Faz hoje 168 anos, ia uma louca e vertiginosa azáfama em muitas casas milanesas. Senhoras armavam cabelos, criadas passavam-lhes os longos vestidos, lustravam-se os generosos centímetros de doce seio que brilhariam depois no insensato decote. À noite, “ah, logo à noite”, estrear-se-ia no Scala a terceira ópera de… de…, “ai como é que ele se chama..?”, “Olha, Verdi, sei que é Verdi!”.
Livremente inspirada nos incidentes bíblicos, a cuja fantasia presto devoção, Nabucco, terceira ópera de Verdi, segue os sofrimentos e peregrinação do povo judeu, desde o ataque até à escravização e exílio. Tudo sob a feroz e férrea acção de Nabucodonosor (“Não sou rei! Sou Deus!”).
A noite foi gloriosa e o público pediu encore do “Immenso Jehovah”. Mas colado às paredes, caminhando pelas vielas mais escusas, um compositor alemão, Otto Nicolai, que recusara o libreto, a ele primeiro oferecido, ruminava impropérios: “Como é que podem gostar disto, o homem compõe como um louco, nem profissional é. Que história, só de raiva, sangue e matança!”
E era e começava assim:
E era e acabava assim:

















Nos últimos dias da vida do compositor, enquanto jazia no seu leito de morte no Grand Hotel Milan onde vivia, o povo espalhou palha pelas ruas em torno de forma a abafar o ruído das carroças e coches que passavam. Conhecendo os Milaneses, esta é uma forma de reverência só mesmo dada a divindades. Quem sabe o que terá pensado disso o pobre compositor alemão
Pormenor extraordinário.
Ouço ópera sempre por uma ou outra razão: porque gosto, em regra, ou porque, às vezes, raramente, fico muda. Nestas escolho quase sempre as mesmas árias do meu top ten. Da última vez, com o Antonino Votto, eu e o cão ficámos a ver brilhar a voz da Callas no Baile do Verdi e na Norma do Bellini.
Sabia que os cães ouvem mais notas que nós? O meu cão adora Callas. Põe-se ao pé das colunas e faz pequeníssimos movimentos com a cabeça e as orelhas muito atentas. Eu também adoro, mas fico quieta.
Que linda maneira de nos levar à ópera, Manel.
E que seiva de início e fim. De emudecer, como em alguns livros.
Ou a dar vontade de ter orelhas afinadas como as de alguns cães.