar. Catherine indeferia qualquer inversão no sentido da conversa, cada vez que ele tentava perguntar coisas e, para uma crescente irritação de Francisco, esquivava-se a revelar mais sobre ela própria.
— Ainda assim, não consigo entender o que o trouxe a Nova Iorque e a aquela igreja em particular — afirmou Catherine quando Francisco terminou a sua explanação sem nunca ter revelado, no entanto, a Índia e o que lá se passou.
Francisco não sabia o que responder. Em parte, porque ele próprio tinha dúvidas sobre o que ali estava a fazer. Mas sobretudo, porque não sabia porque havia de revelar a uma estranha aquilo que o consumia, uma estranha que despertava um interesse na sua história fora do comum, e que, mais estranho de tudo, era uma estranha que se aparentava com a sua própria mulher. A mulher, tinha-a deixado; esta atraía-o.
— Porque deixou os seus filhos?
— Desculpe?
— Porque é que deixou os seus filhos para trás. Não foi só a sua mulher.
— Como sabe dos meus filhos? Como sabe que tenho filhos? — Francisco estava apreensivo.
— As clínicas do meu pai, que giro, são no Sul da Índia. — e um silêncio instalou-se — É uma pesquisa cósmica? Não sabe qual é o seu lugar no mundo? E os seus filhos?
— Oiça as coisas não são assim tão simples.
— Não são? Há quem as complique propositadamente.
— Nada disso, não inventei o que se está a passar comigo.
— Tem a certeza?
Francisco sentia-se agora ameaçado por aquela mulher, que subia o seu tom de voz e participava em mais uma das coincidências mirabolantes a juntar a todos os eventos estranhos dos últimos tempos. Mas não deixava de se sentir atraído por ela, ainda que agora estivesse também assustado. Certo é que Francisco sentia-se agora mais vivo do que nas recentes deambulações: um confronto directo, nada de instruções crípticas e obscuras.
— Claro que tenho a certeza! Repare nisto que está a acontecer: pelos vistos já me conhecia antes de me conhecer! E eu nunca tinha ouvido falar de si!
— E os seus filhos?
— Os meus filhos estão bem! Estarão bem!
— Abandonou-os.
— Não!
— Abandonou a mãe deles.
— Mais uma vez, as coisas não são assim tão simples! — e dizendo isto o medo subiu-lhe a medula, encolhendo-se, e a atracção que ainda sentia por Catherine já não tinha força para se sobrepor à sua cobardia.
— A Luísa bem me disse…
— …o quê?!
— Lembra-se do que lhe disse o guru do templo de Vaitheeswaram?
Naquele instante Francisco recordou-se claramente da primeira frase escrita naquele pedaço de papel: “Duas vezes terás de morrer até encontrares o teu nome inteiro.” Quando levantou a cabeça e olhou para Catherine só viu uma pistola apontada na sua direcção e um clarão.
Catherine rapidamente saíu do restaurante e entrou num carro, com Sandeep ao volante. Lá dentro Francisco estava estendido no chão e depois do zumbido ter desvanecido, sem saber bem o que sentia, se é que sentia alguma coisa, apenas ouvia vindo das colunas do restaurante “I don’t want to set the world on fire”. Durante uns breves instantes só, até os restantes comensais começarem aos gritos.

















Francisco, esperava tudo de si, menos que nos deixasse com um corpo a sangrar no chão da sala. Mas lá que foi um belo tiro…
Divino Francisco! Arrepiei-me no final.…..
Agora sim que a história não tem dono.….
A idéia do tiro foi genial! Perfeita a colocação, logo em seguida da pergunta: — Lembra-se do que lhe disse o guru do templo de Vaitheeswaram?. Enquanto eu tentava me lembrar do tal guru e do bilhete, ela atirou.
Belo contra-golpe, Francisco. Com sabor de cocktail de gangsters e saloons, até umas tintas de Blade Runner? Diverti-me imenso com o jogo e o desfecho do jantar. Com a melodia certa a acompanhar. E a deixar-nos on fire…
Francisco!, fartei-me de gostar do tom de dry martini. E agora outra semana inteira à espera.
Uma revelação, Francisco. E o final musicado, muito cinematográfico, a fazer lembrar as balas de Andy Drufesne no arranque de “The Shawshank Redemption”.
Pedro: estranhamente não me lembro de nenhum tiroteio no filme… A rever!
Fantástico, Francisco! Li-o num frenesim, a querer saber TUDO o que ia acontecer (tinha espreitado os comentários, no avesso, já sabia que havia um tiro …) Mais sossegada, reli e adorei os pormenores … E agora???
Obrigado a todos!
As balas, que Andy teria cravado no peito do amante da mulher, são despejadas pela voz off de Red durante o prólogo do filme. Não se vêem, mas a sua existência, a sua posse e a sua autoria marcam o filme todo.
Tenho mesmo de rever o filme.
Isto tudo está relacionado com a fobia que tenho de rever filmes de que gostei muito… Mas isso é outra história!